terça-feira, 28 de maio de 2013

Show de Dança

 A marca Cirque du Soleil por vezes paga o preço de ser uma… Marca. A sensação de que cada novo espetáculo virou quase um derivativo de si acaba por comprometer os lançamentos do grupo. O fato de terem confiado na coreógrafa brasileira Deborah Colker uma de suas últimas montagens, o elogiado Ovo, é um sinal dessa busca por renovação. E Colker, de energia e criatividade faíscantes, é uma artista apta para apresentar algo novo. À frente da companhia que leva seu nome, Deborah Colker lança-se numa investigação instigante sobre o movimento, a velocidade, desejos e inquietação humana, e embora utilizei elementos da cultural brasileira, seu trabalho não possui viés delimitado (ou mesmo de apelo) nacionalista. Seu interesse é claramente atingir um público amplo pelo magnetismo de suas coreografias, cenários inusitados e contextualizações estéticas. Foi com esse espírito impetuoso (e sem amarras), que ela mudou o foco do tradicional palco horizontal para a ação transcorrendo num paredão de alpinismo em ‘Velox’ (1995), explorou planos e níveis de movimentos dentro e fora de uma roda-gigantesca em 'Rota' (1997) e incorporou à dança o mundo das artes plásticas - com a interação direta entre os bailarinos e as obras utilizadas como cenário  - em '4 x 4' (2002) [no mais audacioso dos quatro atos, uma trupe desliza frenética em meio a dezenas de vasos de cerâmica que podem se quebrar a qualquer momento - num exercício de agilidade, precisão milimétrica e delicadeza singular]. O fato de ser a primeira mulher (e brasileiro) a dirigir o Cirque du Soleil, nos 25 anos da companhia canadense, denúncia portanto menos quanto ao sexo e mais pela competência e talento da coreografa carioca.

Vai demorar um tanto ainda para que o público brasileiro possa conferir o espetáculo (viajando pelo mundo, ele deve chegar ao Brasil em 2015!). Um apertivo é sua trilha sonora disponível para audição na web. À cargo do produtor musical Berna Cepas, o trabalho demora a alinha-se no conceito 'universal' de Colker (e da própria companhia circense). Sua música é festiva, de fácil assimilação, e marcada por ritmos brasileiros (como samba, forró, bossa nova, funk carioca, baião e até carimbó) mas a repetição de estilo (que visa reforçar a identidade nacional num contexto estrangeiro) soa por vezes genérica - para não dizer cliché. Sua música ganha destaque mesmo é quando conduz a diversidade e multicolorido de sons à uma passarela sem distinção de fronteiras. 'Orvalho', por exemplo, é um tema cuja produção não se escora em elementos 'exóticos' porém apura sua melódia (recorrendo a arranjos de corda e uma discreta programação eletrônica) com uma inteligência e sensibilidade que qual fosse seu idioma ele não daria conta em traduzir tamanha beleza.



Da Arte de Copiar, Imprimir & Scanear

Num cenário dominado por novas bandas que utilizam o mesmíssimo cruzamento entre rock independente e a MPB do Los Hermanos - sonoridade que fora burilada em trabalhos como 'Bloco do Eu Sozinho' (2001) e, principalmente, 'Ventura' (2003) - os gaúchos do Apanhador Só, diferente do que andou-se apregoando por aí, não apresentam novidades à essa cena musical - ao contrário, são apenas mais uma mostra da influência quase sufocante do quarteto carioca. Seu homônimo albúm de estréia, lançado em 2010 (e presente em várias lista dos melhores do ano), beira o irritante ao emular sem sutilezas o trabalho da banda de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarantes, e suas letras 'sensíveis' e pouco inspiradas provocam mais crises - de humor - que embevecimento pela poesia ('Nescafé', de versos absurdos como 'Eu cuspo nescafé/ e você chora leite de manhã', é um prato cheio a comédia involuntária!). “Despirocar”, single do recém lançado 2º disco do grupo, 'Antes Que Tu Conte Outra', sinaliza uma possível mudança. Com arranjos dissonantes, vocais tanto quanto perturbados e postura um pouco mais agressiva, a canção pode causar estranhamento em quem estiver esperando pelas harmonias confortantes do primeiro albúm porém sugere evolução musical. A banda parece também disposta a abraçar sem medo a canastrice de suas letras (o amalucado título da música é um óbvio indicativo). E seu videoclipe, protagonizado pelo vocalista Alexandre Kumpinski, consegue mostrar não apenas um surto dentro da tensa vida urbana (a lente em close constante no rosto do músico deixa, aliás, os cenários ao ar livre claustrofóbicos) mas traduzir os sobressaltos psicóticos com muita competência. A sequência delirante do voo e mergulho da câmera numa piscina (quando a música também muda de ambientação) é desde já uma das melhores imagens do ano. 


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Little Dragon - Twice

Oriundo da Suécia, o quarteto Little Dragon produz um som que mescla linhas eletrônicas com influências de trip-hop e R&B contemporâneo. O grupo gravou seu primeiro disco em 2007 e poderia muito bem ter se encaixado na onda do trip hop (caso ela não tivesse ocorrido duas década antes). De fato, a sonoridade produzida pelo Little Dragon trás proximidade à trabalhos de artistas como Morcheeba (ambos aliás utilizam praticamente as mesmas influências), Massive Attack e Portishead (filtrando - no caso dos dois últimos - as batidas sorumbáticas por ambiência mais suave). A maneira explicita como evidência certas influências, contudo, mostra que a banda ainda procura uma identidade musical. Mas pela qualidade de certas canções, além de colaborações com outros nomes (como Gorillaz e DJ Shadow) é bem possível que venha a encontrar. Seu trabalho vem chamando atenção também de cineastas e diretores de televisão. Lisa Cholodenko incluiu a bela 'Fortune' na trilha de seu filme 'Minhas Mães e Meu Pai' e a climática 'Twice' foi utilizada nas séries 'Grey's Anatomy' (5ªTemporada) e no desfecho do 5ºepisódio de 'Revenge' (1ªTemporada), atualmente exibida pela Rede Globo. A música serve como boa porta de entrada para o trabalho da banda. O vocal contido da cantora Yukimi Nagano, o hipnótico fraseado ao piano e a singeleza da técnica do teatro de sombras - nas imagens do video (não oficial) de 'Twice' - produz uma pequena peça de beleza lúdica singular. 


quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Naftalina Que Soa Agradável

Um dos compositores mais onipresentes nas décadas de 70 e 80, listados nos créditos de inúmeros filmes e produções televisivas, o britânico Stanley Myers teve nome e obra praticamente esquecidos com o passar do tempo. Boa parte de sua produção nem sequer foi (re)lançada em CD e mesmo os arquivos em Vinyl são peças raras de encontrar na internet. É possível afirmar que parte desse esquecimento tenha ocorrido porque Myers se associou a filmes de pouco relevância artistica (sobretudo na década de 80), e quando essas obras inevitavelmente desapareceram, levaram consigo a música criado pelo compositor. Daí o interesse despertado pelo albúm 'The Deer Hunter... And Other Themes', compilação que reune alguns de seus principais temas para cinema e tv. O trabalho revela não apenas seu lado prolífico mas também versátil, onde famigerados temas - como o dedilho tristonho de 'Cavatina', a evocativa peça para violão do filme 'O Franco Atirador' (1978) e a homônima faixa com sintetizadores datados de 'Minha Adorável Lavanderia' (1985) - dividem espaço com obscuros tracks, caso da dramatica 'Eureka' (composição do longa lançado em 1983) e da ritmada 'Prick Up Your Ears' (composta para 'O Amor Não Tem Sexo' de 1987). Myers é um compositor clássico que sabe fazer bom uso de uma orquestra. E é justamente quando abraça esse estilo, próprio de sua formação, e deixa de lado minimalismos ou tendências de gosto dúvidoso, que seu trabalho adquire paradoxalmente algum frescor. Nesse sentido, a suavidade apresentada em 'Diana', tema homônimo realizado para a desconhecida série, lançada pelo BBC em 1984, exemplifica o quanto a escolha pela tradição, a despeito do tom pouco arrebatador, pode soar mais agradável do que a naftalina faz supor.




Somos Todos Um


Bobby Griffith, teve sua homossexualidade revelada aos 16 anos, e durante quase quatro anos sofreu pressão da família para refrear seus impulsos sexuais. A mãe, religiosa fervorosa, não admitia a condição do filho, ao qual denominava de doença, ou aberração, e contra qual usava a Bíblia para respaldar seus preconceitos. Em 27 de agosto de 1983, Bobby subiu na grade de um viaduto, refez mentalmente toda sua trajetória até ali e tendo apenas o eco das palavras da matriarca na cabeça - 'eu não quero ter um filho gay' - saltou sobre uma autoestrada, aos 20 anos, morrendo instantaneamente ao ser atropelado por um caminhão. Os questionamentos de Bobby a Deus, suas frases de auto rejeição baseados nos ensinamentos que recebeu, deixados em um diário, apontam claramente como a sua religiosidade em uma igreja que o condenava ao inferno e a falta de apoio da família foram cruciais em sua decisão de acabar com a própria vida. Sua história gerou a produção de um livro, "Prayers for Bobby: A Mother's Coming to Terms with the Suicide of Her Gay Son", de Leroy Aarons, sem lançamento em português, e também de um longa realizado para televisão.

Antes do sucesso na TV, a história de Bobby já era emblemática para quem estuda a homossexualidade. Para os especialistas, as famílias precisam compreender melhor o assunto, prevenindo tragédias. Famílias de todos os credos e classes sociais ainda encurralam seus filhos gays para quadros de depressão, revolta e desesperança. Estudos alertam que a taxa de suicídios é explosiva entre jovens homossexuais, principalmente entre efeminados, usuários de álcool e drogas, que não resistem a tanta pressão e angústia. Enfrentar esse tipo de tragédia também não é fácil para os familiares - ao contrário. A morte de Bobby, por exemplo, provocou um terremoto em sua conservadora família, e seus parentes se remoeram de culpa até conseguirem - depois de muito sofrimento - encontrar um caminho para superar o trauma. O telefilme dirigido por Russell Mulcahy nem sempre consegue traduzir em imagens o tumulto psicológico de seu protagonista. Por vezes simplista, seu trabalho limita-se a representar de maneira literal o que é comentado em palavras (o protagonista dependurado em fios de alta tensão ou amarrado à arames farpados) não primando pela ousadia e originalidade. Cabe ressalvas também ao roteiro, que pinta um cenário genérico do contexto histórico e não aprofunda fatos importantes - como a AIDS começando a se espalhar e sendo atribuída erronea e exclusivamente ao meio gay. É preciso reconhecer, contudo que as eventuais falhas não tornam a obra um dramalhão. No final das contas, o longa se sustenta mesmo pelo bom desenvolvimento dos personagens e trabalho do elenco - em especial, o jovem Ryan Kelley que se sai bem como o angustiado Bobby, e a veterana Sigourney Weaver, em minuciosa composição da austera Mary Griffith. Seu principal momento, onde comenta a morte do filho, diante de ativistas contrarios à Liberdade Gay, é um típico 'momento do ator' porém devastador o suficiente para verdadeiramente emocionar. Suas palavras ressoam dolorosas mas finalmente iluminados quando, afinal, conclui: “Eu sei porque Deus não ‘curou’ o meu filho. Ele não o curou porque não havia nada de errado para ser curado”.


 

sábado, 4 de maio de 2013

Sambadi

Em entrevista recente, Ed Motta citou o jovem músico capixaba Lucas Arruda, como a grande surpresa da música nacional em 2013. Segundo ele, Lucas "é a antítese dessa geração que está aí falando coisas em um discurso incompetente." A audição de 'Sambadi', seu albúm de estréia, e com lançamento agendado inicialmente apenas na Europa (mas disponível na Web), revela que os elogios de Motta fazem algum sentido, mesmo que realizado através de um discurso vaidoso. Artista que cresceu ouvindo o melhor da música negra nacional e internacional, Lucas Arruda demonstra insuspeito domínio desse idioma, realizando através da mistura de sonoridades - como acid jazz e soul/black - algo simples e sofisticado ao mesmo tempo. Salta aos ouvidos aliás seu preciosismo melódico na produção e impressiona o fato deste ser apenas o primeiro trabalho. E é natural, portanto, que - com essa espécie de cartão de visitas que todo estréia adquire - o músico queira expor o máximo de informações de sua bagagem musical. No repertório do disco, por exemplo, encontramos as linhas de guitarra da dupla Lincoln Olivetti & Robson Jorge; o funksoul da Banda Black Rio; o sambajazz da ótima - e infelizmente esquecida - banda brasileira Azymuth; o Fender Rhodes de João Donato; o vocal instrumental de Ed Motta (os álbuns 'Dwitza' e 'Aystelum' são primos-irmãos de 'Sambadi'); a versatilidade multintrumental de Stevie Wonder; e até uma versão da clássica 'Who's That Lady' do grupo Isley Brothers. É divertido seguir as pistas musicais deixadas pelo caminho, e absolutamente prazeroso envolver-se pela deliciosa sonoridade das canções, mas a reverência à trabalhos alheios também carrega seu ônus. O problema não esta nas referência - à rigor, exemplares - mas na maneira excessiva (e um tantinho genéricas) como são emuladas. Algo que causava também certo desconforto nos primeiros trabalhos de Max de Castro, Jair Oliveira e Silveira, lançados pela gravadora Trama no início dos anos 2000 (e não por acaso, também elogiados por Ed Motta).

Todos os artistas citados, de uma maneira ou outra, bebem da mesmíssima fonte, a soul music. A critica de Motta pode até sugerir uma defesa pelo gênero mas suas intenções são menos nobres do que faz supor. Talento e bons trabalhos não tem faltado na música atual - ao menos, para quem tem disposição ao garimpo - algo que certamente não falta a Ed Motta). Que narciso ache feio aquilo que não é espelho é comum dentro do meio artistico, mas reconhecer as qualidades de um de seus pares pela mera afinidade de estilo acaba tendo o mesmo valor que uma critica. Se há algo que deve ser valorizado com 'Sambadi' é o surgimento de um músico capaz de urdir com competência a sonoridade que norteou até aqui sua vida. E pela eficácia do resultado, bem possível de criar um estilo próprio. Para que isso aconteça, no entanto, terá de ir além de citações já catalogadas e criar sua própria gramática (e, espera-se, sem tanto ego)...