quarta-feira, 12 de março de 2014

Tão Pobre Que Tinha Apenas Dinheiro

A média com que Woody Alen continua lançando filmes é algo notável. Enquanto seus contemporâneos de geração hoje mal conseguem esboçar novos projetos, o americano prossegue tão prolixo quanto nos primeiros anos de carreira. Desde a sua estréia, com o longa "O que é que Há, Gatinha?", em 1965, o cineasta mantém a marca de um filme por ano (quando não dois!). Com uma produtividade tão numerosa é inevitável, todavia, que seus projetos oscilem de nível quanto a excelência ou originalidade. Não é díficil por exemplo vê-lo repetir estruturas de filmes ou mesmo incorrendo em trabalhos decididamente equivocados.

Ainda que os defensores digam que um obra ruim de Woody Allen seja melhor que a média (produzida no cinema americano) este se tornou um argumento questionável quando o autor alcançou seu nível mais alarmante em desgaste artístico, em meados dos anos 2000. Foi uma medida providencial, portanto, o artista ter trocado o cenário da maioria dos seus filmes, a cidade de Nova York, para filmar em outras locações pela Europa. Com a mudança de ares foi possível notar uma renovação surpreendente do gênio criativo de Allen, que apartir de 2005 entrou numa de suas melhores fases, em trabalhos como "Ponto Final - Match Point" (2005), "O Sonho de Cassandra" (2007), "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e o maravilhoso "Meia Noite em Paris" (2011). Seu mais recente trabalho, "Blue Jasmine" (2013), é dos títulos que reforçam a boa forma criativa do quase octogenário Woody Allen.

"Blue Jasmine" nos apresenta a personagem-título, que, voando na primeira classe, insiste em contar sua história para a passageira do lado, uma velhinha que parece uma conhecida mas que, na verdade, não reconhece (e nem quer reconhecer) afinidades com a chorosa protagonista. Acostumada à vida de luxo oferecida por seu marido, Jasmine agora se encontra na miséria desde que o sujeito foi preso por fraude, o que a obriga a se mudar para a Califórnia a fim de morar com a irmã, Ginger. Alternando a narrativa entre o presente, que traz a protagonista buscando se adaptar ao cotidiano de trabalhadora, e o passado, que revela as circunstâncias que a levaram até ali, "Blue Jasmine" segue uma corrente bem contemporânea do cinema, ao ambientar personagens em meio aos desvãos da (grave) crise econômica que a Europa e os EUA enfrentam. Além do filme de Woody Allen, um certo "Lobo de Wall Street" (2013) causou furor com sua abordagem explosiva de um sujeito que se aproveitou da boa-fé de investidores para aplicar-lhes um baita golpe e que os deixou a beira da falência. Tanto o longa dirigido por Martin Scorsese, quanto "Blue Jasmine" são inspiradas em personagens veridicos que induziram o mercado financeiro - americano, em questão - a uma crise que têm sido comparada a Grande Depressão de 1929!

As questões propostas em "Blue Jasmine" o assemelha a quase um conto moral: afinal, seria Jasmine uma vítima? Ou a arquiteta de seu próprio destino? Devemos enfim nos importar com o quanto está abalada? A protagonista jura não saber das traições do marido e suas falcatruas (talvez, melhor palavra aqui seria 'negar a ver') porém, de certo modo, o expectador jamais dúvida dela. Enquanto pudesse continuar comprando roupas caras e jóias, e participando de festas e viagens pelo mundo tudo estaria bem (pra que saber da verdade, não é mesmo?). Pois é nesse tipo de ingenuidade alienada que Allen enquadra a Jasmine do filme e, sinceramente, não se preocupa em oferecer-lhe a menor solidariedade. Pois esse é o primeiro acerto do roteiro. Frívola, esnobe, emocionalmente suscetível e descontrola - o diretor oferece um retrato elegante porém antipático de sua protagonista, e mantém essas características até o final, sem atenuações, ou desvios de rotas além da queda livre rumo ao fundo do poço.

O segundo e mais delicado acerto é suscitar graça no infortúnio dramático mas sem jamais confundir o enredo com uma comédia. Allen força o drama em muitas cenas e de tão exagerado o recurso se torna naturalmente divertido. As crises de pânico da personagem, sua fleuma arrogante em querer provar que continua elegante quando não passa de uma decadente, os momentos em que ela conversa sozinha evidenciando uma mulher que ultrapassou o limite da sanidade a muito tempo - as risadas provocadas por essas situações são pontuais porém o que predomina, na maior parte do longa, é um olhar de impiedosa melancolia e desconfortável humor negro.

Com uma estrutura dramatúrgica notável, Woody Allen, também autor do roteiro, consegue ainda espelhar na sua narrativa elementos da clássica peça de Tennessee Williams, "Um Bonde Chamado Desejo", onde muito da destemperança de sua Jasmine reflete da iludida e perdida personagem da peça, Blanche Dubois. Nesse sentido, a atuação da australiana Cate Blanchett, no limiar da precisão técnica e afetação teatral, é melhor contextualizada quando vista como um espécie de 'homenagem' ao estilo de interpretação (também, altamente teatral) da atriz Vivien Leight, na melhor adaptação cinematográfica da peça, dirigida pelo mestre Elia Kazan (em 1951). À favor de Blanchett, conta ainda o fato de toda transformação vívida pela sua personagem ser encarada sem maquiagem ou grandes transformações físicas (a servi-lhe de muleta): aqui, é apenas a atriz e seu rosto limpo a expor a jornada emocional de sua Jasmine.

No fim, nem o fato do diretor recorrer a um de seus cacoetes (o inevitável personagem nervoso e neurótico, como um decalque homônimo do próprio Woody Allen) se torna um defeito. Muito porque, não importa quantos ansiolíticos sua protagonista tome para se acalmar - nenhum comprimido fará desaparecer a ameaça contínua de (um novo) colapso nervoso e a sensação que sua derrocada ao fundo do poço não chegou nem na metade. Diferente do jasmim (a planta) que floresce a noite, ganhando vida depois que escurece, Jasmine (a mulher) não saberá transformar sua desgraça ou reconhecer outros tons além dos azuis melancólicos na sua condição de pobreza. Na conclusão que se chega desta estória, Woody Allen acertou em cheio em não enxergar apenas drama numa estória, à rigor, impregnada de elementos da divina comédia humana, para expor sua protagonista, pois, muito dos infortúnios e tragédias dela se equivalem na mesma moeda do seu revés patético. É portanto uma pobreza bem menos material e muito mais advinda do vazio da alma. É como dizem - têm pessoas que são tão pobres que possuem apenas dinheiro. No caso de Jasmine, restou mesmo apenas o vazio.



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