Em sua trajetória, a pop-star Madonna reafirmou sucessivas vezes o talento único de não apenas sintetizar tendências musicais mas capturar um sentimento comum dentro de uma época. Sua marca pode ser notada no rastro deixado em pouco mais de 30 anos, onde a artista conseguiu habilidosamente convergir momentos pessoais de sua vida no mesmo compasso de traduzir anseios coletivos, condicionando o gosto do público ao que se habituou intitular POP. Uma proeza que poucos podem se gabar e cuja (seleta) lista inclui-se Elvis Presley, The Beatles, Michael Jackson e os cineastas Alfred Hitchcock e Steven Spielberg. Muitas de suas canções são, portanto, confiáveis mapas para entender a geografia de tendências musicais e certos acontecimentos nas últimas décadas.
Entre alguns exemplos estão "Material Girl" (com a loiríssima Marilyn Monroe personificando tanto um desejo atemporal feminino como do yuppie materialista com planos de 'dominar o mundo', assim como a própria cantora); "Like a Prayer" (sobre a adesão ao catolicismo – nos anos 80, guiado pelo popular Papa João Paulo II - mas na mesma proporção de seu conflituoso questionamento); "Vogue" (com o conceito inalcançável da moda diluído em favor de uma passarela onde todos poderiam ter seu momento de 'fama e glamour' - "A beleza mora aonde você a encontra/ A alma está aqui no musical/ Você é um estrela e sabe disso/ Então venha para a pista de dança e faça uma pose"); "Ray of Light" (com o relógio biológico disparando o desejo materno da cantora e também desvelando a dicotomia da velocidade alucinante dos tempos modernos e a necessidade em buscar a paz interior); & "Hung Up" (onde o revival da cultura oitentista é reprocessada apropriadamente por uma de suas melhores representantes, se servindo da eurodance, sintetizadores e a disco music).
Mas o alcance de seu trabalho pode ser medida além do campo musical, sendo Madonna uma das raras artistas que conseguiram influir no comportamento das pessoas e relegando as novas gerações o feminismo através do liberalismo sexual, e que confronta a sociedade patriarcal a aceitar mulheres falando, sentindo e assumindo socialmente o prazer do sexo. Outra importante postura da artista foi apoiar os homossexuais numa época em que isso era pouco, ou quase nada, popular (numa realidade bem diferente dos adias atuais). Fosse incluindo sem medo ou preconceito o estilo gay em seus discos, vídeos e shows, ou tratando da questão abertamente a artista quebrou tabus ao dar visibilidade a uma cultura até então marginalizada. Enquanto celebridades tinham medo de expor sua opinião sobre sexo e homossexualidade, ela ia além se declarando bissexual!
Se desde o início Madonna provocava o debate da sexualidade, polemizando sobretudo nos temas religiosos, sua música deixava de questionar com igual deliberação o erotismo feminino escravo da imagem machista. Tanto que a artista inicialmente ficou conhecida como um símbolo sexual que apenas convidava as pessoas para se divertir, não muito diferente de tantas outras. Até meados dos anos 80 sua imagem era da jovem sexy insolente brincando com a controvérsia. E mesmo quando a abordagem musical (sobre a culpa católica) amadureceu a representação ainda flertava com a dissimulação. Como na citada "Like a Prayer", uma canção ousada onde o desejo é traduzido como numa oração, e cujo vídeo a cantora é mostrada dormindo com um Jesus negro (e dentro de uma Igreja!) mas para no fim dizer que tudo não passou de teatrinho.
Lançado em 1992, o álbum "Erótica" foi o ponto culminante na escalada escandalosa e transgressiva de sua carreira, onde Madonna radicalizou enfim a temática sexual e escancarou não a menina fingindo falar sobre assuntos sérios mas a mulher à frente de um projeto onde som e imagem convergia sem atenuação. Versando sobre temas distintos como desencontros, brigas, aceitação, mentiras e amor, o trabalho pode ser definido como um disco conceitual e parte de um combo que inclui um livro ('SEX') e filme ('Corpo em Evidência') tendo a temática sexual como foco principal. Embora incômoda pra alguns, a linguagem franca e direta do sexo serve antes para apontar o preconceito e hipocrisia do que oferecer uma nota gratuita de escândalo, chocando sim, mas por atingir o imaginário coletivo pelas transformações que o mundo passava numa época Pós-AIDS, onde falar sobre liberdade sexual soava um abuso, sobretudo, pela discriminação e falta de informação sobre o HIV.
Muito dos bons resultados do álbum se deve, certamente, as ótimas composições do repertório. O sofrimento da auto-aceitação esta presente em "Deeper And Deeper" ("Alguém disse que o romance estava morto/ E acreditei nisso ao invés de me lembrar/ Do que minha mãe me disse/ 'Tudo é válido no amor', ela disse/ Deixei meu pai me moldar/ Então você tentou me segurar/ Me lembrando o que eles diziam/ Este sentimento aqui dentro/ Eu não consigo explicar/ Mas meu amor está vivo/ E nunca vou escondê-lo novamente"); assim como o questionamento a uma sociedade estanque em "Why's It So Hard" ("Por que não podemos aprender a desafiar o sistema/ Sem viver com dor/ Irmãos, irmãs/ Por que não conseguimos aprender a aceitar que somos diferentes/ Antes que seja tarde demais?/ Por que é tão difícil"); e a perplexidade diante da morte pela SIDA em "In This Life", uma composição de pungência extraordinária ("Sentada num banco do parque/ Pensando num amigo meu/ Ele tinha só 23 anos/ E se foi antes do momento certo/ Isso veio sem avisar/ Não queria que seus amigos o vissem chorando/ Ele sabia que o dia estava começando/ E eu não tive chance de dizer adeus/ (...)/ Dirigindo pela a alameda/ Pensando em um homem que eu conhecia/ Ele era como uma pai para mim/ Me ensinou a me respeitar/ Disse que todos nós somos feitos de carne e sangue/ Por que ele deveria ser tratado diferente?/ Não deveria importar quem você escolhe para amar/ (...)/ Nesta vida eu te amei acima de tudo/ Pois agora você se foi e eu fico me perguntando/ Para quê?/ (...)/ Há uma lição que eu devo aprender neste caso/ Ignorância não é a glória/ (...)/ Alguns dizem que a vida não é justa/ Eu digo que as pessoas não se importam").
Mas foi na faixa título que a artista provou não estar pra brincadeira. Se o conteúdo da composição já era controverso, Madonna não facilitou com o material promocional encarnando no antológico videoclipe uma dominatrix que queria satisfazer seus prazeres carnais, em cenas que pareciam recriações do fotografo Robert Mapplethorpe, o famoso documentarista da cena underground gay, e concebendo uma representação quase literal e agressiva dos versos da canção ("Meu nome é Dita/ Serei sua anfitriã essa noite/ Eu gostaria de colocar você em transe/ Se eu pegar você por trás/ Entrar com força em sua mente/ Quando você menos esperar/ Você vai tentar rejeitar?/ Se eu estiver no comando e tratá-lo como uma criança/ Você vai se deixar ir à loucura?/ Deixar minha boca ir onde ela quer?").
De forma ousada, a sexualidade é abordada em cenas quase explicitas, simulando atos sexuais e revelando fetiches através da prática do sadomasoquismo em meio a símbolos religiosos e num ambiente que incita uma evidente promiscuidade. Com o sagrado e o profano - que tanto assusta a hipnotiza a Humanidade - se confundindo e incitando, era esperado que houvesse reações exaltadas do público e certas autoridades, só que algo saiu um pouco do controle, tomando ares de perigo real semelhante a um rastro de pólvora atingida por fogo. Após o lançamento do clipe, protestos varreram a America com religiosos inflamados e propagando a artista como uma "pervertida sem valores, cujo trabalho era apenas para acabar com a constituição da família". Muitos disseram que a cantora havia ido longe demais, com uma concepção artistica que não se sabia mais ser pornográfica ou sensual, e que sua carreira acabaria ali. Mas se na superfície a mensagem parecia apenas inconseqüente e excessiva, ela era na verdade uma corajosa afronta ao senso comum amedrontado com o HIV, onde lembrava que o sexo faz parte da natureza humana, que é versátil e que deveríamos aprender a lidar com ele, e não sentir vergonha disso. Além de relembrar quão importante era não desistir de se relacionar, não temer o contato físico ou ainda se entregar a solidão para remediar o medo.
Embora de lá pra cá a temática sexual foi sendo melhor aceita pela sociedade, a ponto de decair numa progressiva banalização dentro da indústria do entretenimento (sendo este, também, um legado da artista), surpreende que "Erótica" tenha mantido o teor de lullaby transgressivo e que povoou sonhos e pesadelos de muita gente. Se o disco mantém o tom provocativo passado duas décadas, instigando tanto a libido como a desaprovação moral, é porque ainda ressoa o estrondo que significou à sua época - para a sociedade, para a música e pra própria Madonna, que arriscou verdadeiramente sua carreira falando sobre desejo, sexo e morte quando nenhuma celebridade ousava fazê-lo, e sofrendo retaliação num movimento de repressão e boicote ao seu trabalho.
Ápice escandaloso numa carreira com diversas facetas camaleônicas, "Erótica", o albúm, esta longe de sintetizar uma obra tão maior de referências sobre o feminino e seus desdobramentos (de santa, pornográfica, abandonada, independente, sonhadora, calculista, mãe na meia-idade, madura com medo da velhice, etc) mas constitui um momento chave ao testar a moralidade hipócrita dos costumes com franqueza e destemor, além de pavimentar o caminho para todas as artistas pop que surgiram depois. E não adianta: qualquer cantora que venha fazer música popular terá de pagar um tributo à Madonna, algo já bastante evidente no trabalho de TODAS as cantoras de sucesso atualmente, da mais consagrada à novata. Só que ao invés de assimilar apenas o comportamento insolente da jovem Madonna muitas destas deveria apurar o faro que esta possui para música, ao reunir tendências diversas para traduzir e se manter conectada com seu tempo, e não apenas recorrer a produção padronizada e pirotécnica vazia sem um conceito mais consistente (oferece não mais que um pastiche reverente ao passado).
Pois o que torna Madonna ainda relevante diante da genérica concorrência é a disposição em criar suas próprias referências e não viver de influências à trabalhos alheios ou do próprio passado, continuando assim a ditar as regras do jogo na industria musical (suas duas recentes turnes são provas do cacife ainda em alta). Se resta alguma dúvida, fica a questão: qual cantora (pop) atual pode se orgulhar de casar forma e conteúdo com coerência explosiva, corajosa e ainda relevante? Estrela decadente? Tiozinha caquética? Artista ultrapassada e dessintonizada com seu tempo e idade? Num cenário onde os jovens artistas estão obcecados em copiar o passado, eis uma senhora do alto de seus 55 anos que, além de ser uma sobrevivente (em vários sentidos), pouco se importa com nostalgia e parece mesmo é sentir saudade do que ainda esta por vir.
Exibida entre abril e junho, “O Caçador” trouxe em 14 episódios a estória de André (Cauã Reymond), filho de um importante policial, Saulo (Jackson Antunes), que esta se aposentando. André participa rapidamente da festa de despedida do pai antes de seguir para uma operação de resgate num seqüestro. Só que chegando ao local o esquadrão policial não encontra ninguém. Desconfiado de um telefone do pai, feito as escondidas, ele descobre que fora seu patriarca o delator que vazou a operação e ficou com o pagamento do resgate, mesmo com o desaparecimento da vitima.
Após ser preso mediante uma conspiração que o acusou do delito, André é convencido pelo pai a assumir o crime e cumprir sua pena na cadeia. 'Eu preciso desse dinheiro. Estou morrendo. Tenho câncer no pulmão. E só me deram seis meses de vida. Todo mundo que eu conheço na policia se deu bem, de um jeito ou de outro. E eu, o que consegui sendo honesto? Sempre acreditei que minha vida na policia melhoraria, fui um babaca. Eu e sua mãe merecemos viver bem os meus últimos dias de vida. Você não acha isso justo?’, pergunta o homem recorrendo a chantagem emocional para sensibilizar o filho, mas prometendo que antes de morrer gravaria um vídeo para inocentá-lo.
Não é preciso ser um adivinho para saber que essa gravação não é encontrada e André se vê sozinho, abandonado pela família, pelos amigos, mas lembrado pelos inimigos - no caso, dois: o traficante que teve o filho seqüestrado e cujo dinheiro do resgate – que sumiu – o bandido quer de volta, além de gente da própria polícia no encalço querendo sua cabeça a prêmio.
Fora da prisão, o único que lhe estende a mão é o Delegado Lopes (Aílton Graça), que lhe propõe um novo ofício. Enquanto não consegue pistas para provar sua inocência, André usaria sua habilidade de investigador para trabalhar como detetive particular, um caçador de recompensas sem vínculos com o estado, agindo de maneira clandestina para encontrar criminosos estrangeiros foragidos no País.
Duas investigações correm em paralelo, portanto, com as investigações na qual André é contratado e aquela em que busca pistas para provar sua inocência, sendo que ambas invariavelmente se cruzam mas se mostram incertas e escorregadias. No meio disso ainda têm a relação tumultuada com o irmão e a cunhada maluquete, cheia de curvas perigosas e que precisa tanto de amor como de um tratamento psicológico.
Com um enunciado que promete desvelar a intimidade afetiva entre pai e filho, e pôr em cheque a própria relação familiar do protagonista, surpreende que o seriado ‘O Caçador’ desenvolva sua trama com maior foco nas minúcias das investigações policiais – trafegando desde a criminalidade brasileira ao submundo da máfia chinesa e sérvia! -, mas esqueça, por vezes, de evoluir na construção psicológica dos personagens. Mesmo desenrolando uma trama policial competente, os escritores Fernando Bonassi e Marçal Aquino incorrem num erro didático de deixar tudo bem explicadinho para o público, não criando lacunas para o expectador deduzir por si próprio algumas passagens. Se no início esses detalhes não pesam tanto, o avançar dos 14 episódios torna seu enredo cansativo e previsível nas resoluções. É sintomático também que os capítulos sigam uma fórmula em quase todas as investigações, onde os contratantes se revelam mais perigosos que os supostos criminosos que procuram. Este e outros clichês do gênero – como testemunhas que morrem mas deixam pistas valiosas para continuar os casos, a boa-vontade de algumas testemunhas chaves que aceitam ajudar pela simples empatia, o chefe que consegue informações devido aos favores que ‘todos’ devem à ele, etc – acabam arrefecendo algumas boas idéias do roteiro. Como lançar mão de temas que inicialmente soam deslocados do argumento principal, remetendo do nazismo à ditadura militar, mas convergindo a estória para os dilemas do protagonista. Caso do 8ºepisódio onde o filho interpretado pelo ator Marat Descartes procura saber se o pai é mesmo o herói idealizado que lhe contaram na infância. Outro acerto esta no fato de cada investigação envolver um estrangeiro, o que cria uma particularidade nos casos, colorindo todos os episódios com um idioma distinto.
Mesmo que criado dentro do núcleo de José Alvarenga Jr., e nomeado aqui como co-diretor, é o experiente Heitor Dhalia o responsável pela fluência narrativa e clima cinematográfico da série, agregando uma ambientação que foge do realismo global padrão na abordagem do sexo e violência, aqui se não brutalmente explicitos, ao menos, honestos quanto ao material proposto. Além da montagem que auxilia o dinamismo narrativo vale destacar a fotografia que privilegio a sombra e o clima cinzento, reforçado pelas nuances das cortinas de fumaça. Com um casting coadjuvante composto quase integralmente por desconhecido, a trama ganha maior foco e não se desvia excessivamente pela presença de nomes conhecidos. E mesmo quando surgem os famosos ficam pouco tempo em cena. Mesmo assim, vale destacar as breves (e boas) participações dos atores Jackson Antunes, Aílton Graça, Milton Gonçalves (quase irreconhecível na pele de um guru 'de ponto de ônibus'), Nanda Costa (menos interessante como uma crente convertida e bem mais na figura de uma puta vingativa que entrega o filho do próprio amante para um matador de aluguel), a sumida Samara Felippo (fazendo uma prostituta que presta serviços online) e Oscar Magrini (que interpreta um produtor pornô sob o pseudônimo de ‘Tony Ramos’!),
Sempre melhor em papeis que exige presença física, Cauã Reymond entrega uma atuação dedicada e construída através de detalhes. Ainda assim, seu protagonismo acaba se justificando mais pelo carisma do que pelo estofo dramático, algo perceptível em cenas que exigem carga emocional mais intensa. Mas não é caso de subestimar o ator. Para quem foi uma cria do bobinho seriado 'Malhação' Cauã soube manobrar muito bem a carreira. Basta observar a linha ascendente de sua trajetória que começou a despontar em novelas como 'Da Cor do Pecado' (2004), 'Belíssima' (2005), onde fazia um garoto de programa, & 'A Favorita' (2007), e floresceu recentemente numa seqüência de ótimos projetos como 'Cordel Encantando' (2011), em boa parceria com a atriz Bianca Bin, e 'Avenida Brasil' (2012), onde atuou de igual pra igual diante das ferozes atuações de Débora Falabella e Adriana Esteves. Com o sedutor sommelier de vinhos na minissérie 'Amores Roubados' (2014) Reymond assumiu, enfim, o posto d’O’ galã nacional (outrora de atores como José Mayer) porém, ao que parece, buscando usufruir o melhor dessa imagem - o sex appeal viril e agressivo que o afasta dos mocinhos bobinhos. Ao menos, é o que sugere seus dois últimos papéis. Esta pode não ser, ainda, a atuação que se espera do ator, mas suas boas escolhas sinalizam que essa interpretação pode possivelmente acontecer num futuro próximo.
Embora seja um entretenimento um pouco menos ligeiro que os anteriores ‘Força Tarefa’ & ‘A Teia’, ‘O Caçador’ decepciona quem procura tensão 'de rachar a mandíbula' proveniente de uma trama policial, ainda mais devido a alguns entrechos facilmente solucionados, ou maior densidade nos conflitos dos personagens. Por mais que assimile com acertos alguns recursos apresentados em seriados estrangeiros, no saldo final, a impressão é da técnica utilizada para esconder os defeitos ao invés de reforçar as qualidades - uma pratica convenhamos bastante comum nas produções da Rede Globo. É lei que a essência de uma boa estória partirá sempre de um (bom) roteiro estruturado. Como trama policial “O Caçador” pode até convencer, mas como estudo de personagem sua estória deixa um tanto a desejar.
Eis um filme onde a sinopse é quase desencorajadora. "Uma estória de amor inter-racial vivida sob a sombra da homofobia e intolerância religiosa entre um frágil rapaz estudante de arte e um homem (chamado Romeo) que se oferece para mostrar as belezas da ilha do Caribe e muito mais"! Se o roteiro pinta um quadro vitimizado e um tanto maniqueísta - onde o pastor vilão é mostrado num palanque cuspindo sacralidades de ódio para depois ser mostrado num inferninho promíscuo, e revelar ser, claro, também um homossexual – ou se ocupa dos desvãos comuns em se assumir num contexto conservador e familiar, o que surpreende no longa é a maneira como diretor Kareem Mortimer específica com alguns bons resultados os dilemas dos personagens. A começar pela caracterização de um dos protagonistas, com o mais frágil se mostra bastante corajoso, e mesmo assim, sem mostrar empáfia ou arrogância, antes expressando desorientação e melancolia. A cegueira da hipocrisia consegue um registro melhor não no marido que traí a esposa (com outros homens), mas nessa própria mulher que mesmo desconfiada do cônjuge (sobretudo com a doença venérea adquirida e cujo tratamento ocorre mediante as acusações do marido), ainda assim, ela endossa os ideais de ódio para si. E mesmo que a tragédia recaia e dê a trama o mesmo destino comum dos filmes do gênero, há uma boa construção subjetiva e até poética nesse doloroso clichê. Com exceção do ainda falho roteiro, o mérito de "Children of God" é melhorar em tudo quando comparado ao curta-metragem 'Float' (2007), que inspirou o longa. Seja na bela trilha sonora instrumental (Nathan Matthew David), na interpretação dos atores - do carísmatico Stephen Tyrone Williams, ao ótimo Johnny Ferro (substituindo o fraquinho Jonathan Murray), e no tempo narrativo transcorrendo com suavidade e delicadeza algumas passagens simbólicas, como a flutuação na água, o mergulho do alto de um rochedo na imensidão do mar, a dança silenciosa realizada na escuridão, ou alguém sugerindo uma viagem cujo caminho ‘difícil’ permite, em revés, ficar ‘frente a frente’ consigo mesmo. Mortimer acerta, portanto, ao lapidar o que antes era apenas esboçado – nas atuações, e aqui reunindo dois interpretes com verdadeira química, na ambientação, utilizando com parcimônia os belos cenários de paisagens naturais do Caribe, e evitando tornar o filme num mero cartão postal das Bahamas, e na narrativa que extrai melhores resultados através das mensagens subjetivas e menos generalizadas do roteiro. É justamente esse cuidado em tratar um enredo de pouca novidade, mas que evolui com inesperadas nuances, que o filme ganha a atenção do espectador e apaga a má impressão não apenas da sinopse, mas também do genérico título em português 'Amantes do Caribe', uma tradução bastante simplista para ‘Filhos de Deus’.
Com sua ação desenvolvida quase integralmente numa sala de ensaios, o filme dirigido pelo americano Alan Brown é amplamente beneficiado pela expressiva dramaticidade física, com os personagens tateando e explorando o espaço, exprimindo uma linguagem não verbal do toque, da tensão e da explosão de movimento. Os cinco movimentos do título serve não apenas para sublinhar a evolução de uma coreografia mas também como interlúdio narrativo das relações esboçadas pelos dançarinos. É durante esse processo de criação que conhecemos um pouco da rotina pessoal dos personagens. A dançarina casada que se envolve com o coreógrafo; a mulher solitária e recém separada após uma longa relação; o rapaz solteiro que procura companhia em boates; e um jovem que foge de sua pequena cidade interiorana para buscar uma oportunidade no grande centro urbano. Chip, o garoto de recém completados 18 anos, tenta concretizar sua vocação como dançarino e ao mesmo tempo encontrar uma espécie de redenção particular diante da condenação feita por sua família sobre suas escolhas. Se o roteiro recai em passos convencionais da auto-descoberta, limitando essa passagem na vida do protagonista apenas a sua nova vivência (homo)sexual, ao menos o roteiro não recorre a elementos 'intensos' para polarizar esse contexto – com abuso de drogas, sexo, excessos nos dramas familiares ou romances complicados – oferecendo uma transformação discreta, rica de nuances e com sutil epifania. É justamente quando filma a turbulência da mudança com o silêncio da linguagem não verbal que a obra alcança seu melhor e sintetiza a beleza delicada nesse rito de passagem.
Adaptado do romance do escritor Scott Heim, "Mistérios da Carne" (2004) tem como tema o abuso sexual sofrido por duas crianças cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Para Brian o efeito dessa experiência se manifesta quase imediatamente - através de sangramentos nasais, repentinos desmaios, incontinência urinária, um olhar agora assustado diante do mundo e um 'apagão' de cinco horas na sua mente. Quanto a Neil, que já manifestava traços da sua (homos)sexualidade, parece não se traumatizar consentindo ser molestado durante todo um verão.
Os garotos crescem. Brian se torna um adolescente retraído e reprimido, além de um tanto esquisitão ao acreditar ter sido abduzido por extraterrestres, o que explicaria não se lembrar do que lhe aconteceu. Torna-se, em suma, uma caricatura da clássica imagem do nerd com óculos grandes e cabelos jogados no rosto. Já Neil, em oposto, é cada vez mais auto-confiança e acha natural recorrer ao sexo para pagar seu vício (em drogas) e espantar a modorra entediada da cidade onde mora (num retrato, também, estereotipado do jovem revoltado).
Mas essa é uma falsa impressão e o diretor Gregg Araki subverterá sua trama expondo a contradição nas ações desses personagens. O destemor inicial do confiante Neil se revelará não mais que uma camuflagem desesperada de um jovem preso a compulsão de agradar homens mais velhos, talvez tentando encontrar alguém semelhante a figura paterna do estuprador. Sua promiscuidade, aliás, beira o suicídio uma vez que o sexo sem proteção em meados dos anos 80 e 90, tempo em que a estória passa, era uma roleta-russa devido a AIDS. Seu comportamento demonstra enfim um indivíduo que não assimilou o que aparentava bem resolvido dentro de si mesmo. Quanto ao desorientado Brian, ruminando suas confusões e terrores internalizados, por um instante se mostrará mais assertivo do nunca fora, na tentativa de entender o que aconteceu afinal nas 'cinco horas negras' da qual diz não lembrar. Esse desejo por desvelar o próprio passado o levará de encontro a Neil e a casa (agora vazia) onde ocorreu o fatídico abuso.
Mesmo que o roteiro passa a impressão de estar tão perdido quanto seus personagens, sobretudo na primeira parte com maior espaço de temas extra-terrestres e francamente dispensáveis, aos poucos o argumento alinha as feições dolorosamente realistas nos conflitos dos personagens. Um grande mérito de Araki é não relativizar as questões do abuso sexual, por um lado, sucumbindo às tentações de tornar a situação num mero fetiche gay, e de outro sugerir que Neil se tornou gay simplesmente devido ao caso de pedofilia. Não se tornou, mas é evidente que os males dessa experiência afetou sua vida (adulta).
O nome do Gregg Araki deve ser realmente citado, pois boa parte dos (bons) resultados se deve ao seu trabalho. Seja ao extrair boas atuações de todo elenco - com destaque para a dupla central Brady Corbet (ótimo) e Joseph Gordon-Levitt (extraordinário) - como se ater ao tom seco e de certa estranheza narrativa, além de realizar uma vívida representação underground sem precisar exceder nas situações 'precárias' e mesmo assim não maquiar sua realidade.
Há ainda a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, com a ambiência da trilha sonora instrumental (Robin Guthrie & Harold Budd) e canções de bandas como Slowdive, Curve, Cocteau Twins e Ride equivalendo através dos gêneros que representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.
Antes de estrear no cinema, o diretor americano Gregg Araki foi um crítico musical, o que explica boa parte dos (ótimos) temas que costuma utilizar nos seus filmes. Em "Mistérios da Carne" (2004), temos uma boa mostra de suas escolhas seletivas. À começar pela entrega dos temas instrumentais a dupla Robin Guthrie & Harold Budd, cujas melodias produzem uma atmosfera tão enevoada e melancólica quanto nostálgica e apreensiva. Alinhada enfim, a estrutura do longa que aborda o tema o abuso sexual sofrido por duas crianças mas cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Enquanto Brian experimenta um inferno de reações quase imediatas, Neil parece não se dar conta ou mesmo se traumatizar com o fato, consentindo ser molestado durante todo um verão. Mas essas são falsas impressões e Gregg Araki subverterá essa trama expondo as contradições nas ações desses personagens.
Além do score, a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, período que o filme passa, se dá também através de canções de artistas bastante alternativos. Aliás, muitas das canções sequer fazem parte do repertório 'oficial' das bandas, sendo pinceladas em EP's e compilações. Caso das faixas "Crushed" (Cocteau Twins) & "Drive Blind" (Ride). Pois é reunindo outros nomes ainda, com Slowdive e Curve, que Araki equivale por meio dos gêneros que os músicos representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.
Da estreia no hip-hop ortodoxo em 'Rhymin' & Garfunkel' (2012) à algum capricho nas bases (eletrônicas) de 'Largo Jones' (2013), o rapper australiano Paul Williams viu seus dois primeiros registros não obterem a mínima repercussão. Talvez porque a produção desses trabalhos não apresentasse nada diferente do que é despejado as pencas pela indústria todo ano. Como resolver então essa questão, uma vez que o artista possue uma evidente vontade 'pop-star' de ser? Com demonstra o recém lançado 'Songs About Girls' (2014), e disponível para audição na plataforma musical Bandcamp, dá maneira mais simples e direta: apelando à grosso modo ao trabalho de produtores que plagiam 'os plagiadores' da sonoridade criada nos anos 80! Se as canções parecem umas com as outras e o som se mostra despersonalizado, ao menos, Williams se esmera em criar um mínimo 'hit' e que justifique esse álbum de figurinhas conhecidas, com bateria cuspida e refrão pop colado. Nesse quesito, a animada 'Georgia' - não por acaso, a faixa que abre o trabalho - trás aquela manipulação básica mas eficaz que se ouve numa programação de rádio FM. Ou seja, não trás nada de novo, recicla sem meio termo diversos artistas, resulta tão bonitinha quanto dispensável porém delimita suas intenções com clareza. Afinal, a popularidade (fácil) não se alcança com conceitos complicados mas com fórmulas básicas, tipo 2 + 2 = (espera-se) su-ces-so.