segunda-feira, 21 de abril de 2014

Variações Possíveis de Beleza & Tédio

Colaborador da banda americana Bon Iver, projeto liderado pelo cantor e compositor Justin Vernon, soa quase inevitável ao baterista e pianista Sean Carey não trazer parte da sonoridade habitual desenvolvida pelo grupo em seu trabalho solo. De fato, há muito do minimalismo melódico e a estética acústica e bucólica da Bon Iver nos discos de Carey, todavia, com certas distinções e tão pontuais que torna o que poderia ser apenas uma vaga emulação num conceito - na medida do possível - particular. À começar pelo vocal que se mostra mais comedido que o falsete lamuriento de Vernon, investindo em tons sussurrados e a produção que substitui o clima deprê e sofrido por uma melancolia suave e ponderada. Podem soar pequenas demais as diferenças porém no saldo final resulta em correções providenciais, e que não apenas ameniza as comparações como torna, digamos, mais suportável o andamento arrastado das melodias.

 

Esses arranjos distintos são importante, afinal, o foco dos álbuns "All We Grow" (2010) e o recente 'Range Of Light' (2014) esta todo na melodia - construída de uma forma minimalista só com a ajuda de violão, guitarra, piano e bateria - e que busca desvelar as texturas sonoras num certo romantismo tristonho. E com toda a carência de um romântico, S. Carey solicita atenção e certa paciência do ouvinte. Ainda mais pelo discurso ambientado num repertório uníssono e que implica (muitas) semelhanças entre as canções (o que pode incomodar). O segredo dessa relação estabelecida com o artista esta em saber o melhor momento de ouvir suas ideias e pontos divergentes. Reservar um tempo sossegado, livre de agitação e com calma compreender os argumentos que expiam dores de amores desfeitos e outras tantas decepções. Para os pacientes seu trabalho oferece o melhor em delicadas faixas e que, sintomaticamente, remetem a uma viagem de carro pelo deserto. Pois é neste lugar inóspito, e livre dos barulhos urbanos, que cada um poderá encontrar um sentido nessa experiência, e dizer o que as imagens enquadradas nessa música - em variações possíveis de beleza e tédio que nuvens no céu, árvores ao fundo e vegetação transcorrendo vagarosamente - podem significar. 

O Tal Museu De Grandes Novidades

Há uma tendência atual na música - principalmente a produzida pelos jovens artistas - de se apropriar da sonoridade realizada nos anos 80 como inspiração de projetos 'originais'. É simples: emula-se a produção daquela época retrabalhando seu som através de instrumentos modernos e influências diversas, dissimulando o caráter retrô e defendendo a ideia de um resgate musical para vendê-la com o frescor de uma 'novidade'. À rigor, não é um problema buscar as referências de um trabalho em tempos idos - afinal, como bem disse Cazuza o passado é 'um museu de grandes novidades'. A questão é como essa herança musical têm sido revisitada por músicos e produtores contemporâneos, fazendo pouca (ou nenhuma) justiça ao que foi criado pelas gerações anteriores.

Como o que vira moda exige demanda, tornou-se corriqueiro surgir discos onde a som oitentista é tratado como um pastiche genérico, um tempero exótico que se diz bom para testar mas onde poucos aprofundam as nuances de sabor. Nesse contexto, conta-se nos dedos os artistas que chafurdam além do painel generalizado e buscam especificar os diferentes estilos, artistas e inspirações da época. Um bom exemplo de exceção foi proposto pelo duo francês Daft Punk no seu estupendo disco 'Random Access Memories' (2013), onde um dos formatadores da disco music e eletrônica produzida em meados dos anos 70/80 ganhou uma justa homenagem na faixa 'Giorgio By Moroder' (com pouco mais de nove minutos de duração!) e sem que com isso anulasse a identidade musical da dupla. Com a auto-confiança que lhe é característica, o Daft Punk não apenas utiliza referências de terceiros como não teme divulgar o nome desses artistas. Simplesmente porque demonstram um profundo conhecimento da obra dos artistas que se dizem influenciados, e por saberem tudo o que precisam conseguem abordar com criatividade e exata medida de proporção uma música tida como datada.


Pois é essa boa dose de conhecimento que se ouve também na estreia do norueguês Todd Terje em "It's Album Time" (2014), e reflete na admirável segurança que o artista lida com suas influências. Ao invés de filtrar o som analógico com instrumentos digitais modernos, por exemplo, o músico norueguês abraça o estilo criado pelos ícones do pop eletrônico oitentista sem medo de soar um 'plagiador' e, vai além, especificando sem medo importantes figuras dentro das suas criações. Pois nomes e estilos musicais não faltam em seu álbum - do jazz de Herbie Hancock à new wave da banda Roxy Music, da disco e funk à bossa nova e música latina - todas essas influências são reproduzidas intencionalmente para serem reconhecidas. O interesse de Terje em não criar uma sonoridade 'sem patrono ou inspirador' se deve exatamente por seu estudo das informações musicais.

Há pelo menos dez anos o artista realiza pesquisas com a disco music, reavaliando o estilo em remixes e discotecagens, onde se tornou inclusive um dos expoentes de um subgênero apelidado neo-disco e se firmando como figura proeminente na cena nórdica eletrônica. Sua demora em lançar um disco solo, aliás, sempre causou estranhamento nos admiradores mas agora faz todo o sentido do mundo, afinal, ele estava aprendendo o bê-á-bá do estilo! Esse fato não passou desapercebido e o artista, espertamente, tratou de fazer graça da situação anunciando ironicamente seu trabalho com 'chegou a hora do álbum'! É desse rumor vagaroso e descompromissado (de opiniões) que faz sua estreia fluir segura e constante, não caindo em armadilhas triviais ou numa mera miscelânea de referências sem personalidade.

 

"It’s Album Time" demora um tanto a engatar. O disco pede aliás sucessivas audições para ser melhor assimilado (devido as texturas sonoras e a quantidade de referências). Porém quando ouvido lá pela terceira vez as ideias e conceitos se tornam cristalinos. Quer dizer, uma nitidez enevoada pela claridade de neon que iluminou aquela década. A saborosa salsa 'Svensk Sås' inicia uma sequência de grandes canções, onde despontam ainda a suingada 'Strandbar' que lembra o samba-jazz dos brasileiros Sérgio Mendes & J.T. Meirelles (e que Ed Motta revisitou com brilhantismo no instrumental 'Dwitza', de 2002), a participação especialíssima de Bryan Ferry (sempre muito elegante) em 'Johnny And Mary', além da litorânea (e viciante) 'Inspector Norse', que encerra o disco ecoando as batidas da house music à surgir nos anos 90. Porém é o produtor Giorgio Moroder e seu legado conceitual que traduz o espírito do álbum e surge como influência decisiva (e tão nítida que seu nome - que não é mencionado - não precisa mesmo de citação para ser identificado).

'Delorean Dynamite' apresenta tudo o que o grande produtor da disco music fez de melhor - em sua estimulação duma atmosfera 'espacial', que mistura piano, linhas de baixo e os indispensáveis sintetizadores - e consegue dilatar o tempo para retroceder numa noite qualquer da década de 80. É fechar os olhos e se imaginar num daqueles cenários tropicais de bar, com coquetéis de guarda-chuva (igual na capa do disco) e um seriado policial (a lá 'Miami Vice') passando na TV . Se essas e outras brincadeiras musicais não soam mera firula ou mesmo todo disco resulta num xerox (de carbono) das matrizes originais é porque Todd Terje não é um aventureiro ou mero oportunista da moda. Antes alguém que entende o que esta trabalhando, burilando com respeito e verve necessária o legado de seus heróis. Demonstrando enfim e com inteligência em seu ótimo disco que antiquado são os homens - por mais jovens que sejam - na imaturidade de não entenderem o conteúdo que têm nas mãos ou perceberem que certas músicas dispensam retoques e intervenções rejuvenescedoras - simplesmente, por serem eternas.

 

Entre Quatro Paredes, Ou Não...

Aos poucos, a cantora britânica Estelle vai preparando o lançamento de um novo trabalho de estúdio. Pelo que se ouve da série de EP's intitulados 'Love & Happiness' (Vol. 1/ 2/ 3), e que a artista vêm divulgando desde 2013, seu registro musical mantém o mesmo R&B que a consagrou com o álbum 'Shine' (2008), impulsado sobretudo pelo hit 'American Boy'. Se a sonoridade reprisada (num conjunto) não chega realmente a empolgar, ao menos rende uma ou outra canção como destaque. Caso do sexy single 'Make Her Say' (Beat It Up) e que ganhou um videoclipe com climão erótico e provocativo. Se a canção exala uma sensualidade evidente seu vídeo não recorre necessariamente ao óbvio (no padrão 'modelos lindos de morrer') permitindo a pessoas comuns oferecer um sentido, digamos, mais realista ao erotismo (e nem por isso menos belo). Com uma versatilidade irresistível 'Make Her Say' serve enfim como ótimo aperitivo para uma curtição noturna - seja para sensualizar numa boate como desnudar desinibições entre quatro paredes.

domingo, 13 de abril de 2014

Eletrônica Que Te Quero Dançar

Na cena musical dos anos 90 surgiu uma nova categoria de artista que era até então impensável - o DJ popstar. Esse novo grupo significou a popularização da musica eletrônica e que não cabia mais em restritivas raves ou boates, tomando conta da programação em rádios até se tornar uma influente (e lucrativa) vertente pop. Em última análise, a expansão eletrônica vinha para traduzir os novos tempos de uma geração tecnológica, movida pela internet e sua velocidade assustadora. À rigor, nunca deixou de ser a trilha sonora da juventude notívaga mas agora invadia o cotidiano de todos e sem distinção. Entre os que despontaram na época e outros que vieram à seguir, manipulando com maior ou menor competência os mais diversos estilos - trance, house, drum 'n bass, techno, dubstep, etc - estão nomes como Fatboy Slim, David Guetta, Alex Galdino, DJ Antoine e mais recentemente Skrillex e Calvin Harris.

Zedd, nome fantasia do alemão Anton Zaslavski, é o novato da vez nessa seara. Diferente de artistas que conceitualizam suas obras - como Moby e os duos The Chemical Brothers & Daft Punk - Zedd não quer saber de outra coisa além de diversão (outro sinal dos nossos tempos). Descontada a diluição da electro house e dubstep num formato pop facinho, e a sensação algo inconsistente das canções, Zedd faz de sua estreia em 'Clarity' (2012) uma boa desculpa para farrear. À começar pela boa sacada de interligar as três faixas inicias ('Hourglass', 'Shave It Up' & 'Spectrum'), formando uma dançante unidade e trazendo logo de cara o ouvinte para o centro da velocidade. Não demora a surgir outros destaques como 'Clarity' (faixa título), 'Follow You Down' e a ótima 'Codec', em boas manipulações das frequências melódicas. No restante do tempo, Zedd cita suas referências que vão de Skrillex e Justice à outros nomes consagrados. Nada mais sintomático que a inclusão de vocais robotizados em 'Stache', em inevitável alusão a uma das marcas dos franceses Daft Punk, hoje a maior instituição do gênero. No mais, o álbum segue o be-a-bá padrão da musica eletrônica pop atual, produzindo uma ambiência atrativa mas sem delinear maior identidade, sem que isso seja (inicialmente) um problema.

Por fim, temos 'Stay The Night' que nem é a melhor do disco - aliás, a faixa nem entrou na seleção oficial, incluída apenas numa versão deluxe - mas que ganhou um videoclipe tão caprichado que a torna boa divulgadora num trabalho cuja maior pretensão é mesmo produzir uma boa festa. E que feitas as contas consegue criar o clima necessário para uma baladinha (seja numa boate ou no próprio quarto).


Brincadeirinha Pra Dançar

Em 2010, o canadense A-Trak e o norte-americano Armand Van Helden - em parceria num projeto intitulado Duck Sauce - renderam uma homenagem pop a cantora e atriz Barbra Streisand, cujo nome serviu de título e única palavra dita numa faixa. Em poucas mais boas variações de andamento, a produção dava conta de tornar irresistível sua melodia e transformá-la numa baba francamente pegajosa. Essa facilidade pop fez de 'Barbra Streisand', a faixa, um hit certeiro em setlists de DJ's, repercutindo nas pistas e na internet, e atraindo atenção dos criadores do seriado teen 'Glee' que, num último arremate de sucesso, a utilizaram num dos episódios da 2ªTemporada do programa.

Passado quatro anos, o Duck Sauce prepara enfim o lançamento do álbum de estréia, previsto para o dia 15 de abril mas compartilhado para audição pelo site Soundcloud. 'Quack' (2014) é a inevitável menção ao logotipo do duo que é um belo patinho (ou o bico)! Se o disco cheio resulta pouco interessante, numa variação monótona da disco e house music, ao menos os artistas não se levam tão a sério e embalam o trabalho num astral de brincadeira. O espírito humorado é bem traduzido na capa do álbum - uma monalisa empatulada com um biquinho amarelinho - no repertório é representada em 'Charlie Chazz & Rappin Ralph' (a melhor faixa do disco). Preste atenção a divertida narração latina no desfecho da canção, num clima de franca zoação.


domingo, 6 de abril de 2014

O Rapper Hibernado

Quando olhada em retrospecto, a trajetória musical do paulistano Marcelo Santos (apelido Xis no rap) oferece não mais que vagas impressões para entender por que sua carreira fonográfica que parecia ascendente foi interrompida e o artista passou investir em outras áreas da música (atualmente, sua atividade de maior visibilidade se dá apresentando um programa de rádio). Xis foi um dos nomes que, em meados dos anos 2000, buscou tirar o Rap do gueto e expandi-lo em vertentes do universo pop. Isso significava abrandar o discurso sanguinolento, investir em fusões com outros gêneros e principalmente aparecer mais na mídia. Ao passo que seu sucesso crescia, marcado principalmente pelo hit 'Us Mano E As Mina', a transição da pequena gravadora 4P para a multinacional Warner Music e as parcerias com gente como Maurício Manieri e Cássia Eller (esta última realmente especial) deixava alguns manos ressabiados. Afinal, contrariava o caráter independente que rege o estilo.

 

Sua participação no reality show "Casa dos Artistas" (2002) e no programa do Gugu, no SBT, fez sua imagem ficar ainda mais 'desgastada' entre os rappers. A ala mais durona dizia que Xis tinha se queimado por aparecer na televisão, que gravava com gente que pouco representava a periferia, e que falava muito com jornalistas. Por fim, colaram ao artista a pecha de 'vendido à mídia'. Não se sabe o quanto esses fatos influíram em sua carreira, para o bem e o mal, mas o fato é que desde 2001 o artista deixou de lançar discos com matérial inédito. Não seria o caso, contudo, de se adiantar concluindo que o fogo cruzado de opiniões foi determinante para o recesso do rapper. Afinal, polêmica quando bem utilizada pode servir, vá lá, de boa propaganda. Fora que outros artistas bem mais criticados dão sequência em seus trabalhos sem se importar com os narizes tortos. Como o próprio Xis evita comentar a situação, pouco se sabe das razões de seu abandono dos estúdios.

 

Embora como compositor Xis não apresente nada tão original, o maior atrativo de suas letras é não enquadrar em primeiro plano a criminalidade em suas crônicas. A violência esta lá, assim como o submundo e seus personagens, mas seu discurso não martela na mesma tecla (ou click) das armas e dos bandidos. Sabe, enfim, narrar seus causos como um repórter no meio da ação mas tentando manter a imparcialidade. Nem sempre consegue, é verdade, porém seus acertos são maiores que as eventuais falhas. Da boa estreia em "Seja Como For" (1999) destacam-se 'Vai E Vem' e a divertida 'Paranoia Delirante' (De Esquina) que rendeu uma versão inesquecível no Acústico de Cássia Eller.


Ainda que irregular, "Fortificando A Desobediência", álbum lançado em 2001, tem o mérito de realçar a métrica das rimas através da sofisticação na confecção das bases. 'Chapa O Côco' abre o disco em alto estilo, criando uma batida grandiosa apartir do sample de “If Six Was Nine”, do guitarrista Jimi Hendrix. Já 'Sonho Meu' mescla o rap e o jazz em batidas desaceleradas, onde envolventes linhas de baixo produzem um clima sufocante e que reproduz com primor o conteúdo da letra. A canção trás ainda a luxuosa voz da cantora Cibelle, destaque entre as novas cantoras da MPB...

No saldo final, com a clareza que o tempo oferece, o trabalho do rapper se mostrou mais interessante da maioria que o julgou. Não por ser extraordinário, mas por propor com inteligência novos ideais no rap. Entre eles, de romper os muros que (ainda hoje) isola parte dos artistas do gênero num submundo fechado e hostil, e buscar maior estrutura e parcerias para o gênero. Taí nomes como Criolo e Emicida para comprovar a máxima do rapper. Em tempos de funk ostentação, onde o senso crítico foi reduzido a níveis preocupantes, a ausência de um artista como Xis têm lá sua cota de lamento.