quinta-feira, 20 de março de 2014

O Diabo Dos Clichês

Cavalgada com o Diabo" (Ride With The Devil, 1999) é dos títulos menos inspirados na filmografia do diretor tailandês Ang Lee. Baseado no romance 'Woe to Live On', de Daniel Woodrell, o drama relata a guerra civil que contrapôs sul e norte dos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865. Talvez a maior qualidade do longa seja o olhar estrangeiro lançado por Ang Lee, mostrando como a guerra tolheu e mudou a vida das pessoas comuns e não apenas de ricos e abastados (como na visão sulista-escravocrata de '... E o Vento Levou'). Se a perspicácia de Lee pode ser percebida também na escolha do elenco (que inclui Tobey Maguire, Jeffrey Wright, Jonathan Rhys Meyers & James Caviezel) o mesmo não pode ser dito do roteiro (de James Schamus) e sua incapacidade de envolver a platéia nos dramas dos seus personagens. O melhor do diretor pode ser encontrado em fitas como 'Banquete de Casamento' (1993); 'Razão e Sensibilidade' (1995); 'Tempestade de Gelo' (1997); 'O Tigre e o Dragão' (2000) & 'O Segredo de Brokeback Mountain' (2005).

A trilha sonora à cargo do canadense Mychael Danna segue a toada irregular do roteiro, com momentos clichês (nos temas românticos) arranjos maneiristas (para os que ambientam as cenas de guerra, e que resvalam por vezes ao ufanismo), e desperdício no uso do bandolim (emulando sem brilho a sonoridade do country, talvez o mais reconhecido dos gêneros musicais ianque). Mas Danna é um compositor talentoso - basta lembrar dos ótimos trabalhos em 'Capote' (2005) & 'Pequena Miss Sunshine' (2006) - para reconhecer ao menos um grande tema na partitura de 'Ride With The Devil'. E 'Jack Bull's Death' cumpri esse papel com louvor: num belíssimo arranjo orquestral, sua melódia flui feito água, correndo rapidamente para depois afluir num remanso, retrocedendo gradativamente, e ao fim quebrantar outra vez e jorrar numa cascata de notas, descortinando uma paisagem (musical) magnífica. É nessa última paragem que a calvalgada termina e redime (em partes) o diabo dos clichês.


O Futuro É Hoje - E Ele É Pessimista

Quando surgiu para o grande público em 2011, o rapper Criolo já somava alguns anos de carreira. Em 2006, ele chegou a lançar um disco solo, 'Ainda Há Tempo', quando ainda se auto-intitulava Criolo Doido, porém sem muita repercussão. Pensava inclusive em desistir da vida no rap para se dedicar a outros planos. Mas eis que num último mas decisivo ato conheceu e se associou ao produtor musical Daniel Ganjaman. Pronto: a carreira que antes se acreditava falida ressurgiu tão renovada e promissora que ninguém, nem o próprio Criolo, poderia imaginar ser possível. Citar o nome de Daniel Ganjaman (com serviços prestados a Planet Hemp, Racionais MC's, Sabotage & Nação Zumbi, entre outros) não é mero detalhe na trajetória do rapper. Muito se falou, elogiou e rendeu loas, ao trabalho de Criolo em 'Nó na Orelha', disco lançado em 2011, e que galgou os tops de lista de melhores do ano, tanto da critica musical quanto do público. Basta lembrar que seu nome foi um dos mais citados entre os premiados no VMB2012, onde também foi uma das atrações musicais apresentando a (bela) canção 'Não Existe Amor Em SP,' ao lado do Caetano Veloso.

'Nó na Orelha' não deixa de ser um albúm interessante, e muito de suas qualidades se deve a espertíssima produção musical, que agrega uma fusão de gêneros a vocação sisuda do rap, tornando-o mais maleável e envolvente. Quanto as composições de Criolo não sou do grupo dos entusiastas. Consigo ver uma ou duas boas canções, a citada 'Não Existe Amor e SP’, por exemplo, é um soul melancólico pungente e que tem força para integrar o cancioneiro que 'homenageia' a cidade paulista (como 'Trem das Onze' & 'Sampa'). No mais, acho que seu repertório chove no molhado, apresenta demasiada firula nas rimas (embora contenha também certa musicalidade) mas acrescenta pouco ao discurso. Contra o rapper pesa ainda sua pretensão em investir numa faceta ‘interprete', talento que decididamente não possui. O resultado de suas 'intervenções' vocais, em faixas como ‘Freguês Da Meia Noite’, é digamos equivocado (no mínimo). Não é um exagero considerar que, num primeiro momento, o sucesso usufruído pelo rapper se deveu mais ao trabalho do produtor Daniel Ganjaman que seu talento para composição (ou carisma).

Passado todo burburinho da estréia, em 2013 Criolo lançou o single 'Duas De Cinco' que além da música título trazia no Lado B a faixa 'Cóccix-Ência'. E foi sem muito alarde, mas desta vez de forma indiscutível, que o rapper mostrou uma evolução musical. É evidente não ser possível medir como essas duas canções trabalhariam à favor de um repertório maior (dentro do conceito de um disco) mas encaradas como uma espécie de rap de um nota só, frente e verso desse curto freaseado musical complementa-se de forma impecável. Criolo insiste em certos erros, utilizando uma dialética confusa para soar descolado (ou mesmo pop) mas os acertos (quando acontecem) compensam enormemente os eventuais deslizes.

'Cóccix-Ência' se destaca mais pela sonoridade encorpada, urdida com instrumentos de percussão e cordas, além de um valioso solo de guitarra (à cargo de Guilherme Held). Se a crítica feita na letra àqueles que vivem de falsas aparências e vaidade excessiva não trás maiores novidades ao menos inseri no relato (bom) humor gaiato - 'Pavão que não tem rabo paga pau pra espanador' – e irônico (‘O zumbi que ri/ Tá na tua sala te esperando pra janta/ E você é a janta/ Dormiu com medo/ E acordou com o destino').

Em 'Duas de Cinco' a situação se inverte e a musicalidade - que harmoniza discretamente cordas, baixo e arranjos de sopro - abre espaço para um discurso incisivo e assertivo. A produção utiliza o sample de 'Califórnia azul', canção do estupendo primeiro disco do sambista Rodrigo Campos (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe) para frasear a composição ('Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco Califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou...'). Criolo cita o poeta Carlos Drummond de Andrade com inteligência numa das passagens ('Que no meio do caminho/ Da educação havia uma pedra/ E havia uma pedra/ No meio do caminho/ Ele não é preto velho/ Mas no bolso leva um cachimbo') e faz uma pertinente crítica a política de combate as drogas ('Um governo que quer acabar com o crack/ Mas não tem moral para vetar/ Comercial de cerveja'). Esta foi uma das grandes musicas do ano passado e que ninguém ouviu! Isso até momento pois o rapper acaba de lançar um videoclipe mixando as duas canções.

Dirigido por Denis Cisma, o vídeo de quase dez minutos foi gravado no Grajaú, bairro de São Paulo, e imagina o cotidiano da comunidade no ano de 2044, em que tecnologias como drones (pequenos veículos aéreos não tripulados), impressão 3D de armas, hologramas e reconhecimento facial fazem parte da rotina. No cenário de ficção-científica imaginado pelos realizadores tudo ainda é parecido a um ambiente underground dos dias de hoje (provavelmente pela limitação do orçamento), todavia antes que categorize como um defeito, o arranjo termina reforçando a analogia de um futuro dolorosamente semelhante ao nosso presente. Afinal, na favela futurística, jovens ainda deixarão a sala de aula seduzidos pelo caminho mais curto da violência e do tráfico de drogas. Cisma vem do mercado publicitário e possui um evidente domínio narrativo. Constrõe um ótimo curta-metragem cheio de energia e forte carga dramática, e principalmente não idealiza ou atenua os conflitos da realidade que encena. Sua visão do futuro é, aliás, bem pessimista. Um condição que o próprio Criolo compartilhou quanto a sua carreira. Mas que agora - e esse trabalho não deixa dúvidas - pode ter o destino (na música) encarado com maior otimismo. Que o nosso futuro possa, também, ter alguma redenção.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Tão Pobre Que Tinha Apenas Dinheiro

A média com que Woody Alen continua lançando filmes é algo notável. Enquanto seus contemporâneos de geração hoje mal conseguem esboçar novos projetos, o americano prossegue tão prolixo quanto nos primeiros anos de carreira. Desde a sua estréia, com o longa "O que é que Há, Gatinha?", em 1965, o cineasta mantém a marca de um filme por ano (quando não dois!). Com uma produtividade tão numerosa é inevitável, todavia, que seus projetos oscilem de nível quanto a excelência ou originalidade. Não é díficil por exemplo vê-lo repetir estruturas de filmes ou mesmo incorrendo em trabalhos decididamente equivocados.

Ainda que os defensores digam que um obra ruim de Woody Allen seja melhor que a média (produzida no cinema americano) este se tornou um argumento questionável quando o autor alcançou seu nível mais alarmante em desgaste artístico, em meados dos anos 2000. Foi uma medida providencial, portanto, o artista ter trocado o cenário da maioria dos seus filmes, a cidade de Nova York, para filmar em outras locações pela Europa. Com a mudança de ares foi possível notar uma renovação surpreendente do gênio criativo de Allen, que apartir de 2005 entrou numa de suas melhores fases, em trabalhos como "Ponto Final - Match Point" (2005), "O Sonho de Cassandra" (2007), "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e o maravilhoso "Meia Noite em Paris" (2011). Seu mais recente trabalho, "Blue Jasmine" (2013), é dos títulos que reforçam a boa forma criativa do quase octogenário Woody Allen.

"Blue Jasmine" nos apresenta a personagem-título, que, voando na primeira classe, insiste em contar sua história para a passageira do lado, uma velhinha que parece uma conhecida mas que, na verdade, não reconhece (e nem quer reconhecer) afinidades com a chorosa protagonista. Acostumada à vida de luxo oferecida por seu marido, Jasmine agora se encontra na miséria desde que o sujeito foi preso por fraude, o que a obriga a se mudar para a Califórnia a fim de morar com a irmã, Ginger. Alternando a narrativa entre o presente, que traz a protagonista buscando se adaptar ao cotidiano de trabalhadora, e o passado, que revela as circunstâncias que a levaram até ali, "Blue Jasmine" segue uma corrente bem contemporânea do cinema, ao ambientar personagens em meio aos desvãos da (grave) crise econômica que a Europa e os EUA enfrentam. Além do filme de Woody Allen, um certo "Lobo de Wall Street" (2013) causou furor com sua abordagem explosiva de um sujeito que se aproveitou da boa-fé de investidores para aplicar-lhes um baita golpe e que os deixou a beira da falência. Tanto o longa dirigido por Martin Scorsese, quanto "Blue Jasmine" são inspiradas em personagens veridicos que induziram o mercado financeiro - americano, em questão - a uma crise que têm sido comparada a Grande Depressão de 1929!

As questões propostas em "Blue Jasmine" o assemelha a quase um conto moral: afinal, seria Jasmine uma vítima? Ou a arquiteta de seu próprio destino? Devemos enfim nos importar com o quanto está abalada? A protagonista jura não saber das traições do marido e suas falcatruas (talvez, melhor palavra aqui seria 'negar a ver') porém, de certo modo, o expectador jamais dúvida dela. Enquanto pudesse continuar comprando roupas caras e jóias, e participando de festas e viagens pelo mundo tudo estaria bem (pra que saber da verdade, não é mesmo?). Pois é nesse tipo de ingenuidade alienada que Allen enquadra a Jasmine do filme e, sinceramente, não se preocupa em oferecer-lhe a menor solidariedade. Pois esse é o primeiro acerto do roteiro. Frívola, esnobe, emocionalmente suscetível e descontrola - o diretor oferece um retrato elegante porém antipático de sua protagonista, e mantém essas características até o final, sem atenuações, ou desvios de rotas além da queda livre rumo ao fundo do poço.

O segundo e mais delicado acerto é suscitar graça no infortúnio dramático mas sem jamais confundir o enredo com uma comédia. Allen força o drama em muitas cenas e de tão exagerado o recurso se torna naturalmente divertido. As crises de pânico da personagem, sua fleuma arrogante em querer provar que continua elegante quando não passa de uma decadente, os momentos em que ela conversa sozinha evidenciando uma mulher que ultrapassou o limite da sanidade a muito tempo - as risadas provocadas por essas situações são pontuais porém o que predomina, na maior parte do longa, é um olhar de impiedosa melancolia e desconfortável humor negro.

Com uma estrutura dramatúrgica notável, Woody Allen, também autor do roteiro, consegue ainda espelhar na sua narrativa elementos da clássica peça de Tennessee Williams, "Um Bonde Chamado Desejo", onde muito da destemperança de sua Jasmine reflete da iludida e perdida personagem da peça, Blanche Dubois. Nesse sentido, a atuação da australiana Cate Blanchett, no limiar da precisão técnica e afetação teatral, é melhor contextualizada quando vista como um espécie de 'homenagem' ao estilo de interpretação (também, altamente teatral) da atriz Vivien Leight, na melhor adaptação cinematográfica da peça, dirigida pelo mestre Elia Kazan (em 1951). À favor de Blanchett, conta ainda o fato de toda transformação vívida pela sua personagem ser encarada sem maquiagem ou grandes transformações físicas (a servi-lhe de muleta): aqui, é apenas a atriz e seu rosto limpo a expor a jornada emocional de sua Jasmine.

No fim, nem o fato do diretor recorrer a um de seus cacoetes (o inevitável personagem nervoso e neurótico, como um decalque homônimo do próprio Woody Allen) se torna um defeito. Muito porque, não importa quantos ansiolíticos sua protagonista tome para se acalmar - nenhum comprimido fará desaparecer a ameaça contínua de (um novo) colapso nervoso e a sensação que sua derrocada ao fundo do poço não chegou nem na metade. Diferente do jasmim (a planta) que floresce a noite, ganhando vida depois que escurece, Jasmine (a mulher) não saberá transformar sua desgraça ou reconhecer outros tons além dos azuis melancólicos na sua condição de pobreza. Na conclusão que se chega desta estória, Woody Allen acertou em cheio em não enxergar apenas drama numa estória, à rigor, impregnada de elementos da divina comédia humana, para expor sua protagonista, pois, muito dos infortúnios e tragédias dela se equivalem na mesma moeda do seu revés patético. É portanto uma pobreza bem menos material e muito mais advinda do vazio da alma. É como dizem - têm pessoas que são tão pobres que possuem apenas dinheiro. No caso de Jasmine, restou mesmo apenas o vazio.



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quinta-feira, 6 de março de 2014

And The Oscar Goes To.. The Great Fun!

É fato: quem considera o Oscar o maior prêmio do cinema pouco entende da sétima arte. Por ser uma premiação industrial e que valoriza a produção criada em território estaduniense, não é nenhum segredo que os filmes ali lembrados (entre vencedores e indicados) privilegiaram no geral obras em língua inglesa, abordando em grande parte o estilo de vida norte-americana e cuja inclusão se justifica através de alguns milhões na bilheteria (contabilizado ou com sérias possibilidades disso acontecer). Sejamos francos, estamos falando de um investimento. Ter talento ou realizar um bom trabalho é (muito) relativo quando se trata de ganhar uma estatueta. Campanhas publicitárias, lobby dos estúdios, a capacidade de uma obra ou artista (estrela, no jargão cinéfilo) em render dinheiro é levado bem mais em consideração do que o mérito da qualidade. Se visto unicamente pelo prisma do critério qualitativo, a decepção com o prêmio então é maior ainda, já que a lista de injustiças cometidas ao longo de oito décadas é grande, e muitas vezes alarmante.

Como preterir, por exemplo, atuações notadamente superiores como de Bete Davis (por 'A Malvada') & principalmente Gloria Swanson (pelo estupendo desempenho em 'Crepúsculo dos Deuses') em favor da fraquissíma Judy Holliday (por 'Nascida Ontem'), em 1950? Caso parecido ao de Julia Roberts, atriz mais rentável de Hollywood em meados de 2001, e premiada pelo correto desempenho em 'Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento', porém explicitamente inferior quando comparado a devastadora atuação de Ellen Burstyn em 'Réquiem para um Sonho'. E os filmes? Como defender uma obra de tateante minimalismo dramático, caso do longa 'Gente como a Gente', diante da ousadia proposta no vertiginoso 'Touro Indomável' (que busca através de uma narrativa febril e deliberada as razões do sucesso e derrocada do boxeador Jake LaMotta) e, ainda assim, ser derrotado em 1980? Ou ainda a escandalosa vitória do insípido 'O Discurso do Rei', em 2011, diante de verdadeiros clássicos modernos como 'A Rede Social' ou 'Cisne Negro'. É curioso que sejam os perdedores muitas vezes, a entrar para História e, não raro, representarem a época em que foram lançados, melhor do que os vencedores. Certamente será este o caso dos longas dirigidos por David Fincher e Darren Aronofsky. Isso sem falar nas esnobadas a mestres como Alfred Hitchcock, Charles Chaplin e Orson Welles, autores que viram suas obras esquecidas na premiação. Perder no Oscar, portanto, está longe de ser uma vergonha - na verdade, quem perde o prestigio e têm a importância subvalorizada é a própria Academia Cinematográfica Hollywoodiana, que se equilibra de maneira esquizofrênica entre incentivar quem pode render mais dinheiro ou reconhecer o valor artístico de uma obra.

Neste ano, as publicações especializadas na área foram unânimes em dizer que a qualidade das produções indicadas estava acima da média. Particularmente, não notei nada assim tão superior e que alterasse a rota de anos anteriores. Ok, "Gravidade" & "Ela" eram títulos diferenciados mas significavam o mesmo pingo d'água no oceano de mesmices compiladas toda vez entre os indicados. A bem da verdade, nem vêm ao caso apontar quem era o melhor, quem merecia, quem era 'bom' - cada um que faça seu próprio juízo, certo? Para certa parcela do público, uma festa tão sisuda como o Oscar - ocorrido no último domingo (02/03) - só consegue despertar algum entusiasmo ao ter quebrado o protocolo formal (e previsível) da cerimônia. Afinal, que está premiação siga o padrão ouro de monotonia isso não é novidade, porém ter a imagem surreal de uma Meryl Streep (a maior atriz da atualidade, no cinema americano) comendo um pedaço de pizza na platéia, como diria aquela propaganda de cartão de crédito, não tem preço (mesmo)! É a mesma impressão que se tem ao vislumbrar a divertida 'briga' no backstage entre Jennifer Lawrence e Lupita Nyong'o pelo prêmio de melhor coadjuvante. Para os expectadores que acompanhavam a cobertura do prêmio pelo canal a cabo TNT, ainda houve um bônus adicional quando o jornalista Rubens Ewald Filho cometeu uma gafe (daquelas) ao chamar a atriz Shirley Temple de "lenda viva" quando a mesma era homenageada entre os artistas mortos do último ano! Mais tarde, contudo, Ewald Filho se redimiu ao exaltar a inusitada (porém justíssima) lembrança do documentarista Eduardo Coutinho, morto em Fevereiro passado, no tradicional clipe de "In Memorian". Seria maldade incluir nessa sessão 'vergonha alheia', também a participação da atriz Kim Novak, de 81 anos, que foi entregar o Oscar de melhor animação ao filme "Frozen: Uma aventura Congelante" mas estava com a aparência igualmente “congelada” por plásticas e intervenções cirúrgicas? Ou o esforço vão da baixinha Lisa Mineli tentando participar de uma foto onde só havia gente alta?

Bem, talvez o momento que melhor represente a descontração (atípica) que rolou durante a festa seja mesmo do “selfie” histórico da apresentadora Ellen Degeneres e repleto de estrelas, cuja foto gerou pane no Twitter, em suas mais de 1,2 milhão replicações. E em pouco mais de uma hora! O melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro - quem se importa. Nenhuma obra precisa de um Oscar para ter sua importância, enfim, legitimida ou ainda condicionar o que deve ser privilegiado (este poder pertence ao público que, individualmente, pode atribuir melhor veredicto a quem julgar merecedor). Em contrapartida, assistir grandes artistas enfrentando a própria 'derrota' e, ainda assim, se divertindo à beça tem um valor que, convenhamos, prêmio nenhum pode dar conta.