sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A Ingenuidade Como Decisão Política

Atualmente esquecidos do grande público, o grupo vocal Trio Esperança foi um popular conjunto na época da jovem guarda, quando o gênero viveu seus tempos áureos na segunda metade dos anos 60. Com a discografia quase integralmente fora de catálogo, o grupo sobrevive hoje das glórias do passado, realizando shows em bailões nostálgicos. E como parecem ter aposentado a idéia de lançar um material inédito, coletâneas como "Minha História", de 1994, se tornam boa oportunidade para conhecer seu trabalho.

Ainda que tivesse seu caráter "rebelde" associado ao uso de guitarras elétricas (que inspirou conhecida passeata contra o instrumento) e canções baseadas no som dançante do rock (para os conservadores da época, o grande responsável pela desestruturação familiar!), a jovem guarda consagrou grande parte de sua produção e artistas realizando elegia a ingenuidade juvenil, a sedução romântica e uma malícia que quando revista hoje parece, vejam só, careta e muito "de família".

Se nos rincões mais populares o gênero era tido como subversivo, na ala mais elitizada da sociedade, contudo, sua vertente era taxada de alienada. Com a ditadura instalada no Pais, intensificou-se o engajamento político de jovens em movimentos estudantis, além de favorecer o surgimento de artistas questionando o governo e o cerceamento da liberdade. Era natural portanto que qualquer obra que prestasse apenas a distração e entretenimento fosse severamente atacada. E talvez com razão. Ao promover os códigos de conduta padrão da época, a suposta inocência presente nas letras das canções acabavam reforçando certo moralismo hipócrita da sociedade.

Em "Minha História" o Trio Esperança oferece o doce e o amargo para o público, contrapondo o humor das preocupações juvenis com o revés dramático das questões adultas. Na simpática "A Festa do Bolinha" o grupo segue a cartilha pueril, narrando o simplório causo de certa Lulu numa festa do Bolinha, e uma desavença envolvendo um tal de Raposão. Se a letra é bobinha suas narradoras dão certa graça a estorieta, temperando com pimenta maledicente a receita habitualmente insossa do gênero.

Mas é em "Por Teu Amor" que ataques ao alheamento da realidade atribuídos ao gênero justificam tais julgamentos. Embora produzida em meio as nuvens macias do piano Fender Rhoades, a canção lança zona cinzenta no repertório habitualmente ensolarado do disco, com o relato duma mulher aprisionada pelo companheiro mas cuja imposição entende como amor. O arranjo a lá surf music acentua ironia a composição, sobretudo quando a voz feminina (que representa as mulheres da época) entoa os versos "As minhas amigas não vejo mais/ Praia somente em cartão-postal/ Sei que sofro demais, mas não faz mal/ Por que é... por teu amor". Para o machismo que ali imperava, e a ditadura era um reflexo natural dessa situação, traduzir o sentimento através da imposição era tão normal quanto tirar a liberdade de um País. Nesse sentido, a ingenuidade alienante era uma escolha bem mais política do que faz supor.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Dias Quentes de um Novo Sentimento

Quando lançou seu segundo disco, 'Condom Black' (2001), o pernambucano Otto surpreendeu àqueles que criaram reservas quanto sua estréia - o elogiado 'Samba Pra Burro' (1999). Em meados dos anos 2000 a palavra de ordem era misturar todo gênero à música eletrônica. Esta tendência não demorou a chegar no Brasil, e solicitar fusões com estilos profundamente nacionais, como o samba e a bossa nova. Em que pese o fator novidade essas experimentações carregavam certo ranço, como se a tradição precisasse agora do aval moderno para soar valorizado. 'Samba Pra Burro' era trabalho que não redundava pasteurizado ou mero samba para gringo (tentar) dançar, como boa parte da turma que chafurdou clássicos da MPB em drum 'n' bass, mas seu interesse maior ocorria quando as batidas eletrônicas davam espaço a bases climáticas e certa psicódelia, contextualizando inclusive a própria poética do compositor (confusa e viajandona).

Resultado de pesquisas com tradições musicais, populares e religiosas, 'Condom Black' representa mudança (e tanto) no registro do artista. No disco, Otto troca os beats pela texturas da lounge music e incorpora ao instrumental uma musicalidade encorpada e orgânica, que mistura batuques de samba e as batidas percussivas do candomblé. O resultado é uma sonoridade ora hipnótica ora vibrante, e que mesmo embebida da simbologia dos orixás contagia independente da fé de quem escuta. Parte nos méritos do excelente trabalho deve ser creditado também ao produtor Apollo 9 que ajuda construir um repertório coeso, onde as canções somam à favor do conjunto e, ainda assim, têm seus valores individuais. E o albúm oferece ótimos destaques.

Caso da saborosa salsa 'Cuba', rica dos sons da ilha de Fidel Castro, e onde Chorão (Charlie Brown Jr.) rende boa participação. A balada 'Por Que' contrasta a suavidade melódica com o peso da palavra, nos doídos versos 'Por que você me quer assim/ triste e traiçoeiro'. A letra de 'Retratista' gira em torno de impressões confusas, criando um mosaico emocional estranho, mas cuja ambiência flutuante reforça com coerência seu caráter enigmático. 'Dilata' faz humor com trocadilhos, nos versos 'Dilata mulata seus olhos dilata/ Só não me delete do seu coração', mas deixa de lado as brincadeiras quanto aos arranjos, urdindo envolvente mistura de percussão e instrumentos de sopro.

E tem ainda a maravilhosa 'Dias de Janeiro', com sua analogia do início da paixão e a estação mais quente do ano. 'Dias de Janeiro, calor demais/ Dias de Janeiro, olha como faz/ Esquentam, é tão bom estar no mar', principia a canção. Mas assim como o rumor incerto do tempo (que converte um céu ensolarado de nuvens à descargas escuras de um temporal) a evolução do sentimento é inconstante, submerso tanto no movimento aprazível das águas quanto na correnteza inquieta do mar. Daí sua segunda metade refletir os versos 'Amo você, amo você/ Talvez não seja o certo/ Amo você demais'. É da inquietude instigante do sentimento (que causa tanto insegurança quanto desejo deliberado de ser  experimentado), além dos vocais valorosos da (boa) cantora Luciana Mello, que a faixa depura seu brilho, se tornando enfim belíssimo cartão de visitas do disco, além de evidente convite para curtir os dias quentes do verão (e, quem sabe, vivendo um novo amor).