segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Tal Museu De Grandes Novidades

Há uma tendência atual na música - principalmente a produzida pelos jovens artistas - de se apropriar da sonoridade realizada nos anos 80 como inspiração de projetos 'originais'. É simples: emula-se a produção daquela época retrabalhando seu som através de instrumentos modernos e influências diversas, dissimulando o caráter retrô e defendendo a ideia de um resgate musical para vendê-la com o frescor de uma 'novidade'. À rigor, não é um problema buscar as referências de um trabalho em tempos idos - afinal, como bem disse Cazuza o passado é 'um museu de grandes novidades'. A questão é como essa herança musical têm sido revisitada por músicos e produtores contemporâneos, fazendo pouca (ou nenhuma) justiça ao que foi criado pelas gerações anteriores.

Como o que vira moda exige demanda, tornou-se corriqueiro surgir discos onde a som oitentista é tratado como um pastiche genérico, um tempero exótico que se diz bom para testar mas onde poucos aprofundam as nuances de sabor. Nesse contexto, conta-se nos dedos os artistas que chafurdam além do painel generalizado e buscam especificar os diferentes estilos, artistas e inspirações da época. Um bom exemplo de exceção foi proposto pelo duo francês Daft Punk no seu estupendo disco 'Random Access Memories' (2013), onde um dos formatadores da disco music e eletrônica produzida em meados dos anos 70/80 ganhou uma justa homenagem na faixa 'Giorgio By Moroder' (com pouco mais de nove minutos de duração!) e sem que com isso anulasse a identidade musical da dupla. Com a auto-confiança que lhe é característica, o Daft Punk não apenas utiliza referências de terceiros como não teme divulgar o nome desses artistas. Simplesmente porque demonstram um profundo conhecimento da obra dos artistas que se dizem influenciados, e por saberem tudo o que precisam conseguem abordar com criatividade e exata medida de proporção uma música tida como datada.


Pois é essa boa dose de conhecimento que se ouve também na estreia do norueguês Todd Terje em "It's Album Time" (2014), e reflete na admirável segurança que o artista lida com suas influências. Ao invés de filtrar o som analógico com instrumentos digitais modernos, por exemplo, o músico norueguês abraça o estilo criado pelos ícones do pop eletrônico oitentista sem medo de soar um 'plagiador' e, vai além, especificando sem medo importantes figuras dentro das suas criações. Pois nomes e estilos musicais não faltam em seu álbum - do jazz de Herbie Hancock à new wave da banda Roxy Music, da disco e funk à bossa nova e música latina - todas essas influências são reproduzidas intencionalmente para serem reconhecidas. O interesse de Terje em não criar uma sonoridade 'sem patrono ou inspirador' se deve exatamente por seu estudo das informações musicais.

Há pelo menos dez anos o artista realiza pesquisas com a disco music, reavaliando o estilo em remixes e discotecagens, onde se tornou inclusive um dos expoentes de um subgênero apelidado neo-disco e se firmando como figura proeminente na cena nórdica eletrônica. Sua demora em lançar um disco solo, aliás, sempre causou estranhamento nos admiradores mas agora faz todo o sentido do mundo, afinal, ele estava aprendendo o bê-á-bá do estilo! Esse fato não passou desapercebido e o artista, espertamente, tratou de fazer graça da situação anunciando ironicamente seu trabalho com 'chegou a hora do álbum'! É desse rumor vagaroso e descompromissado (de opiniões) que faz sua estreia fluir segura e constante, não caindo em armadilhas triviais ou numa mera miscelânea de referências sem personalidade.

 

"It’s Album Time" demora um tanto a engatar. O disco pede aliás sucessivas audições para ser melhor assimilado (devido as texturas sonoras e a quantidade de referências). Porém quando ouvido lá pela terceira vez as ideias e conceitos se tornam cristalinos. Quer dizer, uma nitidez enevoada pela claridade de neon que iluminou aquela década. A saborosa salsa 'Svensk Sås' inicia uma sequência de grandes canções, onde despontam ainda a suingada 'Strandbar' que lembra o samba-jazz dos brasileiros Sérgio Mendes & J.T. Meirelles (e que Ed Motta revisitou com brilhantismo no instrumental 'Dwitza', de 2002), a participação especialíssima de Bryan Ferry (sempre muito elegante) em 'Johnny And Mary', além da litorânea (e viciante) 'Inspector Norse', que encerra o disco ecoando as batidas da house music à surgir nos anos 90. Porém é o produtor Giorgio Moroder e seu legado conceitual que traduz o espírito do álbum e surge como influência decisiva (e tão nítida que seu nome - que não é mencionado - não precisa mesmo de citação para ser identificado).

'Delorean Dynamite' apresenta tudo o que o grande produtor da disco music fez de melhor - em sua estimulação duma atmosfera 'espacial', que mistura piano, linhas de baixo e os indispensáveis sintetizadores - e consegue dilatar o tempo para retroceder numa noite qualquer da década de 80. É fechar os olhos e se imaginar num daqueles cenários tropicais de bar, com coquetéis de guarda-chuva (igual na capa do disco) e um seriado policial (a lá 'Miami Vice') passando na TV . Se essas e outras brincadeiras musicais não soam mera firula ou mesmo todo disco resulta num xerox (de carbono) das matrizes originais é porque Todd Terje não é um aventureiro ou mero oportunista da moda. Antes alguém que entende o que esta trabalhando, burilando com respeito e verve necessária o legado de seus heróis. Demonstrando enfim e com inteligência em seu ótimo disco que antiquado são os homens - por mais jovens que sejam - na imaturidade de não entenderem o conteúdo que têm nas mãos ou perceberem que certas músicas dispensam retoques e intervenções rejuvenescedoras - simplesmente, por serem eternas.

 

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