Quando olhada em retrospecto, a trajetória musical do paulistano Marcelo Santos (apelido Xis no rap) oferece não mais que vagas impressões para entender por que sua carreira fonográfica que parecia ascendente foi interrompida e o artista passou investir em outras áreas da música (atualmente, sua atividade de maior visibilidade se dá apresentando um programa de rádio). Xis foi um dos nomes que, em meados dos anos 2000, buscou tirar o Rap do gueto e expandi-lo em vertentes do universo pop. Isso significava abrandar o discurso sanguinolento, investir em fusões com outros gêneros e principalmente aparecer mais na mídia. Ao passo que seu sucesso crescia, marcado principalmente pelo hit 'Us Mano E As Mina', a transição da pequena gravadora 4P para a multinacional Warner Music e as parcerias com gente como Maurício Manieri e Cássia Eller (esta última realmente especial) deixava alguns manos ressabiados. Afinal, contrariava o caráter independente que rege o estilo.
Sua
participação no reality show "Casa dos Artistas" (2002) e no programa
do Gugu, no SBT, fez sua imagem ficar ainda mais 'desgastada' entre os
rappers. A ala mais durona dizia que Xis tinha se queimado por aparecer
na televisão, que gravava com gente que pouco representava a periferia, e
que falava muito com jornalistas. Por fim, colaram ao artista a pecha
de 'vendido à mídia'. Não se sabe o quanto esses fatos influíram em sua
carreira, para o bem e o mal, mas o fato é que desde 2001 o artista
deixou de lançar discos com matérial inédito. Não seria o caso, contudo,
de se adiantar concluindo que o fogo cruzado de opiniões foi
determinante para o recesso do rapper. Afinal, polêmica quando bem
utilizada pode servir, vá lá, de boa propaganda. Fora que outros
artistas bem mais criticados dão sequência em seus trabalhos sem se
importar com os narizes tortos. Como o próprio Xis evita comentar a
situação, pouco se sabe das razões de seu abandono dos estúdios.
Embora
como compositor Xis não apresente nada tão original, o maior atrativo
de suas letras é não enquadrar em primeiro plano a criminalidade em suas
crônicas. A violência esta lá, assim como o submundo e seus
personagens, mas seu discurso não martela na mesma tecla (ou click) das
armas e dos bandidos. Sabe, enfim, narrar seus causos como um repórter
no meio da ação mas tentando manter a imparcialidade. Nem sempre
consegue, é verdade, porém seus acertos são maiores que as eventuais
falhas. Da boa estreia em "Seja Como For" (1999) destacam-se 'Vai E Vem'
e a divertida 'Paranoia Delirante' (De Esquina) que rendeu uma versão
inesquecível no Acústico de Cássia Eller.
Ainda que irregular, "Fortificando A Desobediência", álbum lançado em 2001, tem o mérito de realçar a métrica das rimas através da sofisticação na confecção das bases. 'Chapa O Côco' abre o disco em alto estilo, criando uma batida grandiosa apartir do sample de “If Six Was Nine”, do guitarrista Jimi Hendrix. Já 'Sonho Meu' mescla o rap e o jazz em batidas desaceleradas, onde envolventes linhas de baixo produzem um clima sufocante e que reproduz com primor o conteúdo da letra. A canção trás ainda a luxuosa voz da cantora Cibelle, destaque entre as novas cantoras da MPB...
No saldo final, com a clareza que o tempo oferece, o trabalho do rapper se mostrou mais interessante da maioria que o julgou. Não por ser extraordinário, mas por propor com inteligência novos ideais no rap. Entre eles, de romper os muros que (ainda hoje) isola parte dos artistas do gênero num submundo fechado e hostil, e buscar maior estrutura e parcerias para o gênero. Taí nomes como Criolo e Emicida para comprovar a máxima do rapper. Em tempos de funk ostentação, onde o senso crítico foi reduzido a níveis preocupantes, a ausência de um artista como Xis têm lá sua cota de lamento.
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