quinta-feira, 20 de março de 2014

O Futuro É Hoje - E Ele É Pessimista

Quando surgiu para o grande público em 2011, o rapper Criolo já somava alguns anos de carreira. Em 2006, ele chegou a lançar um disco solo, 'Ainda Há Tempo', quando ainda se auto-intitulava Criolo Doido, porém sem muita repercussão. Pensava inclusive em desistir da vida no rap para se dedicar a outros planos. Mas eis que num último mas decisivo ato conheceu e se associou ao produtor musical Daniel Ganjaman. Pronto: a carreira que antes se acreditava falida ressurgiu tão renovada e promissora que ninguém, nem o próprio Criolo, poderia imaginar ser possível. Citar o nome de Daniel Ganjaman (com serviços prestados a Planet Hemp, Racionais MC's, Sabotage & Nação Zumbi, entre outros) não é mero detalhe na trajetória do rapper. Muito se falou, elogiou e rendeu loas, ao trabalho de Criolo em 'Nó na Orelha', disco lançado em 2011, e que galgou os tops de lista de melhores do ano, tanto da critica musical quanto do público. Basta lembrar que seu nome foi um dos mais citados entre os premiados no VMB2012, onde também foi uma das atrações musicais apresentando a (bela) canção 'Não Existe Amor Em SP,' ao lado do Caetano Veloso.

'Nó na Orelha' não deixa de ser um albúm interessante, e muito de suas qualidades se deve a espertíssima produção musical, que agrega uma fusão de gêneros a vocação sisuda do rap, tornando-o mais maleável e envolvente. Quanto as composições de Criolo não sou do grupo dos entusiastas. Consigo ver uma ou duas boas canções, a citada 'Não Existe Amor e SP’, por exemplo, é um soul melancólico pungente e que tem força para integrar o cancioneiro que 'homenageia' a cidade paulista (como 'Trem das Onze' & 'Sampa'). No mais, acho que seu repertório chove no molhado, apresenta demasiada firula nas rimas (embora contenha também certa musicalidade) mas acrescenta pouco ao discurso. Contra o rapper pesa ainda sua pretensão em investir numa faceta ‘interprete', talento que decididamente não possui. O resultado de suas 'intervenções' vocais, em faixas como ‘Freguês Da Meia Noite’, é digamos equivocado (no mínimo). Não é um exagero considerar que, num primeiro momento, o sucesso usufruído pelo rapper se deveu mais ao trabalho do produtor Daniel Ganjaman que seu talento para composição (ou carisma).

Passado todo burburinho da estréia, em 2013 Criolo lançou o single 'Duas De Cinco' que além da música título trazia no Lado B a faixa 'Cóccix-Ência'. E foi sem muito alarde, mas desta vez de forma indiscutível, que o rapper mostrou uma evolução musical. É evidente não ser possível medir como essas duas canções trabalhariam à favor de um repertório maior (dentro do conceito de um disco) mas encaradas como uma espécie de rap de um nota só, frente e verso desse curto freaseado musical complementa-se de forma impecável. Criolo insiste em certos erros, utilizando uma dialética confusa para soar descolado (ou mesmo pop) mas os acertos (quando acontecem) compensam enormemente os eventuais deslizes.

'Cóccix-Ência' se destaca mais pela sonoridade encorpada, urdida com instrumentos de percussão e cordas, além de um valioso solo de guitarra (à cargo de Guilherme Held). Se a crítica feita na letra àqueles que vivem de falsas aparências e vaidade excessiva não trás maiores novidades ao menos inseri no relato (bom) humor gaiato - 'Pavão que não tem rabo paga pau pra espanador' – e irônico (‘O zumbi que ri/ Tá na tua sala te esperando pra janta/ E você é a janta/ Dormiu com medo/ E acordou com o destino').

Em 'Duas de Cinco' a situação se inverte e a musicalidade - que harmoniza discretamente cordas, baixo e arranjos de sopro - abre espaço para um discurso incisivo e assertivo. A produção utiliza o sample de 'Califórnia azul', canção do estupendo primeiro disco do sambista Rodrigo Campos (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe) para frasear a composição ('Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco Califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou...'). Criolo cita o poeta Carlos Drummond de Andrade com inteligência numa das passagens ('Que no meio do caminho/ Da educação havia uma pedra/ E havia uma pedra/ No meio do caminho/ Ele não é preto velho/ Mas no bolso leva um cachimbo') e faz uma pertinente crítica a política de combate as drogas ('Um governo que quer acabar com o crack/ Mas não tem moral para vetar/ Comercial de cerveja'). Esta foi uma das grandes musicas do ano passado e que ninguém ouviu! Isso até momento pois o rapper acaba de lançar um videoclipe mixando as duas canções.

Dirigido por Denis Cisma, o vídeo de quase dez minutos foi gravado no Grajaú, bairro de São Paulo, e imagina o cotidiano da comunidade no ano de 2044, em que tecnologias como drones (pequenos veículos aéreos não tripulados), impressão 3D de armas, hologramas e reconhecimento facial fazem parte da rotina. No cenário de ficção-científica imaginado pelos realizadores tudo ainda é parecido a um ambiente underground dos dias de hoje (provavelmente pela limitação do orçamento), todavia antes que categorize como um defeito, o arranjo termina reforçando a analogia de um futuro dolorosamente semelhante ao nosso presente. Afinal, na favela futurística, jovens ainda deixarão a sala de aula seduzidos pelo caminho mais curto da violência e do tráfico de drogas. Cisma vem do mercado publicitário e possui um evidente domínio narrativo. Constrõe um ótimo curta-metragem cheio de energia e forte carga dramática, e principalmente não idealiza ou atenua os conflitos da realidade que encena. Sua visão do futuro é, aliás, bem pessimista. Um condição que o próprio Criolo compartilhou quanto a sua carreira. Mas que agora - e esse trabalho não deixa dúvidas - pode ter o destino (na música) encarado com maior otimismo. Que o nosso futuro possa, também, ter alguma redenção.


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