Entre alguns exemplos estão "Material Girl" (com a loiríssima Marilyn Monroe personificando tanto um desejo atemporal feminino como do yuppie materialista com planos de 'dominar o mundo', assim como a própria cantora); "Like a Prayer" (sobre a adesão ao catolicismo – nos anos 80, guiado pelo popular Papa João Paulo II - mas na mesma proporção de seu conflituoso questionamento); "Vogue" (com o conceito inalcançável da moda diluído em favor de uma passarela onde todos poderiam ter seu momento de 'fama e glamour' - "A beleza mora aonde você a encontra/ A alma está aqui no musical/ Você é um estrela e sabe disso/ Então venha para a pista de dança e faça uma pose"); "Ray of Light" (com o relógio biológico disparando o desejo materno da cantora e também desvelando a dicotomia da velocidade alucinante dos tempos modernos e a necessidade em buscar a paz interior); & "Hung Up" (onde o revival da cultura oitentista é reprocessada apropriadamente por uma de suas melhores representantes, se servindo da eurodance, sintetizadores e a disco music).
Mas o alcance de seu trabalho pode ser medida além do campo musical, sendo Madonna uma das raras artistas que conseguiram influir no comportamento das pessoas e relegando as novas gerações o feminismo através do liberalismo sexual, e que confronta a sociedade patriarcal a aceitar mulheres falando, sentindo e assumindo socialmente o prazer do sexo. Outra importante postura da artista foi apoiar os homossexuais numa época em que isso era pouco, ou quase nada, popular (numa realidade bem diferente dos adias atuais). Fosse incluindo sem medo ou preconceito o estilo gay em seus discos, vídeos e shows, ou tratando da questão abertamente a artista quebrou tabus ao dar visibilidade a uma cultura até então marginalizada. Enquanto celebridades tinham medo de expor sua opinião sobre sexo e homossexualidade, ela ia além se declarando bissexual!
Se desde o início Madonna provocava o debate da sexualidade, polemizando sobretudo nos temas religiosos, sua música deixava de questionar com igual deliberação o erotismo feminino escravo da imagem machista. Tanto que a artista inicialmente ficou conhecida como um símbolo sexual que apenas convidava as pessoas para se divertir, não muito diferente de tantas outras. Até meados dos anos 80 sua imagem era da jovem sexy insolente brincando com a controvérsia. E mesmo quando a abordagem musical (sobre a culpa católica) amadureceu a representação ainda flertava com a dissimulação. Como na citada "Like a Prayer", uma canção ousada onde o desejo é traduzido como numa oração, e cujo vídeo a cantora é mostrada dormindo com um Jesus negro (e dentro de uma Igreja!) mas para no fim dizer que tudo não passou de teatrinho.
Lançado em 1992, o álbum "Erótica" foi o ponto culminante na escalada escandalosa e transgressiva de sua carreira, onde Madonna radicalizou enfim a temática sexual e escancarou não a menina fingindo falar sobre assuntos sérios mas a mulher à frente de um projeto onde som e imagem convergia sem atenuação. Versando sobre temas distintos como desencontros, brigas, aceitação, mentiras e amor, o trabalho pode ser definido como um disco conceitual e parte de um combo que inclui um livro ('SEX') e filme ('Corpo em Evidência') tendo a temática sexual como foco principal. Embora incômoda pra alguns, a linguagem franca e direta do sexo serve antes para apontar o preconceito e hipocrisia do que oferecer uma nota gratuita de escândalo, chocando sim, mas por atingir o imaginário coletivo pelas transformações que o mundo passava numa época Pós-AIDS, onde falar sobre liberdade sexual soava um abuso, sobretudo, pela discriminação e falta de informação sobre o HIV.
Muito dos bons resultados do álbum se deve, certamente, as ótimas composições do repertório. O sofrimento da auto-aceitação esta presente em "Deeper And Deeper" ("Alguém disse que o romance estava morto/ E acreditei nisso ao invés de me lembrar/ Do que minha mãe me disse/ 'Tudo é válido no amor', ela disse/ Deixei meu pai me moldar/ Então você tentou me segurar/ Me lembrando o que eles diziam/ Este sentimento aqui dentro/ Eu não consigo explicar/ Mas meu amor está vivo/ E nunca vou escondê-lo novamente"); assim como o questionamento a uma sociedade estanque em "Why's It So Hard" ("Por que não podemos aprender a desafiar o sistema/ Sem viver com dor/ Irmãos, irmãs/ Por que não conseguimos aprender a aceitar que somos diferentes/ Antes que seja tarde demais?/ Por que é tão difícil"); e a perplexidade diante da morte pela SIDA em "In This Life", uma composição de pungência extraordinária ("Sentada num banco do parque/ Pensando num amigo meu/ Ele tinha só 23 anos/ E se foi antes do momento certo/ Isso veio sem avisar/ Não queria que seus amigos o vissem chorando/ Ele sabia que o dia estava começando/ E eu não tive chance de dizer adeus/ (...)/ Dirigindo pela a alameda/ Pensando em um homem que eu conhecia/ Ele era como uma pai para mim/ Me ensinou a me respeitar/ Disse que todos nós somos feitos de carne e sangue/ Por que ele deveria ser tratado diferente?/ Não deveria importar quem você escolhe para amar/ (...)/ Nesta vida eu te amei acima de tudo/ Pois agora você se foi e eu fico me perguntando/ Para quê?/ (...)/ Há uma lição que eu devo aprender neste caso/ Ignorância não é a glória/ (...)/ Alguns dizem que a vida não é justa/ Eu digo que as pessoas não se importam").
Mas foi na faixa título que a artista provou não estar pra brincadeira. Se o conteúdo da composição já era controverso, Madonna não facilitou com o material promocional encarnando no antológico videoclipe uma dominatrix que queria satisfazer seus prazeres carnais, em cenas que pareciam recriações do fotografo Robert Mapplethorpe, o famoso documentarista da cena underground gay, e concebendo uma representação quase literal e agressiva dos versos da canção ("Meu nome é Dita/ Serei sua anfitriã essa noite/ Eu gostaria de colocar você em transe/ Se eu pegar você por trás/ Entrar com força em sua mente/ Quando você menos esperar/ Você vai tentar rejeitar?/ Se eu estiver no comando e tratá-lo como uma criança/ Você vai se deixar ir à loucura?/ Deixar minha boca ir onde ela quer?").
De forma ousada, a sexualidade é abordada em cenas quase explicitas, simulando atos sexuais e revelando fetiches através da prática do sadomasoquismo em meio a símbolos religiosos e num ambiente que incita uma evidente promiscuidade. Com o sagrado e o profano - que tanto assusta a hipnotiza a Humanidade - se confundindo e incitando, era esperado que houvesse reações exaltadas do público e certas autoridades, só que algo saiu um pouco do controle, tomando ares de perigo real semelhante a um rastro de pólvora atingida por fogo. Após o lançamento do clipe, protestos varreram a America com religiosos inflamados e propagando a artista como uma "pervertida sem valores, cujo trabalho era apenas para acabar com a constituição da família". Muitos disseram que a cantora havia ido longe demais, com uma concepção artistica que não se sabia mais ser pornográfica ou sensual, e que sua carreira acabaria ali. Mas se na superfície a mensagem parecia apenas inconseqüente e excessiva, ela era na verdade uma corajosa afronta ao senso comum amedrontado com o HIV, onde lembrava que o sexo faz parte da natureza humana, que é versátil e que deveríamos aprender a lidar com ele, e não sentir vergonha disso. Além de relembrar quão importante era não desistir de se relacionar, não temer o contato físico ou ainda se entregar a solidão para remediar o medo.
Embora de lá pra cá a temática sexual foi sendo melhor aceita pela sociedade, a ponto de decair numa progressiva banalização dentro da indústria do entretenimento (sendo este, também, um legado da artista), surpreende que "Erótica" tenha mantido o teor de lullaby transgressivo e que povoou sonhos e pesadelos de muita gente. Se o disco mantém o tom provocativo passado duas décadas, instigando tanto a libido como a desaprovação moral, é porque ainda ressoa o estrondo que significou à sua época - para a sociedade, para a música e pra própria Madonna, que arriscou verdadeiramente sua carreira falando sobre desejo, sexo e morte quando nenhuma celebridade ousava fazê-lo, e sofrendo retaliação num movimento de repressão e boicote ao seu trabalho.
Ápice escandaloso numa carreira com diversas facetas camaleônicas, "Erótica", o albúm, esta longe de sintetizar uma obra tão maior de referências sobre o feminino e seus desdobramentos (de santa, pornográfica, abandonada, independente, sonhadora, calculista, mãe na meia-idade, madura com medo da velhice, etc) mas constitui um momento chave ao testar a moralidade hipócrita dos costumes com franqueza e destemor, além de pavimentar o caminho para todas as artistas pop que surgiram depois. E não adianta: qualquer cantora que venha fazer música popular terá de pagar um tributo à Madonna, algo já bastante evidente no trabalho de TODAS as cantoras de sucesso atualmente, da mais consagrada à novata. Só que ao invés de assimilar apenas o comportamento insolente da jovem Madonna muitas destas deveria apurar o faro que esta possui para música, ao reunir tendências diversas para traduzir e se manter conectada com seu tempo, e não apenas recorrer a produção padronizada e pirotécnica vazia sem um conceito mais consistente (oferece não mais que um pastiche reverente ao passado).
Pois o que torna Madonna ainda relevante diante da genérica concorrência é a disposição em criar suas próprias referências e não viver de influências à trabalhos alheios ou do próprio passado, continuando assim a ditar as regras do jogo na industria musical (suas duas recentes turnes são provas do cacife ainda em alta). Se resta alguma dúvida, fica a questão: qual cantora (pop) atual pode se orgulhar de casar forma e conteúdo com coerência explosiva, corajosa e ainda relevante? Estrela decadente? Tiozinha caquética? Artista ultrapassada e dessintonizada com seu tempo e idade? Num cenário onde os jovens artistas estão obcecados em copiar o passado, eis uma senhora do alto de seus 55 anos que, além de ser uma sobrevivente (em vários sentidos), pouco se importa com nostalgia e parece mesmo é sentir saudade do que ainda esta por vir.
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