segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Sexualidade Nua -Pornográfica- Sincera

Em sua trajetória, a pop-star Madonna reafirmou sucessivas vezes o talento único de não apenas sintetizar tendências musicais mas capturar um sentimento comum dentro de uma época. Sua marca pode ser notada no rastro deixado em pouco mais de 30 anos, onde a artista conseguiu habilidosamente convergir momentos pessoais de sua vida no mesmo compasso de traduzir anseios coletivos, condicionando o gosto do público ao que se habituou intitular POP. Uma proeza que poucos podem se gabar e cuja (seleta) lista inclui-se Elvis Presley, The Beatles, Michael Jackson e os cineastas Alfred Hitchcock e Steven Spielberg. Muitas de suas canções são, portanto, confiáveis mapas para entender a geografia de tendências musicais e certos acontecimentos nas últimas décadas.

Entre alguns exemplos estão "Material Girl" (com a loiríssima Marilyn Monroe personificando tanto um desejo atemporal feminino como do yuppie materialista com planos de 'dominar o mundo', assim como a própria cantora); "Like a Prayer" (sobre a adesão ao catolicismo – nos anos 80, guiado pelo popular Papa João Paulo II - mas na mesma proporção de seu conflituoso questionamento); "Vogue" (com o conceito inalcançável da moda diluído em favor de uma passarela onde todos poderiam ter seu momento de 'fama e glamour' - "A beleza mora aonde você a encontra/ A alma está aqui no musical/ Você é um estrela e sabe disso/ Então venha para a pista de dança e faça uma pose"); "Ray of Light" (com o relógio biológico disparando o desejo materno da cantora e também desvelando a dicotomia da velocidade alucinante dos tempos modernos e a necessidade em buscar a paz interior); & "Hung Up" (onde o revival da cultura oitentista é reprocessada apropriadamente por uma de suas melhores representantes, se servindo da eurodance, sintetizadores e a disco music).

Mas o alcance de seu trabalho pode ser medida além do campo musical, sendo Madonna uma das raras artistas que conseguiram influir no comportamento das pessoas e relegando as novas gerações o feminismo através do liberalismo sexual, e que confronta a sociedade patriarcal a aceitar mulheres falando, sentindo e assumindo socialmente o prazer do sexo. Outra importante postura da artista foi apoiar os homossexuais numa época em que isso era pouco, ou quase nada, popular (numa realidade bem diferente dos adias atuais). Fosse incluindo sem medo ou preconceito o estilo gay em seus discos, vídeos e shows, ou tratando da questão abertamente a artista quebrou tabus ao dar visibilidade a uma cultura até então marginalizada. Enquanto celebridades tinham medo de expor sua opinião sobre sexo e homossexualidade, ela ia além se declarando bissexual!



Se desde o início Madonna provocava o debate da sexualidade, polemizando sobretudo nos temas religiosos, sua música deixava de questionar com igual deliberação o erotismo feminino escravo da imagem machista. Tanto que a artista inicialmente ficou conhecida como um símbolo sexual que apenas convidava as pessoas para se divertir, não muito diferente de tantas outras. Até meados dos anos 80 sua imagem era da jovem sexy insolente brincando com a controvérsia. E mesmo quando a abordagem musical (sobre a culpa católica) amadureceu a representação ainda flertava com a dissimulação. Como na citada "Like a Prayer", uma canção ousada onde o desejo é traduzido como numa oração, e cujo vídeo a cantora é mostrada dormindo com um Jesus negro (e dentro de uma Igreja!) mas para no fim dizer que tudo não passou de teatrinho.

Lançado em 1992, o álbum "Erótica" foi o ponto culminante na escalada escandalosa e transgressiva de sua carreira, onde Madonna radicalizou enfim a temática sexual e escancarou não a menina fingindo falar sobre assuntos sérios mas a mulher à frente de um projeto onde som e imagem convergia sem atenuação. Versando sobre temas distintos como desencontros, brigas, aceitação, mentiras e amor, o trabalho pode ser definido como um disco conceitual e parte de um combo que inclui um livro ('SEX') e filme ('Corpo em Evidência') tendo a temática sexual como foco principal. Embora incômoda pra alguns, a linguagem franca e direta do sexo serve antes para apontar o preconceito e hipocrisia do que oferecer uma nota gratuita de escândalo, chocando sim, mas por atingir o imaginário coletivo pelas transformações que o mundo passava numa época Pós-AIDS, onde falar sobre liberdade sexual soava um abuso, sobretudo, pela discriminação e falta de informação sobre o HIV.

Muito dos bons resultados do álbum se deve, certamente, as ótimas composições do repertório. O sofrimento da auto-aceitação esta presente em "Deeper And Deeper" ("Alguém disse que o romance estava morto/ E acreditei nisso ao invés de me lembrar/ Do que minha mãe me disse/ 'Tudo é válido no amor', ela disse/ Deixei meu pai me moldar/ Então você tentou me segurar/ Me lembrando o que eles diziam/ Este sentimento aqui dentro/ Eu não consigo explicar/ Mas meu amor está vivo/ E nunca vou escondê-lo novamente"); assim como o questionamento a uma sociedade estanque em "Why's It So Hard" ("Por que não podemos aprender a desafiar o sistema/ Sem viver com dor/ Irmãos, irmãs/ Por que não conseguimos aprender a aceitar que somos diferentes/ Antes que seja tarde demais?/ Por que é tão difícil"); e a perplexidade diante da morte pela SIDA em "In This Life", uma composição de pungência extraordinária ("Sentada num banco do parque/ Pensando num amigo meu/ Ele tinha só 23 anos/ E se foi antes do momento certo/ Isso veio sem avisar/ Não queria que seus amigos o vissem chorando/ Ele sabia que o dia estava começando/ E eu não tive chance de dizer adeus/ (...)/ Dirigindo pela a alameda/ Pensando em um homem que eu conhecia/ Ele era como uma pai para mim/ Me ensinou a me respeitar/ Disse que todos nós somos feitos de carne e sangue/ Por que ele deveria ser tratado diferente?/ Não deveria importar quem você escolhe para amar/ (...)/ Nesta vida eu te amei acima de tudo/ Pois agora você se foi e eu fico me perguntando/ Para quê?/ (...)/ Há uma lição que eu devo aprender neste caso/ Ignorância não é a glória/ (...)/ Alguns dizem que a vida não é justa/ Eu digo que as pessoas não se importam"). 



Mas foi na faixa título que a artista provou não estar pra brincadeira. Se o conteúdo da composição já era controverso, Madonna não facilitou com o material promocional encarnando no antológico videoclipe uma dominatrix que queria satisfazer seus prazeres carnais, em cenas que pareciam recriações do fotografo Robert Mapplethorpe, o famoso documentarista da cena underground gay, e concebendo uma representação quase literal e agressiva dos versos da canção ("Meu nome é Dita/ Serei sua anfitriã essa noite/ Eu gostaria de colocar você em transe/ Se eu pegar você por trás/ Entrar com força em sua mente/ Quando você menos esperar/ Você vai tentar rejeitar?/ Se eu estiver no comando e tratá-lo como uma criança/ Você vai se deixar ir à loucura?/ Deixar minha boca ir onde ela quer?").

De forma ousada, a sexualidade é abordada em cenas quase explicitas, simulando atos sexuais e revelando fetiches através da prática do sadomasoquismo em meio a símbolos religiosos e num ambiente que incita uma evidente promiscuidade. Com o sagrado e o profano - que tanto assusta a hipnotiza a Humanidade - se confundindo e incitando, era esperado que houvesse reações exaltadas do público e certas autoridades, só que algo saiu um pouco do controle, tomando ares de perigo real semelhante a um rastro de pólvora atingida por fogo. Após o lançamento do clipe, protestos varreram a America com religiosos inflamados e propagando a artista como uma "pervertida sem valores, cujo trabalho era apenas para acabar com a constituição da família". Muitos disseram que a cantora havia ido longe demais, com uma concepção artistica que não se sabia mais ser pornográfica ou sensual, e que sua carreira acabaria ali. Mas se na superfície a mensagem parecia apenas inconseqüente e excessiva, ela era na verdade uma corajosa afronta ao senso comum amedrontado com o HIV, onde lembrava que o sexo faz parte da natureza humana, que é versátil e que deveríamos aprender a lidar com ele, e não sentir vergonha disso. Além de relembrar quão importante era não desistir de se relacionar, não temer o contato físico ou ainda se entregar a solidão para remediar o medo.

Embora de lá pra cá a temática sexual foi sendo melhor aceita pela sociedade, a ponto de decair numa progressiva banalização dentro da indústria do entretenimento (sendo este, também, um legado da artista), surpreende que "Erótica" tenha mantido o teor de lullaby transgressivo e que povoou sonhos e pesadelos de muita gente. Se o disco mantém o tom provocativo passado duas décadas, instigando tanto a libido como a desaprovação moral, é porque ainda ressoa o estrondo que significou à sua época - para a sociedade, para a música e pra própria Madonna, que arriscou verdadeiramente sua carreira falando sobre desejo, sexo e morte quando nenhuma celebridade ousava fazê-lo, e sofrendo retaliação num movimento de repressão e boicote ao seu trabalho. 



Ápice escandaloso numa carreira com diversas facetas camaleônicas, "Erótica", o albúm, esta longe de sintetizar uma obra tão maior de referências sobre o feminino e seus desdobramentos (de santa, pornográfica, abandonada, independente, sonhadora, calculista, mãe na meia-idade, madura com medo da velhice, etc) mas constitui um momento chave ao testar a moralidade hipócrita dos costumes com franqueza e destemor, além de pavimentar o caminho para todas as artistas pop que surgiram depois. E não adianta: qualquer cantora que venha fazer música popular terá de pagar um tributo à Madonna, algo já bastante evidente no trabalho de TODAS as cantoras de sucesso atualmente, da mais consagrada à novata. Só que ao invés de assimilar apenas o comportamento insolente da jovem Madonna muitas destas deveria apurar o faro que esta possui para música, ao reunir tendências diversas para traduzir e se manter conectada com seu tempo, e não apenas recorrer a produção padronizada e pirotécnica vazia sem um conceito mais consistente (oferece não mais que um pastiche reverente ao passado).

Pois o que torna Madonna ainda relevante diante da genérica concorrência é a disposição em criar suas próprias referências e não viver de influências à trabalhos alheios ou do próprio passado, continuando assim a ditar as regras do jogo na industria musical (suas duas recentes turnes são provas do cacife ainda em alta). Se resta alguma dúvida, fica a questão: qual cantora (pop) atual pode se orgulhar de casar forma e conteúdo com coerência explosiva, corajosa e ainda relevante? Estrela decadente? Tiozinha caquética?  Artista ultrapassada e dessintonizada com seu tempo e idade? Num cenário onde os jovens artistas estão obcecados em copiar o passado, eis uma senhora do alto de seus 55 anos que, além de ser uma sobrevivente (em vários sentidos), pouco se importa com nostalgia e parece mesmo é sentir saudade do que ainda esta por vir. 



terça-feira, 22 de julho de 2014

O Caçador

Exibida entre abril e junho, “O Caçador” trouxe em 14 episódios a estória de André (Cauã Reymond), filho de um importante policial, Saulo (Jackson Antunes), que esta se aposentando. André participa rapidamente da festa de despedida do pai antes de seguir para uma operação de resgate num seqüestro. Só que chegando ao local o esquadrão policial não encontra ninguém. Desconfiado de um telefone do pai, feito as escondidas, ele descobre que fora seu patriarca o delator que vazou a operação e ficou com o pagamento do resgate, mesmo com o desaparecimento da vitima.

Após ser preso mediante uma conspiração que o acusou do delito, André é convencido pelo pai a assumir o crime e cumprir sua pena na cadeia. 'Eu preciso desse dinheiro. Estou morrendo. Tenho câncer no pulmão. E só me deram seis meses de vida. Todo mundo que eu conheço na policia se deu bem, de um jeito ou de outro. E eu, o que consegui sendo honesto? Sempre acreditei que minha vida na policia melhoraria, fui um babaca. Eu e sua mãe merecemos viver bem os meus últimos dias de vida. Você não acha isso justo?’, pergunta o homem recorrendo a chantagem emocional para sensibilizar o filho, mas prometendo que antes de morrer gravaria um vídeo para inocentá-lo.

Não é preciso ser um adivinho para saber que essa gravação não é encontrada e André se vê sozinho, abandonado pela família, pelos amigos, mas lembrado pelos inimigos - no caso, dois: o traficante que teve o filho seqüestrado e cujo dinheiro do resgate – que sumiu – o bandido quer de volta, além de gente da própria polícia no encalço querendo sua cabeça a prêmio.

Fora da prisão, o único que lhe estende a mão é o Delegado Lopes (Aílton Graça), que lhe propõe um novo ofício. Enquanto não consegue pistas para provar sua inocência, André usaria sua habilidade de investigador para trabalhar como detetive particular, um caçador de recompensas sem vínculos com o estado, agindo de maneira clandestina para encontrar criminosos estrangeiros foragidos no País.

Duas investigações correm em paralelo, portanto, com as investigações na qual André é contratado e aquela em que busca pistas para provar sua inocência, sendo que ambas invariavelmente se cruzam mas se mostram incertas e escorregadias. No meio disso ainda têm a relação tumultuada com o irmão e a cunhada maluquete, cheia de curvas perigosas e que precisa tanto de amor como de um tratamento psicológico.

Com um enunciado que promete desvelar a intimidade afetiva entre pai e filho, e pôr em cheque a própria relação familiar do protagonista, surpreende que o seriado ‘O Caçador’ desenvolva sua trama com maior foco nas minúcias das investigações policiais – trafegando desde a criminalidade brasileira ao submundo da máfia chinesa e sérvia! -, mas esqueça, por vezes, de evoluir na construção psicológica dos personagens. Mesmo desenrolando uma trama policial competente, os escritores Fernando Bonassi e Marçal Aquino incorrem num erro didático de deixar tudo bem explicadinho para o público, não criando lacunas para o expectador deduzir por si próprio algumas passagens. Se no início esses detalhes não pesam tanto, o avançar dos 14 episódios torna seu enredo cansativo e previsível nas resoluções. É sintomático também que os capítulos sigam uma fórmula em quase todas as investigações, onde os contratantes se revelam mais perigosos que os supostos criminosos que procuram. Este e outros clichês do gênero – como testemunhas que morrem mas deixam pistas valiosas para continuar os casos, a boa-vontade de algumas testemunhas chaves que aceitam ajudar pela simples empatia, o chefe que consegue informações devido aos favores que ‘todos’ devem à ele, etc – acabam arrefecendo algumas boas idéias do roteiro. Como lançar mão de temas que inicialmente soam deslocados do argumento principal, remetendo do nazismo à ditadura militar, mas convergindo a estória para os dilemas do protagonista. Caso do 8ºepisódio onde o filho interpretado pelo ator Marat Descartes procura saber se o pai é mesmo o herói idealizado que lhe contaram na infância. Outro acerto esta no fato de cada investigação envolver um estrangeiro, o que cria uma particularidade nos casos, colorindo todos os episódios com um idioma distinto.

Mesmo que criado dentro do núcleo de José Alvarenga Jr., e nomeado aqui como co-diretor, é o experiente Heitor Dhalia o responsável pela fluência narrativa e clima cinematográfico da série, agregando uma ambientação que foge do realismo global padrão na abordagem do sexo e violência, aqui se não brutalmente explicitos, ao menos, honestos quanto ao material proposto. Além da montagem que auxilia o dinamismo narrativo vale destacar a fotografia que privilegio a sombra e o clima cinzento, reforçado pelas nuances das cortinas de fumaça. Com um casting coadjuvante composto quase integralmente por desconhecido, a trama ganha maior foco e não se desvia excessivamente pela presença de nomes conhecidos. E mesmo quando surgem os famosos ficam pouco tempo em cena. Mesmo assim, vale destacar as breves (e boas) participações dos atores Jackson Antunes, Aílton Graça, Milton Gonçalves (quase irreconhecível na pele de um guru 'de ponto de ônibus'), Nanda Costa (menos interessante como uma crente convertida e bem mais na figura de uma puta vingativa que entrega o filho do próprio amante para um matador de aluguel), a sumida Samara Felippo (fazendo uma prostituta que presta serviços online) e Oscar Magrini (que interpreta um produtor pornô sob o pseudônimo de ‘Tony Ramos’!),

Sempre melhor em papeis que exige presença física, Cauã Reymond entrega uma atuação dedicada e construída através de detalhes. Ainda assim, seu protagonismo acaba se justificando mais pelo carisma do que pelo estofo dramático, algo perceptível em cenas que exigem carga emocional mais intensa. Mas não é caso de subestimar o ator. Para quem foi uma cria do bobinho seriado 'Malhação' Cauã soube manobrar muito bem a carreira. Basta observar a linha ascendente de sua trajetória que começou a despontar em novelas como 'Da Cor do Pecado' (2004), 'Belíssima' (2005), onde fazia um garoto de programa, & 'A Favorita' (2007), e floresceu recentemente numa seqüência de ótimos projetos como 'Cordel Encantando' (2011), em boa parceria com a atriz Bianca Bin, e 'Avenida Brasil' (2012), onde atuou de igual pra igual diante das ferozes atuações de Débora Falabella e Adriana Esteves. Com o sedutor sommelier de vinhos na minissérie 'Amores Roubados' (2014) Reymond assumiu, enfim, o posto d’O’ galã nacional (outrora de atores como José Mayer) porém, ao que parece, buscando usufruir o melhor dessa imagem - o sex appeal viril e agressivo que o afasta dos mocinhos bobinhos. Ao menos, é o que sugere seus dois últimos papéis. Esta pode não ser, ainda, a atuação que se espera do ator, mas suas boas escolhas sinalizam que essa interpretação pode possivelmente acontecer num futuro próximo. 

Embora seja um entretenimento um pouco menos ligeiro que os anteriores ‘Força Tarefa’ & ‘A Teia’, ‘O Caçador’ decepciona quem procura tensão 'de rachar a mandíbula' proveniente de uma trama policial, ainda mais devido a alguns entrechos facilmente solucionados, ou maior densidade nos conflitos dos personagens. Por mais que assimile com acertos alguns recursos apresentados em seriados estrangeiros, no saldo final, a impressão é da técnica utilizada para esconder os defeitos ao invés de reforçar as qualidades - uma pratica convenhamos bastante comum nas produções da Rede Globo. É lei que a essência de uma boa estória partirá sempre de um (bom) roteiro estruturado. Como trama policial “O Caçador” pode até convencer, mas como estudo de personagem sua estória deixa um tanto a desejar.


sábado, 5 de julho de 2014

Subjetividade Flutuando Sob Um Mar Clichê

Eis um filme onde a sinopse é quase desencorajadora. "Uma estória de amor inter-racial vivida sob a sombra da homofobia e intolerância religiosa entre um frágil rapaz estudante de arte e um homem (chamado Romeo) que se oferece para mostrar as belezas da ilha do Caribe e muito mais"!

Se o roteiro pinta um quadro vitimizado e um tanto maniqueísta - onde o pastor vilão é mostrado num palanque cuspindo sacralidades de ódio para depois ser mostrado num inferninho promíscuo, e revelar ser, claro, também um homossexual – ou se ocupa dos desvãos comuns em se assumir num contexto conservador e familiar, o que surpreende no longa é a maneira como diretor Kareem Mortimer específica com alguns bons resultados os dilemas dos personagens.

A começar pela caracterização de um dos protagonistas, com o mais frágil se mostra bastante corajoso, e mesmo assim, sem mostrar empáfia ou arrogância, antes expressando desorientação e melancolia. A cegueira da hipocrisia consegue um registro melhor não no marido que traí a esposa (com outros homens), mas nessa própria mulher que mesmo desconfiada do cônjuge (sobretudo com a doença venérea adquirida e cujo tratamento ocorre mediante as acusações do marido), ainda assim, ela endossa os ideais de ódio para si. E mesmo que a tragédia recaia e dê a trama o mesmo destino comum dos filmes do gênero, há uma boa construção subjetiva e até poética nesse doloroso clichê.

Com exceção do ainda falho roteiro, o mérito de "Children of God" é melhorar em tudo quando comparado ao curta-metragem 'Float' (2007), que inspirou o longa. Seja na bela trilha sonora instrumental (Nathan Matthew David), na interpretação dos atores - do carísmatico Stephen Tyrone Williams, ao ótimo Johnny Ferro (substituindo o fraquinho Jonathan Murray), e no tempo narrativo transcorrendo com suavidade e delicadeza algumas passagens simbólicas, como a flutuação na água, o mergulho do alto de um rochedo na imensidão do mar, a dança silenciosa realizada na escuridão, ou alguém sugerindo uma viagem cujo caminho ‘difícil’ permite, em revés, ficar ‘frente a frente’ consigo mesmo.

Mortimer acerta, portanto, ao lapidar o que antes era apenas esboçado – nas atuações, e aqui reunindo dois interpretes com verdadeira química, na ambientação, utilizando com parcimônia os belos cenários de paisagens naturais do Caribe, e evitando tornar o filme num mero cartão postal das Bahamas, e na narrativa que extrai melhores resultados através das mensagens subjetivas e menos generalizadas do roteiro. É justamente esse cuidado em tratar um enredo de pouca novidade, mas que evolui com inesperadas nuances, que o filme ganha a atenção do espectador e apaga a má impressão não apenas da sinopse, mas também do genérico título em português 'Amantes do Caribe', uma tradução bastante simplista para ‘Filhos de Deus’.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Delicado Rito De Passagem

Com sua ação desenvolvida quase integralmente numa sala de ensaios, o filme dirigido pelo americano Alan Brown é amplamente beneficiado pela expressiva dramaticidade física, com os personagens tateando e explorando o espaço, exprimindo uma linguagem não verbal do toque, da tensão e da explosão de movimento. Os cinco movimentos do título serve não apenas para sublinhar a evolução de uma coreografia mas também como interlúdio narrativo das relações esboçadas pelos dançarinos. É durante esse processo de criação que conhecemos um pouco da rotina pessoal dos personagens.

A dançarina casada que se envolve com o coreógrafo; a mulher solitária e recém separada após uma longa relação; o rapaz solteiro que procura companhia em boates; e um jovem que foge de sua pequena cidade interiorana para buscar uma oportunidade no grande centro urbano. Chip, o garoto de recém completados 18 anos, tenta concretizar sua vocação como dançarino e ao mesmo tempo encontrar uma espécie de redenção particular diante da condenação feita por sua família sobre suas escolhas.

Se o roteiro recai em passos convencionais da auto-descoberta, limitando essa passagem na vida do protagonista apenas a sua nova vivência (homo)sexual, ao menos o roteiro não recorre a elementos 'intensos' para polarizar esse contexto – com abuso de drogas, sexo, excessos nos dramas familiares ou romances complicados – oferecendo uma transformação discreta, rica de nuances e com sutil epifania. É justamente quando filma a turbulência da mudança com o silêncio da linguagem não verbal que a obra alcança seu melhor e sintetiza a beleza delicada nesse rito de passagem.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mistérios Da Carne

Adaptado do romance do escritor Scott Heim, "Mistérios da Carne" (2004) tem como tema o abuso sexual sofrido por duas crianças cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Para Brian o efeito dessa experiência se manifesta quase imediatamente - através de sangramentos nasais, repentinos desmaios, incontinência urinária, um olhar agora assustado diante do mundo e um 'apagão' de cinco horas na sua mente. Quanto a Neil, que já manifestava traços da sua (homos)sexualidade, parece não se traumatizar consentindo ser molestado durante todo um verão.

Os garotos crescem. Brian se torna um adolescente retraído e reprimido, além de um tanto esquisitão ao acreditar ter sido abduzido por extraterrestres, o que explicaria não se lembrar do que lhe aconteceu. Torna-se, em suma, uma caricatura da clássica imagem do nerd com óculos grandes e cabelos jogados no rosto. Já Neil, em oposto, é cada vez mais auto-confiança e acha natural recorrer ao sexo para pagar seu vício (em drogas) e espantar a modorra entediada da cidade onde mora (num retrato, também, estereotipado do jovem revoltado).

Mas essa é uma falsa impressão e o diretor Gregg Araki subverterá sua trama expondo a contradição nas ações desses personagens. O destemor inicial do confiante Neil se revelará não mais que uma camuflagem desesperada de um jovem preso a compulsão de agradar homens mais velhos, talvez tentando encontrar alguém semelhante a figura paterna do estuprador. Sua promiscuidade, aliás, beira o suicídio uma vez que o sexo sem proteção em meados dos anos 80 e 90, tempo em que a estória passa, era uma roleta-russa devido a AIDS. Seu comportamento demonstra enfim um indivíduo que não assimilou o que aparentava bem resolvido dentro de si mesmo. Quanto ao desorientado Brian, ruminando suas confusões e terrores internalizados, por um instante se mostrará mais assertivo do nunca fora, na tentativa de entender o que aconteceu afinal nas 'cinco horas negras' da qual diz não lembrar. Esse desejo por desvelar o próprio passado o levará de encontro a Neil e a casa (agora vazia) onde ocorreu o fatídico abuso.

Mesmo que o roteiro passa a impressão de estar tão perdido quanto seus personagens, sobretudo na primeira parte com maior espaço de temas extra-terrestres e francamente dispensáveis, aos poucos o argumento alinha as feições dolorosamente realistas nos conflitos dos personagens. Um grande mérito de Araki é não relativizar as questões do abuso sexual, por um lado, sucumbindo às tentações de tornar a situação num mero fetiche gay, e de outro sugerir que Neil se tornou gay simplesmente devido ao caso de pedofilia. Não se tornou, mas é evidente que os males dessa experiência afetou sua vida (adulta).

O nome do Gregg Araki deve ser realmente citado, pois boa parte dos (bons) resultados se deve ao seu trabalho. Seja ao extrair boas atuações de todo elenco - com destaque para a dupla central Brady Corbet (ótimo) e Joseph Gordon-Levitt (extraordinário) - como se ater ao tom seco e de certa estranheza narrativa, além de realizar uma vívida representação underground sem precisar exceder nas situações 'precárias' e mesmo assim não maquiar sua realidade.

Há ainda a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, com a ambiência da trilha sonora instrumental (Robin Guthrie & Harold Budd) e canções de bandas como Slowdive, Curve, Cocteau Twins e Ride equivalendo através dos gêneros que representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.


Sujeira Sonora Subjetiva e Climática

Antes de estrear no cinema, o diretor americano Gregg Araki foi um crítico musical, o que explica boa parte dos (ótimos) temas que costuma utilizar nos seus filmes. Em "Mistérios da Carne" (2004), temos uma boa mostra de suas escolhas seletivas. À começar pela entrega dos temas instrumentais a dupla Robin Guthrie & Harold Budd, cujas melodias produzem uma atmosfera tão enevoada e melancólica quanto nostálgica e apreensiva. Alinhada enfim, a estrutura do longa que aborda o tema o abuso sexual sofrido por duas crianças mas cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Enquanto Brian experimenta um inferno de reações quase imediatas, Neil parece não se dar conta ou mesmo se traumatizar com o fato, consentindo ser molestado durante todo um verão. Mas essas são falsas impressões e Gregg Araki subverterá essa trama expondo as contradições nas ações desses personagens.

Além do score, a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, período que o filme passa, se dá também através de canções de artistas bastante alternativos. Aliás, muitas das canções sequer fazem parte do repertório 'oficial' das bandas, sendo pinceladas em EP's e compilações. Caso das faixas "Crushed" (Cocteau Twins) & "Drive Blind" (Ride). Pois é reunindo outros nomes ainda, com Slowdive e Curve, que Araki equivale por meio dos gêneros que os músicos representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

2 + 2 = \o/

Da estreia no hip-hop ortodoxo em 'Rhymin' & Garfunkel' (2012) à algum capricho nas bases (eletrônicas) de 'Largo Jones' (2013), o rapper australiano Paul Williams viu seus dois primeiros registros não obterem a mínima repercussão. Talvez porque a produção desses trabalhos não apresentasse nada diferente do que é despejado as pencas pela indústria todo ano. Como resolver então essa questão, uma vez que o artista possue uma evidente vontade 'pop-star' de ser? Com demonstra o recém lançado 'Songs About Girls' (2014), e disponível para audição na plataforma musical Bandcamp, dá maneira mais simples e direta: apelando à grosso modo ao trabalho de produtores que plagiam 'os plagiadores' da sonoridade criada nos anos 80! Se as canções parecem umas com as outras e o som se mostra despersonalizado, ao menos, Williams se esmera em criar um mínimo 'hit' e que justifique esse álbum de figurinhas conhecidas, com bateria cuspida e refrão pop colado. Nesse quesito, a animada 'Georgia' - não por acaso, a faixa que abre o trabalho - trás aquela manipulação básica mas eficaz que se ouve numa programação de rádio FM. Ou seja, não trás nada de novo, recicla sem meio termo diversos artistas, resulta tão bonitinha quanto dispensável porém delimita suas intenções com clareza. Afinal, a popularidade (fácil) não se alcança com conceitos complicados mas com fórmulas básicas, tipo 2 + 2 = (espera-se) su-ces-so.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Acordes De Alívio Arrematador

Um ponto falho e comum nos soundtrack's atuais é a inserção de um grande volume de track's que pouco contribuem ao repertório. Se a composição de alguns temas são feitos para serem encaixados milimetricamente em algumas cenas o alinhamento dos mesmos num álbum pode resultar sem coesão. Muito porque as diminutas melodias, no geral com pouco mais de um minuto, não trazem atrativos além de uma mera ambiência. O resultado disso é uma enorme quantidade de faixas que além de tornar o repertório arrastado produz uma experiência maçante ao ouvinte. De fato, são poucos os músicos que possuem a síntese demonstrada no trabalho do canadense Mychael Danna, que em segundos consegue evocar acordes especiais, ou a perícia de um Clint Mansell que concentra uma profusão de pequenas melodias em longos temas, dando não apenas densidade a sonoridade como tornando seus discos habilmente enxutos.

Sem previsão ainda de estréia no Brasil, o filme 'Locke' (2013) demonstra ser pelos vídeos de divulgação um thriller tenso e bastante dramático, com parte de sua ação desenrolada dentro de um carro e guiado (em vias de colisão e derrapagem emocional) pelo ator inglês Tom Hardy. Uma pena portanto a partitura do longa, à cargo de Dickon Hinchliffe e disponível para download na Web, soar tão dispersiva e dramaticamente arrefecida. Até mesmo o elogio que se poderia fazer a estrutura sonora auto-controlada e com notas em tom menor resulta vago pois o trabalho melódica não justifica o argumento. Destaque único nesse percurso, e não por acaso alocada no trecho final do score, a climática 'Baby' trás nos acordes a vivacidade presente no desenlace habitual de um enredo (justamente o que falta em todo narrativa da obra musical). Logo, o que se espera do filme são atrativos que vão bem além do mero alívio provocado pelo arremate de um trabalho mediano.


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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Desvelado Em Camadas

Embora um tanto combalido nos últimos anos - devido a problemas de saúde e alguns vícios - além de um pouco esquecido, retomar a discografia do cantor George Michael é (re)descrobrir um bom artista. Os primeiros anos no duo Wham!, por mais ordinários que se julgava, não se mostram tão descartáveis assim, revelando inclusive servir de influência para artistas contemporâneos que muitos não costumam associar. Não é difícil, por exemplo, encontrar ecos dessa fase no trabalho de Justin Timberlake, mesmo que esse diga de forma magnânima ter espelhado sua carreira em Michael Jackson. E o parentesco pode se tornar mais estreito se pensarmos que o primeiro álbum de George Michael, 'Faith'( 1987) versa de maneira tão direta ao sexo, e como nunca o 'Rei do Pop' ousou, quanto de 'Futuresex - Lovesounds' (2006), o consagrador segundo disco de Timberlake.

Essa tônica sexual impulsou, aliás, boa parte da produção solo do britânico, e títulos como 'I Want Your Sex' não deixa dúvida que o cantor vivia sua 'la vida loca' com intensidade. Talvez encontrando na entrega ao desejo deliberado uma válvula para apaziguar certos conflitos. Não demorou contudo para o sofrimento se sobrepor ao prazer, e a belíssima e tristonha canção 'Jesus To A Child' evidenciava essa condição. Em 1998, quando o artista foi preso acusado por atentado ao pudor dentro de um banheiro público, seu tumulto interior teve enfim uma expiação, ainda que acompanhada em toda via-crúcis que inevitavelmente acomete uma personalidade famosa: com sensacionalismo e achincalhamento da opinião pública, e até do meio artístico. "Um banheiro não é o melhor lugar para assumir a sexualidade", comentou Elton John na época.

O melhor dessa história é que, uma vez liberado da obrigação com a imagem de sex-simbol das massas, o inglês pode enfim dar vazão as suas preferências e opiniões de maneira direta e verdadeira. Isso ficou claro quando o cantor não evitou citar o fatídico episódio da prisão nas imagens do (abusado) video de 'Outside', e ainda na crítica disparada em 'Shoot The Dog', onde o então primeiro ministro do Reino Unido Tony Blair é representado como um 'cachorrinho' adestrado pelo americano George Bush (em plena Guerra do Iraque). E foi também com as desobrigações com a música pop que George Michael foi desvelando um filão clássico e pouco explorado na sua carreira solo, com regravações de standards jazzísticos. Mesmo que os resultados no disco 'Songs From The Last Century' (1999) não sejam excepcionais o melhor desse registro é (re)afirmar a excelência de sua voz notavelmente modulada em estilos diversos. Uma qualidade já bastante perceptível quando encarou assumir os vocais da super banda Queen, em 1992, num concerto em homenagem a Freddie Mercury, e saindo ileso da chuvarada de comparações.

Pois em 'Roxanne' George Michael não encontra a menor dificuldade com paralelos, uma vez que a versão original de Sting no desativado grupo The Police, não chega nem perto do tratamento impecável dado pelo cantor. A nova versão (em estúdio) é tão irretocável que o próprio artista não conseguiu superá-lo no registro ao vivo do recém lançado 'Symphonica' (2014). Ainda que esse seja um momento luminoso e de sublime interpretação, é preciso lembrar que o artista George Michael possui vários outros destacados instante no seu percurso musical (sobretudo quando remete aos balanços da disco music). É discografia que vale enfim uma boa pesquisada. 


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Tão Incomum Quanto Familiar

Embora não economize em clichês do gênero 'doença da semana', personagem moribundo, narração em off e relacionamentos conflituosos, o longa dirigido pelo artista gráfico Mike Millis, 'Toda Forma de Amor' (2010), consegue criar - ainda assim - uma conexão tão sentimental quanto verdadeira com o espectador, e que faz o iminente dramalhão que se esperaria resultar mais contido e com um inesperado frescor (mesmo não sendo, frisa-se, uma obra excepcional). Se, no resumo geral, o filme fala sobre um sujeito (Oliver), que sempre se fechou pra vida mas com a morte do pai (Hal) encontra algum sentido para viver algo de verdade, é nas entrelinhas do enredo e na maneira como Millis conta e fragmenta essa estória que a torna cativante. Há um estranhamento criado na edição que embaralha os tempos, e as recordações, entrelaçando a infância de Oliver, e sua vivência com a mãe solitária (Georgia), o passado recente, com o pai doente mas ativo (e tão feliz como nunca fora), e o presente quando completamente amortecido pela perda Oliver conhece uma mulher (Anna) que espelha (um mar de) tantos conflitos quanto (um céu de) inúmeras possibilidades - na maior delas, se conectar com alguém.

O filme se apropria, e sem muita vergonha, da excentricidade adorável do francês "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (2002), e a trilha sonora (à cargo do trio Roger Neill, David Palmer e Brian Reitzell) é o indicativo mais óbvio dessa 'referência'. Porém é a impressão 'autobiográfica' criada pelo roteiro do próprio Mike Mills, e a suavização de possíveis exacerbações dramáticas que torna o resultado algo coeso. O fato da subtrama envolvendo o pai de Oliver - que após uma vida inteira dentro do armário, assume a (homos)sexualidade aos 75 anos e inventa de viver uma relação física e amorosa gay, mesmo já doente pelo câncer - ser filtrada com extrema delicadeza faz toda diferença. Assim, como o contexto de sua mãe, certamente infeliz num casamento incompleto, mas vista com uma personalidade forte e tão espirituosa que evita maniqueísmos narrativos. O mesmo pode ser dito da complicada vida familiar de Anna, cujos problemas são sugeridos mas não resvalam em dramaticidades descabidas. Os dramas aqui não servem para acumular depressões profundas (ou incorrer num cho-ro-rô bobo) mas refletir naquele tipo de perplexidade existencial que se carrega e ainda assim se (sobre)vive. É o que torna, enfim, a emoção mais pungente: aquela que não descamba para a histeria mais que silenciosamente esmaga (e sufoca) por dentro.

Pelos bons resultados, é preciso citar ainda o elenco (que é uma maravilha). Mary Page Keller surge em alguns poucos flashbacks mas foge do lugar comum de mãe sofredora. Christopher Plummer (o eterno Captain Von Trapp do clássico 'A Noviça Rebelde') não chega a impressionar, e sua premiação no Oscar pareceu um pouco exagerada (ou uma dessas 'correção' incoerentes da Academia) mas seu bom humor dentro (e fora) de cena o favorece. “Se eu tivesse alguma decência, compartilharia o prêmio com vocês, mas não tenho”, disse o ator dirigindo-se aos demais concorrentes e ao diretor do filme, que lhe propiciou o prêmio de coadjuvante. A francesa Mélanie Laurent, conhecida pela apreensiva atuação em 'Bastardos Inglórios' (2009), de Quentin Tarantino, aqui aparece simplesmente encantadora. E tem ainda o escocês Ewan McGregor, um dos mais fabulosos atores de sua geração. Dono de uma carreira brilhante, e com atuações tão distintas quanto maravilhosas em 'Trainspotting - Sem Limites' (1996), 'Velvet Goldmine' (1998) & 'O Golpista do Ano' (2009), o ator nunca esteve tão charmoso e, ao mesmo tempo, tristonho e melancólico quanto neste filme.

Ao fim, 'Toda Forma de Amor' faz um comentário interessante sobre como a dinâmica da relação entre nossos pais, e que crescemos assistindo bem de perto, pode moldar a maneira como nós mesmos iremos se relacionar quando adultos, buscando traços incomuns em homens e mulheres para encontrar algo (dolorosamente) familiar. Seja na carência emotiva com que se tentará preencher pelo resta da vida ou no medo e abandono de uma relação, tal qual vivenciada continuamente pelos olhos de uma criança presa num corpo crescido.


Narrativa Do Silêncio

A frieza das relações entre pai e filho e o desgaste que só faz aumentar com a passagem do tempo. Em linhas gerais, é esse o resumo que define o enredo do filme holandês "É Tudo Tão Calmo" (2013), uma adaptação do livro "O Gêmeo" do escritor Gerbrand Bakker. Helmer é um homem de meia idade, na faixa dos 50 anos, e que vive sozinho com seu pai doente numa fazenda afastada. Ele vive recluso e mesmo as tentativas de aproximação de uma vizinha, dispondo-se a ajudá-lo, ou do motorista do caminhão que recolhe o leite em sua propriedade, e que parece afetivamente interessado por ele, são completamente rechaçadas.

Um dos acertos do longa é a maneira como a diretora Nanouk Leopold reforça o clima de solidão entre os personagens. Sem um pingo de sentimentalismo ela mostra Helmer cuidando se seu progenitor, limpando-a quando urina na cama, dando banho, oferecendo comida e a presença física mas é evidente o abismo emocional que há entre ambos. 'Por que você me odeia, eu te fiz alguma coisa?', pergunta o pai deitado sem obter resposta. "Você é um pássaro estranho", define mais à frente. Essa é uma historia onde as motivações são pinceladas nas estrelinhas, nos silêncios, em olhares demorados e dentro do vazio das ações cotidianas. O trabalho realizado pelo protagonista - na limpeza dos pastos, ordenhando ovelhas, cuidando da manutenção da fazenda e da alimentação dos bichos - é aliás bastante revelador. Ali esta um homem que vive para cuidar do bem-estar dos outros, anulando suas vontades e abafando os seus próprios desejos. 



 Nanouk Leopold dá ao filme um olhar lento, contemplativo mas nunca pedante. Não é aquele tipo de cineasta que estende além da conta o tempo narrativo. Antes oferece a medida cuidadosa (milimétrica até) para entender o tempo interior dos personagens e a forma como vivem, minuto a minuto, uma rotina sufocante. Para tanto extrai todo tipo de sons extra-ambientes (durante toda projeção, não se escuta nenhum barulho de rádio ou televisão, apenas o tic-tac do relógio!), reforçando nos azuis-cinzas-e-escuros da fotografia o clima de solidão e melancolia depressiva mas criando nuances de luz na vida monocromática de Helmer (ainda assim, quando surge a iluminação - do sol, por exemplo - serve apenas para anunciar a proximidade da morte).

A mão firme na condução da história faz o roteiro, quando este desenvolve um pouco mais o passado dos personagens - e entendemos finalmente o que fez Helmer anular-se durante parte da vida - não resvalar num apelo emotivo. Ao contrário, tudo parece convergir ainda mais num beco sem saída, onde a morte do pai (vagarosa, silenciosa, literal e figurativa) precisa acontecer para que o filho possa finalmente se libertar. De certo modo, é um filme que compartilha da secura emotiva de 'Amour' (2012), o retrato implacável da velhice e das transformações que ela inflige filmada pelo austríaco Michael Haneke. Pois é dessa visão desapiedada e rigorosa - em certos momentos, tão desesperadora quanto perturbadora - de sentimentos escassos e personagens que não conseguem se expressar emocionalmente, que a obra ganha enfim força dramática. Nesse processo, ajuda muito ter um interprete como Jeroen Willems vivendo um personagem tão cheio de arestas. O ator traz no rosto a própria imagem de amargura e reclusão, e ainda dosa com precisão o sofrimento sem exacerbar o drama. Para tanto, e como uma auto-confiança admirável, aplica um décimo de 'atuação' que outros julgariam necessária, mas atinge o dobro de potência e eficácia. O filme é aliás, dedicado a ele que morreu pouco antes do lançamento, ocorrido no Festival de Berlim (2013).  


 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ao Modo E À Moda Dos 'Cabeça Chata'

Em suas criações, o cearense Daniel Peixoto sempre mirou na androginia e estilo de um David Bowie - ou mais especificamente no famoso personagem que o inglês assumiu como persona no disco 'The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars' (1972) - porém, suas canções refletiam mais aos excessos de uma cantora da dance music que o pretendido. Tanta maquiagem na produção e descritério na intenção de soar 'moderno' rendeu ao artista - da fase seminal no duo electro-punk Montage, e que lhe deu certa fama no circuito undeground, à sua carreira solo - o pejorativo apelido de Lady GaGa brasileira. Basta ouvir canções como 'Olhos Castanhos' & a homônima 'Mastigando Humanos' (composições pra lá de afetadas) ou assistir suas performances nos clipes de 'Come To Me' & 'Eu Só Paro Se Cair' para encontrar algum sentido nessa nomeação.

Pois a maior surpresa - e qualidade - no vídeo de 'Flei', lançado quatro anos após o debut 'Mastigando Humanos' (2010), é perceber que toda a pose e vontade do artista em se passar por descolado é devidamente ironizada pelo próprio. Ao invés de realizar sua típica abordagem fashionista, o galego Daniel Peixoto abraça o estilo caboclo dos seus conterrâneos. E é ao modo e à moda dos 'cabeça chata' - dançando ao lado de barracas paupérrimas, passeando em feiras livres, entre churrasquinhos de gato e lingeries baratas - que o artista, digamos, contextualiza melhor o próprio ridículo no divertido exagero de seu povo. Seja lá o que signifique 'Flei', que pela bobinha letra pode ser um apelo ao sexo, as drogas ('Mary Jean não ficou de fora' remete possivelmente a marijuana) ou uma mera exaltação a diversão, o fato é que talvez pelo nascimento de seu filho (um lindo alemãozinho que é mostrado cortando cabelo no vídeo), Daniel Peixoto ache agora de brincar com suas referências musicais e tendências de moda, e não levá-las tão a sério."


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Variações Possíveis de Beleza & Tédio

Colaborador da banda americana Bon Iver, projeto liderado pelo cantor e compositor Justin Vernon, soa quase inevitável ao baterista e pianista Sean Carey não trazer parte da sonoridade habitual desenvolvida pelo grupo em seu trabalho solo. De fato, há muito do minimalismo melódico e a estética acústica e bucólica da Bon Iver nos discos de Carey, todavia, com certas distinções e tão pontuais que torna o que poderia ser apenas uma vaga emulação num conceito - na medida do possível - particular. À começar pelo vocal que se mostra mais comedido que o falsete lamuriento de Vernon, investindo em tons sussurrados e a produção que substitui o clima deprê e sofrido por uma melancolia suave e ponderada. Podem soar pequenas demais as diferenças porém no saldo final resulta em correções providenciais, e que não apenas ameniza as comparações como torna, digamos, mais suportável o andamento arrastado das melodias.

 

Esses arranjos distintos são importante, afinal, o foco dos álbuns "All We Grow" (2010) e o recente 'Range Of Light' (2014) esta todo na melodia - construída de uma forma minimalista só com a ajuda de violão, guitarra, piano e bateria - e que busca desvelar as texturas sonoras num certo romantismo tristonho. E com toda a carência de um romântico, S. Carey solicita atenção e certa paciência do ouvinte. Ainda mais pelo discurso ambientado num repertório uníssono e que implica (muitas) semelhanças entre as canções (o que pode incomodar). O segredo dessa relação estabelecida com o artista esta em saber o melhor momento de ouvir suas ideias e pontos divergentes. Reservar um tempo sossegado, livre de agitação e com calma compreender os argumentos que expiam dores de amores desfeitos e outras tantas decepções. Para os pacientes seu trabalho oferece o melhor em delicadas faixas e que, sintomaticamente, remetem a uma viagem de carro pelo deserto. Pois é neste lugar inóspito, e livre dos barulhos urbanos, que cada um poderá encontrar um sentido nessa experiência, e dizer o que as imagens enquadradas nessa música - em variações possíveis de beleza e tédio que nuvens no céu, árvores ao fundo e vegetação transcorrendo vagarosamente - podem significar. 

O Tal Museu De Grandes Novidades

Há uma tendência atual na música - principalmente a produzida pelos jovens artistas - de se apropriar da sonoridade realizada nos anos 80 como inspiração de projetos 'originais'. É simples: emula-se a produção daquela época retrabalhando seu som através de instrumentos modernos e influências diversas, dissimulando o caráter retrô e defendendo a ideia de um resgate musical para vendê-la com o frescor de uma 'novidade'. À rigor, não é um problema buscar as referências de um trabalho em tempos idos - afinal, como bem disse Cazuza o passado é 'um museu de grandes novidades'. A questão é como essa herança musical têm sido revisitada por músicos e produtores contemporâneos, fazendo pouca (ou nenhuma) justiça ao que foi criado pelas gerações anteriores.

Como o que vira moda exige demanda, tornou-se corriqueiro surgir discos onde a som oitentista é tratado como um pastiche genérico, um tempero exótico que se diz bom para testar mas onde poucos aprofundam as nuances de sabor. Nesse contexto, conta-se nos dedos os artistas que chafurdam além do painel generalizado e buscam especificar os diferentes estilos, artistas e inspirações da época. Um bom exemplo de exceção foi proposto pelo duo francês Daft Punk no seu estupendo disco 'Random Access Memories' (2013), onde um dos formatadores da disco music e eletrônica produzida em meados dos anos 70/80 ganhou uma justa homenagem na faixa 'Giorgio By Moroder' (com pouco mais de nove minutos de duração!) e sem que com isso anulasse a identidade musical da dupla. Com a auto-confiança que lhe é característica, o Daft Punk não apenas utiliza referências de terceiros como não teme divulgar o nome desses artistas. Simplesmente porque demonstram um profundo conhecimento da obra dos artistas que se dizem influenciados, e por saberem tudo o que precisam conseguem abordar com criatividade e exata medida de proporção uma música tida como datada.


Pois é essa boa dose de conhecimento que se ouve também na estreia do norueguês Todd Terje em "It's Album Time" (2014), e reflete na admirável segurança que o artista lida com suas influências. Ao invés de filtrar o som analógico com instrumentos digitais modernos, por exemplo, o músico norueguês abraça o estilo criado pelos ícones do pop eletrônico oitentista sem medo de soar um 'plagiador' e, vai além, especificando sem medo importantes figuras dentro das suas criações. Pois nomes e estilos musicais não faltam em seu álbum - do jazz de Herbie Hancock à new wave da banda Roxy Music, da disco e funk à bossa nova e música latina - todas essas influências são reproduzidas intencionalmente para serem reconhecidas. O interesse de Terje em não criar uma sonoridade 'sem patrono ou inspirador' se deve exatamente por seu estudo das informações musicais.

Há pelo menos dez anos o artista realiza pesquisas com a disco music, reavaliando o estilo em remixes e discotecagens, onde se tornou inclusive um dos expoentes de um subgênero apelidado neo-disco e se firmando como figura proeminente na cena nórdica eletrônica. Sua demora em lançar um disco solo, aliás, sempre causou estranhamento nos admiradores mas agora faz todo o sentido do mundo, afinal, ele estava aprendendo o bê-á-bá do estilo! Esse fato não passou desapercebido e o artista, espertamente, tratou de fazer graça da situação anunciando ironicamente seu trabalho com 'chegou a hora do álbum'! É desse rumor vagaroso e descompromissado (de opiniões) que faz sua estreia fluir segura e constante, não caindo em armadilhas triviais ou numa mera miscelânea de referências sem personalidade.

 

"It’s Album Time" demora um tanto a engatar. O disco pede aliás sucessivas audições para ser melhor assimilado (devido as texturas sonoras e a quantidade de referências). Porém quando ouvido lá pela terceira vez as ideias e conceitos se tornam cristalinos. Quer dizer, uma nitidez enevoada pela claridade de neon que iluminou aquela década. A saborosa salsa 'Svensk Sås' inicia uma sequência de grandes canções, onde despontam ainda a suingada 'Strandbar' que lembra o samba-jazz dos brasileiros Sérgio Mendes & J.T. Meirelles (e que Ed Motta revisitou com brilhantismo no instrumental 'Dwitza', de 2002), a participação especialíssima de Bryan Ferry (sempre muito elegante) em 'Johnny And Mary', além da litorânea (e viciante) 'Inspector Norse', que encerra o disco ecoando as batidas da house music à surgir nos anos 90. Porém é o produtor Giorgio Moroder e seu legado conceitual que traduz o espírito do álbum e surge como influência decisiva (e tão nítida que seu nome - que não é mencionado - não precisa mesmo de citação para ser identificado).

'Delorean Dynamite' apresenta tudo o que o grande produtor da disco music fez de melhor - em sua estimulação duma atmosfera 'espacial', que mistura piano, linhas de baixo e os indispensáveis sintetizadores - e consegue dilatar o tempo para retroceder numa noite qualquer da década de 80. É fechar os olhos e se imaginar num daqueles cenários tropicais de bar, com coquetéis de guarda-chuva (igual na capa do disco) e um seriado policial (a lá 'Miami Vice') passando na TV . Se essas e outras brincadeiras musicais não soam mera firula ou mesmo todo disco resulta num xerox (de carbono) das matrizes originais é porque Todd Terje não é um aventureiro ou mero oportunista da moda. Antes alguém que entende o que esta trabalhando, burilando com respeito e verve necessária o legado de seus heróis. Demonstrando enfim e com inteligência em seu ótimo disco que antiquado são os homens - por mais jovens que sejam - na imaturidade de não entenderem o conteúdo que têm nas mãos ou perceberem que certas músicas dispensam retoques e intervenções rejuvenescedoras - simplesmente, por serem eternas.

 

Entre Quatro Paredes, Ou Não...

Aos poucos, a cantora britânica Estelle vai preparando o lançamento de um novo trabalho de estúdio. Pelo que se ouve da série de EP's intitulados 'Love & Happiness' (Vol. 1/ 2/ 3), e que a artista vêm divulgando desde 2013, seu registro musical mantém o mesmo R&B que a consagrou com o álbum 'Shine' (2008), impulsado sobretudo pelo hit 'American Boy'. Se a sonoridade reprisada (num conjunto) não chega realmente a empolgar, ao menos rende uma ou outra canção como destaque. Caso do sexy single 'Make Her Say' (Beat It Up) e que ganhou um videoclipe com climão erótico e provocativo. Se a canção exala uma sensualidade evidente seu vídeo não recorre necessariamente ao óbvio (no padrão 'modelos lindos de morrer') permitindo a pessoas comuns oferecer um sentido, digamos, mais realista ao erotismo (e nem por isso menos belo). Com uma versatilidade irresistível 'Make Her Say' serve enfim como ótimo aperitivo para uma curtição noturna - seja para sensualizar numa boate como desnudar desinibições entre quatro paredes.

domingo, 13 de abril de 2014

Eletrônica Que Te Quero Dançar

Na cena musical dos anos 90 surgiu uma nova categoria de artista que era até então impensável - o DJ popstar. Esse novo grupo significou a popularização da musica eletrônica e que não cabia mais em restritivas raves ou boates, tomando conta da programação em rádios até se tornar uma influente (e lucrativa) vertente pop. Em última análise, a expansão eletrônica vinha para traduzir os novos tempos de uma geração tecnológica, movida pela internet e sua velocidade assustadora. À rigor, nunca deixou de ser a trilha sonora da juventude notívaga mas agora invadia o cotidiano de todos e sem distinção. Entre os que despontaram na época e outros que vieram à seguir, manipulando com maior ou menor competência os mais diversos estilos - trance, house, drum 'n bass, techno, dubstep, etc - estão nomes como Fatboy Slim, David Guetta, Alex Galdino, DJ Antoine e mais recentemente Skrillex e Calvin Harris.

Zedd, nome fantasia do alemão Anton Zaslavski, é o novato da vez nessa seara. Diferente de artistas que conceitualizam suas obras - como Moby e os duos The Chemical Brothers & Daft Punk - Zedd não quer saber de outra coisa além de diversão (outro sinal dos nossos tempos). Descontada a diluição da electro house e dubstep num formato pop facinho, e a sensação algo inconsistente das canções, Zedd faz de sua estreia em 'Clarity' (2012) uma boa desculpa para farrear. À começar pela boa sacada de interligar as três faixas inicias ('Hourglass', 'Shave It Up' & 'Spectrum'), formando uma dançante unidade e trazendo logo de cara o ouvinte para o centro da velocidade. Não demora a surgir outros destaques como 'Clarity' (faixa título), 'Follow You Down' e a ótima 'Codec', em boas manipulações das frequências melódicas. No restante do tempo, Zedd cita suas referências que vão de Skrillex e Justice à outros nomes consagrados. Nada mais sintomático que a inclusão de vocais robotizados em 'Stache', em inevitável alusão a uma das marcas dos franceses Daft Punk, hoje a maior instituição do gênero. No mais, o álbum segue o be-a-bá padrão da musica eletrônica pop atual, produzindo uma ambiência atrativa mas sem delinear maior identidade, sem que isso seja (inicialmente) um problema.

Por fim, temos 'Stay The Night' que nem é a melhor do disco - aliás, a faixa nem entrou na seleção oficial, incluída apenas numa versão deluxe - mas que ganhou um videoclipe tão caprichado que a torna boa divulgadora num trabalho cuja maior pretensão é mesmo produzir uma boa festa. E que feitas as contas consegue criar o clima necessário para uma baladinha (seja numa boate ou no próprio quarto).


Brincadeirinha Pra Dançar

Em 2010, o canadense A-Trak e o norte-americano Armand Van Helden - em parceria num projeto intitulado Duck Sauce - renderam uma homenagem pop a cantora e atriz Barbra Streisand, cujo nome serviu de título e única palavra dita numa faixa. Em poucas mais boas variações de andamento, a produção dava conta de tornar irresistível sua melodia e transformá-la numa baba francamente pegajosa. Essa facilidade pop fez de 'Barbra Streisand', a faixa, um hit certeiro em setlists de DJ's, repercutindo nas pistas e na internet, e atraindo atenção dos criadores do seriado teen 'Glee' que, num último arremate de sucesso, a utilizaram num dos episódios da 2ªTemporada do programa.

Passado quatro anos, o Duck Sauce prepara enfim o lançamento do álbum de estréia, previsto para o dia 15 de abril mas compartilhado para audição pelo site Soundcloud. 'Quack' (2014) é a inevitável menção ao logotipo do duo que é um belo patinho (ou o bico)! Se o disco cheio resulta pouco interessante, numa variação monótona da disco e house music, ao menos os artistas não se levam tão a sério e embalam o trabalho num astral de brincadeira. O espírito humorado é bem traduzido na capa do álbum - uma monalisa empatulada com um biquinho amarelinho - no repertório é representada em 'Charlie Chazz & Rappin Ralph' (a melhor faixa do disco). Preste atenção a divertida narração latina no desfecho da canção, num clima de franca zoação.


domingo, 6 de abril de 2014

O Rapper Hibernado

Quando olhada em retrospecto, a trajetória musical do paulistano Marcelo Santos (apelido Xis no rap) oferece não mais que vagas impressões para entender por que sua carreira fonográfica que parecia ascendente foi interrompida e o artista passou investir em outras áreas da música (atualmente, sua atividade de maior visibilidade se dá apresentando um programa de rádio). Xis foi um dos nomes que, em meados dos anos 2000, buscou tirar o Rap do gueto e expandi-lo em vertentes do universo pop. Isso significava abrandar o discurso sanguinolento, investir em fusões com outros gêneros e principalmente aparecer mais na mídia. Ao passo que seu sucesso crescia, marcado principalmente pelo hit 'Us Mano E As Mina', a transição da pequena gravadora 4P para a multinacional Warner Music e as parcerias com gente como Maurício Manieri e Cássia Eller (esta última realmente especial) deixava alguns manos ressabiados. Afinal, contrariava o caráter independente que rege o estilo.

 

Sua participação no reality show "Casa dos Artistas" (2002) e no programa do Gugu, no SBT, fez sua imagem ficar ainda mais 'desgastada' entre os rappers. A ala mais durona dizia que Xis tinha se queimado por aparecer na televisão, que gravava com gente que pouco representava a periferia, e que falava muito com jornalistas. Por fim, colaram ao artista a pecha de 'vendido à mídia'. Não se sabe o quanto esses fatos influíram em sua carreira, para o bem e o mal, mas o fato é que desde 2001 o artista deixou de lançar discos com matérial inédito. Não seria o caso, contudo, de se adiantar concluindo que o fogo cruzado de opiniões foi determinante para o recesso do rapper. Afinal, polêmica quando bem utilizada pode servir, vá lá, de boa propaganda. Fora que outros artistas bem mais criticados dão sequência em seus trabalhos sem se importar com os narizes tortos. Como o próprio Xis evita comentar a situação, pouco se sabe das razões de seu abandono dos estúdios.

 

Embora como compositor Xis não apresente nada tão original, o maior atrativo de suas letras é não enquadrar em primeiro plano a criminalidade em suas crônicas. A violência esta lá, assim como o submundo e seus personagens, mas seu discurso não martela na mesma tecla (ou click) das armas e dos bandidos. Sabe, enfim, narrar seus causos como um repórter no meio da ação mas tentando manter a imparcialidade. Nem sempre consegue, é verdade, porém seus acertos são maiores que as eventuais falhas. Da boa estreia em "Seja Como For" (1999) destacam-se 'Vai E Vem' e a divertida 'Paranoia Delirante' (De Esquina) que rendeu uma versão inesquecível no Acústico de Cássia Eller.


Ainda que irregular, "Fortificando A Desobediência", álbum lançado em 2001, tem o mérito de realçar a métrica das rimas através da sofisticação na confecção das bases. 'Chapa O Côco' abre o disco em alto estilo, criando uma batida grandiosa apartir do sample de “If Six Was Nine”, do guitarrista Jimi Hendrix. Já 'Sonho Meu' mescla o rap e o jazz em batidas desaceleradas, onde envolventes linhas de baixo produzem um clima sufocante e que reproduz com primor o conteúdo da letra. A canção trás ainda a luxuosa voz da cantora Cibelle, destaque entre as novas cantoras da MPB...

No saldo final, com a clareza que o tempo oferece, o trabalho do rapper se mostrou mais interessante da maioria que o julgou. Não por ser extraordinário, mas por propor com inteligência novos ideais no rap. Entre eles, de romper os muros que (ainda hoje) isola parte dos artistas do gênero num submundo fechado e hostil, e buscar maior estrutura e parcerias para o gênero. Taí nomes como Criolo e Emicida para comprovar a máxima do rapper. Em tempos de funk ostentação, onde o senso crítico foi reduzido a níveis preocupantes, a ausência de um artista como Xis têm lá sua cota de lamento.


quinta-feira, 20 de março de 2014

O Diabo Dos Clichês

Cavalgada com o Diabo" (Ride With The Devil, 1999) é dos títulos menos inspirados na filmografia do diretor tailandês Ang Lee. Baseado no romance 'Woe to Live On', de Daniel Woodrell, o drama relata a guerra civil que contrapôs sul e norte dos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865. Talvez a maior qualidade do longa seja o olhar estrangeiro lançado por Ang Lee, mostrando como a guerra tolheu e mudou a vida das pessoas comuns e não apenas de ricos e abastados (como na visão sulista-escravocrata de '... E o Vento Levou'). Se a perspicácia de Lee pode ser percebida também na escolha do elenco (que inclui Tobey Maguire, Jeffrey Wright, Jonathan Rhys Meyers & James Caviezel) o mesmo não pode ser dito do roteiro (de James Schamus) e sua incapacidade de envolver a platéia nos dramas dos seus personagens. O melhor do diretor pode ser encontrado em fitas como 'Banquete de Casamento' (1993); 'Razão e Sensibilidade' (1995); 'Tempestade de Gelo' (1997); 'O Tigre e o Dragão' (2000) & 'O Segredo de Brokeback Mountain' (2005).

A trilha sonora à cargo do canadense Mychael Danna segue a toada irregular do roteiro, com momentos clichês (nos temas românticos) arranjos maneiristas (para os que ambientam as cenas de guerra, e que resvalam por vezes ao ufanismo), e desperdício no uso do bandolim (emulando sem brilho a sonoridade do country, talvez o mais reconhecido dos gêneros musicais ianque). Mas Danna é um compositor talentoso - basta lembrar dos ótimos trabalhos em 'Capote' (2005) & 'Pequena Miss Sunshine' (2006) - para reconhecer ao menos um grande tema na partitura de 'Ride With The Devil'. E 'Jack Bull's Death' cumpri esse papel com louvor: num belíssimo arranjo orquestral, sua melódia flui feito água, correndo rapidamente para depois afluir num remanso, retrocedendo gradativamente, e ao fim quebrantar outra vez e jorrar numa cascata de notas, descortinando uma paisagem (musical) magnífica. É nessa última paragem que a calvalgada termina e redime (em partes) o diabo dos clichês.


O Futuro É Hoje - E Ele É Pessimista

Quando surgiu para o grande público em 2011, o rapper Criolo já somava alguns anos de carreira. Em 2006, ele chegou a lançar um disco solo, 'Ainda Há Tempo', quando ainda se auto-intitulava Criolo Doido, porém sem muita repercussão. Pensava inclusive em desistir da vida no rap para se dedicar a outros planos. Mas eis que num último mas decisivo ato conheceu e se associou ao produtor musical Daniel Ganjaman. Pronto: a carreira que antes se acreditava falida ressurgiu tão renovada e promissora que ninguém, nem o próprio Criolo, poderia imaginar ser possível. Citar o nome de Daniel Ganjaman (com serviços prestados a Planet Hemp, Racionais MC's, Sabotage & Nação Zumbi, entre outros) não é mero detalhe na trajetória do rapper. Muito se falou, elogiou e rendeu loas, ao trabalho de Criolo em 'Nó na Orelha', disco lançado em 2011, e que galgou os tops de lista de melhores do ano, tanto da critica musical quanto do público. Basta lembrar que seu nome foi um dos mais citados entre os premiados no VMB2012, onde também foi uma das atrações musicais apresentando a (bela) canção 'Não Existe Amor Em SP,' ao lado do Caetano Veloso.

'Nó na Orelha' não deixa de ser um albúm interessante, e muito de suas qualidades se deve a espertíssima produção musical, que agrega uma fusão de gêneros a vocação sisuda do rap, tornando-o mais maleável e envolvente. Quanto as composições de Criolo não sou do grupo dos entusiastas. Consigo ver uma ou duas boas canções, a citada 'Não Existe Amor e SP’, por exemplo, é um soul melancólico pungente e que tem força para integrar o cancioneiro que 'homenageia' a cidade paulista (como 'Trem das Onze' & 'Sampa'). No mais, acho que seu repertório chove no molhado, apresenta demasiada firula nas rimas (embora contenha também certa musicalidade) mas acrescenta pouco ao discurso. Contra o rapper pesa ainda sua pretensão em investir numa faceta ‘interprete', talento que decididamente não possui. O resultado de suas 'intervenções' vocais, em faixas como ‘Freguês Da Meia Noite’, é digamos equivocado (no mínimo). Não é um exagero considerar que, num primeiro momento, o sucesso usufruído pelo rapper se deveu mais ao trabalho do produtor Daniel Ganjaman que seu talento para composição (ou carisma).

Passado todo burburinho da estréia, em 2013 Criolo lançou o single 'Duas De Cinco' que além da música título trazia no Lado B a faixa 'Cóccix-Ência'. E foi sem muito alarde, mas desta vez de forma indiscutível, que o rapper mostrou uma evolução musical. É evidente não ser possível medir como essas duas canções trabalhariam à favor de um repertório maior (dentro do conceito de um disco) mas encaradas como uma espécie de rap de um nota só, frente e verso desse curto freaseado musical complementa-se de forma impecável. Criolo insiste em certos erros, utilizando uma dialética confusa para soar descolado (ou mesmo pop) mas os acertos (quando acontecem) compensam enormemente os eventuais deslizes.

'Cóccix-Ência' se destaca mais pela sonoridade encorpada, urdida com instrumentos de percussão e cordas, além de um valioso solo de guitarra (à cargo de Guilherme Held). Se a crítica feita na letra àqueles que vivem de falsas aparências e vaidade excessiva não trás maiores novidades ao menos inseri no relato (bom) humor gaiato - 'Pavão que não tem rabo paga pau pra espanador' – e irônico (‘O zumbi que ri/ Tá na tua sala te esperando pra janta/ E você é a janta/ Dormiu com medo/ E acordou com o destino').

Em 'Duas de Cinco' a situação se inverte e a musicalidade - que harmoniza discretamente cordas, baixo e arranjos de sopro - abre espaço para um discurso incisivo e assertivo. A produção utiliza o sample de 'Califórnia azul', canção do estupendo primeiro disco do sambista Rodrigo Campos (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe) para frasear a composição ('Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco Califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou...'). Criolo cita o poeta Carlos Drummond de Andrade com inteligência numa das passagens ('Que no meio do caminho/ Da educação havia uma pedra/ E havia uma pedra/ No meio do caminho/ Ele não é preto velho/ Mas no bolso leva um cachimbo') e faz uma pertinente crítica a política de combate as drogas ('Um governo que quer acabar com o crack/ Mas não tem moral para vetar/ Comercial de cerveja'). Esta foi uma das grandes musicas do ano passado e que ninguém ouviu! Isso até momento pois o rapper acaba de lançar um videoclipe mixando as duas canções.

Dirigido por Denis Cisma, o vídeo de quase dez minutos foi gravado no Grajaú, bairro de São Paulo, e imagina o cotidiano da comunidade no ano de 2044, em que tecnologias como drones (pequenos veículos aéreos não tripulados), impressão 3D de armas, hologramas e reconhecimento facial fazem parte da rotina. No cenário de ficção-científica imaginado pelos realizadores tudo ainda é parecido a um ambiente underground dos dias de hoje (provavelmente pela limitação do orçamento), todavia antes que categorize como um defeito, o arranjo termina reforçando a analogia de um futuro dolorosamente semelhante ao nosso presente. Afinal, na favela futurística, jovens ainda deixarão a sala de aula seduzidos pelo caminho mais curto da violência e do tráfico de drogas. Cisma vem do mercado publicitário e possui um evidente domínio narrativo. Constrõe um ótimo curta-metragem cheio de energia e forte carga dramática, e principalmente não idealiza ou atenua os conflitos da realidade que encena. Sua visão do futuro é, aliás, bem pessimista. Um condição que o próprio Criolo compartilhou quanto a sua carreira. Mas que agora - e esse trabalho não deixa dúvidas - pode ter o destino (na música) encarado com maior otimismo. Que o nosso futuro possa, também, ter alguma redenção.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Tão Pobre Que Tinha Apenas Dinheiro

A média com que Woody Alen continua lançando filmes é algo notável. Enquanto seus contemporâneos de geração hoje mal conseguem esboçar novos projetos, o americano prossegue tão prolixo quanto nos primeiros anos de carreira. Desde a sua estréia, com o longa "O que é que Há, Gatinha?", em 1965, o cineasta mantém a marca de um filme por ano (quando não dois!). Com uma produtividade tão numerosa é inevitável, todavia, que seus projetos oscilem de nível quanto a excelência ou originalidade. Não é díficil por exemplo vê-lo repetir estruturas de filmes ou mesmo incorrendo em trabalhos decididamente equivocados.

Ainda que os defensores digam que um obra ruim de Woody Allen seja melhor que a média (produzida no cinema americano) este se tornou um argumento questionável quando o autor alcançou seu nível mais alarmante em desgaste artístico, em meados dos anos 2000. Foi uma medida providencial, portanto, o artista ter trocado o cenário da maioria dos seus filmes, a cidade de Nova York, para filmar em outras locações pela Europa. Com a mudança de ares foi possível notar uma renovação surpreendente do gênio criativo de Allen, que apartir de 2005 entrou numa de suas melhores fases, em trabalhos como "Ponto Final - Match Point" (2005), "O Sonho de Cassandra" (2007), "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e o maravilhoso "Meia Noite em Paris" (2011). Seu mais recente trabalho, "Blue Jasmine" (2013), é dos títulos que reforçam a boa forma criativa do quase octogenário Woody Allen.

"Blue Jasmine" nos apresenta a personagem-título, que, voando na primeira classe, insiste em contar sua história para a passageira do lado, uma velhinha que parece uma conhecida mas que, na verdade, não reconhece (e nem quer reconhecer) afinidades com a chorosa protagonista. Acostumada à vida de luxo oferecida por seu marido, Jasmine agora se encontra na miséria desde que o sujeito foi preso por fraude, o que a obriga a se mudar para a Califórnia a fim de morar com a irmã, Ginger. Alternando a narrativa entre o presente, que traz a protagonista buscando se adaptar ao cotidiano de trabalhadora, e o passado, que revela as circunstâncias que a levaram até ali, "Blue Jasmine" segue uma corrente bem contemporânea do cinema, ao ambientar personagens em meio aos desvãos da (grave) crise econômica que a Europa e os EUA enfrentam. Além do filme de Woody Allen, um certo "Lobo de Wall Street" (2013) causou furor com sua abordagem explosiva de um sujeito que se aproveitou da boa-fé de investidores para aplicar-lhes um baita golpe e que os deixou a beira da falência. Tanto o longa dirigido por Martin Scorsese, quanto "Blue Jasmine" são inspiradas em personagens veridicos que induziram o mercado financeiro - americano, em questão - a uma crise que têm sido comparada a Grande Depressão de 1929!

As questões propostas em "Blue Jasmine" o assemelha a quase um conto moral: afinal, seria Jasmine uma vítima? Ou a arquiteta de seu próprio destino? Devemos enfim nos importar com o quanto está abalada? A protagonista jura não saber das traições do marido e suas falcatruas (talvez, melhor palavra aqui seria 'negar a ver') porém, de certo modo, o expectador jamais dúvida dela. Enquanto pudesse continuar comprando roupas caras e jóias, e participando de festas e viagens pelo mundo tudo estaria bem (pra que saber da verdade, não é mesmo?). Pois é nesse tipo de ingenuidade alienada que Allen enquadra a Jasmine do filme e, sinceramente, não se preocupa em oferecer-lhe a menor solidariedade. Pois esse é o primeiro acerto do roteiro. Frívola, esnobe, emocionalmente suscetível e descontrola - o diretor oferece um retrato elegante porém antipático de sua protagonista, e mantém essas características até o final, sem atenuações, ou desvios de rotas além da queda livre rumo ao fundo do poço.

O segundo e mais delicado acerto é suscitar graça no infortúnio dramático mas sem jamais confundir o enredo com uma comédia. Allen força o drama em muitas cenas e de tão exagerado o recurso se torna naturalmente divertido. As crises de pânico da personagem, sua fleuma arrogante em querer provar que continua elegante quando não passa de uma decadente, os momentos em que ela conversa sozinha evidenciando uma mulher que ultrapassou o limite da sanidade a muito tempo - as risadas provocadas por essas situações são pontuais porém o que predomina, na maior parte do longa, é um olhar de impiedosa melancolia e desconfortável humor negro.

Com uma estrutura dramatúrgica notável, Woody Allen, também autor do roteiro, consegue ainda espelhar na sua narrativa elementos da clássica peça de Tennessee Williams, "Um Bonde Chamado Desejo", onde muito da destemperança de sua Jasmine reflete da iludida e perdida personagem da peça, Blanche Dubois. Nesse sentido, a atuação da australiana Cate Blanchett, no limiar da precisão técnica e afetação teatral, é melhor contextualizada quando vista como um espécie de 'homenagem' ao estilo de interpretação (também, altamente teatral) da atriz Vivien Leight, na melhor adaptação cinematográfica da peça, dirigida pelo mestre Elia Kazan (em 1951). À favor de Blanchett, conta ainda o fato de toda transformação vívida pela sua personagem ser encarada sem maquiagem ou grandes transformações físicas (a servi-lhe de muleta): aqui, é apenas a atriz e seu rosto limpo a expor a jornada emocional de sua Jasmine.

No fim, nem o fato do diretor recorrer a um de seus cacoetes (o inevitável personagem nervoso e neurótico, como um decalque homônimo do próprio Woody Allen) se torna um defeito. Muito porque, não importa quantos ansiolíticos sua protagonista tome para se acalmar - nenhum comprimido fará desaparecer a ameaça contínua de (um novo) colapso nervoso e a sensação que sua derrocada ao fundo do poço não chegou nem na metade. Diferente do jasmim (a planta) que floresce a noite, ganhando vida depois que escurece, Jasmine (a mulher) não saberá transformar sua desgraça ou reconhecer outros tons além dos azuis melancólicos na sua condição de pobreza. Na conclusão que se chega desta estória, Woody Allen acertou em cheio em não enxergar apenas drama numa estória, à rigor, impregnada de elementos da divina comédia humana, para expor sua protagonista, pois, muito dos infortúnios e tragédias dela se equivalem na mesma moeda do seu revés patético. É portanto uma pobreza bem menos material e muito mais advinda do vazio da alma. É como dizem - têm pessoas que são tão pobres que possuem apenas dinheiro. No caso de Jasmine, restou mesmo apenas o vazio.



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quinta-feira, 6 de março de 2014

And The Oscar Goes To.. The Great Fun!

É fato: quem considera o Oscar o maior prêmio do cinema pouco entende da sétima arte. Por ser uma premiação industrial e que valoriza a produção criada em território estaduniense, não é nenhum segredo que os filmes ali lembrados (entre vencedores e indicados) privilegiaram no geral obras em língua inglesa, abordando em grande parte o estilo de vida norte-americana e cuja inclusão se justifica através de alguns milhões na bilheteria (contabilizado ou com sérias possibilidades disso acontecer). Sejamos francos, estamos falando de um investimento. Ter talento ou realizar um bom trabalho é (muito) relativo quando se trata de ganhar uma estatueta. Campanhas publicitárias, lobby dos estúdios, a capacidade de uma obra ou artista (estrela, no jargão cinéfilo) em render dinheiro é levado bem mais em consideração do que o mérito da qualidade. Se visto unicamente pelo prisma do critério qualitativo, a decepção com o prêmio então é maior ainda, já que a lista de injustiças cometidas ao longo de oito décadas é grande, e muitas vezes alarmante.

Como preterir, por exemplo, atuações notadamente superiores como de Bete Davis (por 'A Malvada') & principalmente Gloria Swanson (pelo estupendo desempenho em 'Crepúsculo dos Deuses') em favor da fraquissíma Judy Holliday (por 'Nascida Ontem'), em 1950? Caso parecido ao de Julia Roberts, atriz mais rentável de Hollywood em meados de 2001, e premiada pelo correto desempenho em 'Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento', porém explicitamente inferior quando comparado a devastadora atuação de Ellen Burstyn em 'Réquiem para um Sonho'. E os filmes? Como defender uma obra de tateante minimalismo dramático, caso do longa 'Gente como a Gente', diante da ousadia proposta no vertiginoso 'Touro Indomável' (que busca através de uma narrativa febril e deliberada as razões do sucesso e derrocada do boxeador Jake LaMotta) e, ainda assim, ser derrotado em 1980? Ou ainda a escandalosa vitória do insípido 'O Discurso do Rei', em 2011, diante de verdadeiros clássicos modernos como 'A Rede Social' ou 'Cisne Negro'. É curioso que sejam os perdedores muitas vezes, a entrar para História e, não raro, representarem a época em que foram lançados, melhor do que os vencedores. Certamente será este o caso dos longas dirigidos por David Fincher e Darren Aronofsky. Isso sem falar nas esnobadas a mestres como Alfred Hitchcock, Charles Chaplin e Orson Welles, autores que viram suas obras esquecidas na premiação. Perder no Oscar, portanto, está longe de ser uma vergonha - na verdade, quem perde o prestigio e têm a importância subvalorizada é a própria Academia Cinematográfica Hollywoodiana, que se equilibra de maneira esquizofrênica entre incentivar quem pode render mais dinheiro ou reconhecer o valor artístico de uma obra.

Neste ano, as publicações especializadas na área foram unânimes em dizer que a qualidade das produções indicadas estava acima da média. Particularmente, não notei nada assim tão superior e que alterasse a rota de anos anteriores. Ok, "Gravidade" & "Ela" eram títulos diferenciados mas significavam o mesmo pingo d'água no oceano de mesmices compiladas toda vez entre os indicados. A bem da verdade, nem vêm ao caso apontar quem era o melhor, quem merecia, quem era 'bom' - cada um que faça seu próprio juízo, certo? Para certa parcela do público, uma festa tão sisuda como o Oscar - ocorrido no último domingo (02/03) - só consegue despertar algum entusiasmo ao ter quebrado o protocolo formal (e previsível) da cerimônia. Afinal, que está premiação siga o padrão ouro de monotonia isso não é novidade, porém ter a imagem surreal de uma Meryl Streep (a maior atriz da atualidade, no cinema americano) comendo um pedaço de pizza na platéia, como diria aquela propaganda de cartão de crédito, não tem preço (mesmo)! É a mesma impressão que se tem ao vislumbrar a divertida 'briga' no backstage entre Jennifer Lawrence e Lupita Nyong'o pelo prêmio de melhor coadjuvante. Para os expectadores que acompanhavam a cobertura do prêmio pelo canal a cabo TNT, ainda houve um bônus adicional quando o jornalista Rubens Ewald Filho cometeu uma gafe (daquelas) ao chamar a atriz Shirley Temple de "lenda viva" quando a mesma era homenageada entre os artistas mortos do último ano! Mais tarde, contudo, Ewald Filho se redimiu ao exaltar a inusitada (porém justíssima) lembrança do documentarista Eduardo Coutinho, morto em Fevereiro passado, no tradicional clipe de "In Memorian". Seria maldade incluir nessa sessão 'vergonha alheia', também a participação da atriz Kim Novak, de 81 anos, que foi entregar o Oscar de melhor animação ao filme "Frozen: Uma aventura Congelante" mas estava com a aparência igualmente “congelada” por plásticas e intervenções cirúrgicas? Ou o esforço vão da baixinha Lisa Mineli tentando participar de uma foto onde só havia gente alta?

Bem, talvez o momento que melhor represente a descontração (atípica) que rolou durante a festa seja mesmo do “selfie” histórico da apresentadora Ellen Degeneres e repleto de estrelas, cuja foto gerou pane no Twitter, em suas mais de 1,2 milhão replicações. E em pouco mais de uma hora! O melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro - quem se importa. Nenhuma obra precisa de um Oscar para ter sua importância, enfim, legitimida ou ainda condicionar o que deve ser privilegiado (este poder pertence ao público que, individualmente, pode atribuir melhor veredicto a quem julgar merecedor). Em contrapartida, assistir grandes artistas enfrentando a própria 'derrota' e, ainda assim, se divertindo à beça tem um valor que, convenhamos, prêmio nenhum pode dar conta.