Quando lançou seu segundo disco, 'Condom Black' (2001), o pernambucano Otto surpreendeu àqueles que criaram reservas quanto sua estréia - o elogiado 'Samba Pra Burro' (1999). Em meados dos anos 2000 a palavra de ordem era misturar todo gênero à música eletrônica. Esta tendência não demorou a chegar no Brasil, e solicitar fusões com estilos profundamente nacionais, como o samba e a bossa nova. Em que pese o fator novidade essas experimentações carregavam certo ranço, como se a tradição precisasse agora do aval moderno para soar valorizado. 'Samba Pra Burro' era trabalho que não redundava pasteurizado ou mero samba para gringo (tentar) dançar, como boa parte da turma que chafurdou clássicos da MPB em drum 'n' bass, mas seu interesse maior ocorria quando as batidas eletrônicas davam espaço a bases climáticas e certa psicódelia, contextualizando inclusive a própria poética do compositor (confusa e viajandona).
Resultado de pesquisas com tradições musicais, populares e religiosas, 'Condom Black' representa mudança (e tanto) no registro do artista. No disco, Otto troca os beats pela texturas da lounge music e incorpora ao instrumental uma musicalidade encorpada e orgânica, que mistura batuques de samba e as batidas percussivas do candomblé. O resultado é uma sonoridade ora hipnótica ora vibrante, e que mesmo embebida da simbologia dos orixás contagia independente da fé de quem escuta. Parte nos méritos do excelente trabalho deve ser creditado também ao produtor Apollo 9 que ajuda construir um repertório coeso, onde as canções somam à favor do conjunto e, ainda assim, têm seus valores individuais. E o albúm oferece ótimos destaques.
Caso da saborosa salsa 'Cuba', rica dos sons da ilha de Fidel Castro, e onde Chorão (Charlie Brown Jr.) rende boa participação. A balada 'Por Que' contrasta a suavidade melódica com o peso da palavra, nos doídos versos 'Por que você me quer assim/ triste e traiçoeiro'. A letra de 'Retratista' gira em torno de impressões confusas, criando um mosaico emocional estranho, mas cuja ambiência flutuante reforça com coerência seu caráter enigmático. 'Dilata' faz humor com trocadilhos, nos versos 'Dilata mulata seus olhos dilata/ Só não me delete do seu coração', mas deixa de lado as brincadeiras quanto aos arranjos, urdindo envolvente mistura de percussão e instrumentos de sopro.
E tem ainda a maravilhosa 'Dias de Janeiro', com sua analogia do início da paixão e a estação mais quente do ano. 'Dias de Janeiro, calor demais/ Dias de Janeiro, olha como faz/ Esquentam, é tão bom estar no mar', principia a canção. Mas assim como o rumor incerto do tempo (que converte um céu ensolarado de nuvens à descargas escuras de um temporal) a evolução do sentimento é inconstante, submerso tanto no movimento aprazível das águas quanto na correnteza inquieta do mar. Daí sua segunda metade refletir os versos 'Amo você, amo você/ Talvez não seja o certo/ Amo você demais'. É da inquietude instigante do sentimento (que causa tanto insegurança quanto desejo deliberado de ser experimentado), além dos vocais valorosos da (boa) cantora Luciana Mello, que a faixa depura seu brilho, se tornando enfim belíssimo cartão de visitas do disco, além de evidente convite para curtir os dias quentes do verão (e, quem sabe, vivendo um novo amor).
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