A convivência entre as pessoas nem sempre é fácil. Se o começo de uma relação é período pleno de empolgação e descobertas o estreitamento da intimidade pode mostrar (e não sem surpresas) que o entrosamento que se acreditava não passava de mero afã curioso, revelando além de desconforto talvez a mais completa (e contraditória) falta de afinidade. Desenvolvidas no ambiente supostamente melhor favorecido, as conexões na arte quando desandam tendem criar cegueiras possivelmente mais intensas (pelas luzes dos holofotes) e ressoar mais forte (e além de seu meio) pelo barulho criado pela platéia, o burburinho da imprensa e - não raro - a incorporação dos conflitos pelos próprios artistas ao espetáculo.
Tomemos o exemplo da dupla nova-iorquina Cults, formada pelo casal Brian Oblivion e Madeline Follin. Quando lançaram seu auto-intitulado debut (em 2011), um trabalho assim-assim e que apenas oferecia o mais do mesmo produzido no cenário indie, algumas publicações musicais enxergaram algo de novo em sua estréia, e alçaram a dupla no calendário volátil e frenético do hyppe musical. Na verdade, esta é uma atitude típica de uma imprensa muitas vezes afeita a novidade pela novidade, sem que os escolhidos em questão apresentem algo efetivamente novo. E Não raro, esta opção do elogio pelo elogio tende mais a prejudicar do que favorecer os artistas, sobretudo pelas expectativas geradas em torno dos próximos trabalhos. Com a preocupação e insegurança natural ao processo criativo e a necessidade agora de apresentar um trabalho que fizesse juz ao status excessivo, a amizade dos integrantes do Cults foi enfim testada e nessas condições adversas a união completamente rachada.
Idealmente, esperava-se que os desentendimentos viessem acirrar também a criatividade do casal. Algo similar ao ocorrido com os rappers do Outkast, por exemplo, que espreitados num período de briga braba, gestaram o consagrador "Speakerboxxx/ The Love Below" (2003) - sintomaticamente, um albúm duplo e realizado em separado. Para o Cults, contudo, a nova centelha não aconteceu e o trabalho seguinte, 'Static' (2013), apenas confirmou a irregularidade dos bastidores num repertório em que se percebe apenas duas pessoas tocando juntas mas sem muita empolgação. A falta de diálogo pode ter contribuido na criação de canções que seguem - novamente - a mesmíssima produção eletro-rock acomodada ao padrão comum (com o agravante que agora a música não eram mais uma novidade). "Static" é, aliás, um título coerente com o trabalho, além de remeter a condição de discódia compartilhado pelos artistas no período.
Como os problemas nos bastidores nem sempre se mostram evidentes nas faixas, é preciso buscar referências além das canções para tentar compreendê-las. Daí o videoclipe do single "High Road" (a melhor música do duo) reluzir como uma fagulha depois de tanto fogo-fátuo. O video usa da mesma técnica utilizada no clipe de "Seven Nation Army" do The White Stripes - onde uma sucessão contínua de imagens mergulha o expectador num caleidoscópico túnel - porém se apropria do artifício de maneira particular. Afinal, os fragmentos de cenas adentrando umas sob as outras, e em camadas cada vez mais escuras, podem servir também de metáfora à busca infinita de duas pessoas pelas razões de tantos desentendimentos - terminando exaustas, sem respostas e com a amizade que tinham perdida para sempre. Todavia, se há uma leitura que não precisa de simbolismos é a certeza de que todos estão suscetíveis a essa realidade. Celébre ou anônimo, ninguém está isento de viver certos espetáculos decadentes na vida.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Um Pequeno Passo na Dramaturgia, Um Grande Avanço na Sociedade
- Ei, fica mais um pouco...
- Eu vou ficar o dia todo pensando em você.
- Vê se não pensa em mim quando tiver cortando a cabeça de algum peixe...
- Você tem de fazer piada de tudo?
- Acho que é o meu jeito de dizer que... você mudou a minha vida.
- Félix, eu não vivo sem você...
- Eu não vivo sem você, Carneirinho!
O que se viu a seguir, após este diálogo, não foi nada além do que naturalmente acontece entre duas pessoas que se gostam, e evidentemente manifestam seu afeto através do contato físico. Mas o singelo selinho trocado pelos personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso, na penúltima cena de "Amor à Vida", não era algo corriqueiro. É bem possível que passado algumas décadas este momento adquira ares inocentes, como de Vida Alves e Walter Forster no primeiro beijo na boca da TV (em 1951), ou nas bitoquinhas trocadas no cinema mudo, no início do século passado. Não deixa de ser sintomático que o primeiro beijo gay, protagonizado numa novela da Rede Globo, tenha revivido no público atual uma das emoções mais vibrantes que apenas os folhetins do tempo das nossas avós conseguiam criar - o da espera pelo beijo do mocinho na mocinha. Antes de se considerar exagerada tanta expectativa, a decisão da emissora (a maior do País) em exibir este importante e inédito desfecho reflete não apenas a imensa trajetória de luta dos homossexuais por direitos civis, entre poucas vitórias até poucos anos atrás, como também o considerável avanço na representação do gay na televisão - a anos atrelada unicamente ao caricato e risível, quando não patético e humilhante.
Com o término de "Amor à Vida" fica mais perceptível concluir que Walcyr Carrasco contextualizou o percurso do melhor personagem de sua carreira à longa trajetória dos gays na televisão. Afinal, num primeiro instante Félix foi um vilão próximo da psicopatia (ao jogar na caçamba a sobrinha recém nascida), uma figura obscura e sofrida pela rejeição do pai (envergonhado pela sexualidade dúbia do filho) e uma homem "de pegada" na cama com a mulher mas cujos trejeitos afeminados apenas "davam pinta" de suas tendências. Depois de encenar grandes dramas, como quando teve a homossexualidade enfim exposta numa briga de família, Félix foi colocado na condição de palhaço num picadeiro armado na 25 de Março. Obrigado a vestir uma fantasia - com flores de plástico na cabeça e barriga de fora à la periguete - e se apresentar com todo espalhafato ali exigido, o personagem teve a densidade de suas tragédias, e coerência dramática, banalizadas à favor da caricatura. Mas eis que depois de receber sua cota de castigo pelas maldades (para os noveleiros, brincar de ser pobre é o suficiente para regenerar o caráter de alguém) o personagem ressurgiu como protagonista de uma comédia romântica, com direito a barracos por ciúme e uma cantoralada "carneirinho, carneirão" durante uma viagem - e mais adiante, convertido num héroi com ares de santo canonizado, pode ajudar a quem antes engendrava artimanhas e inescrupulos.
Todavia, foi apartir desse ponto da estória, quando todos os clichês já tinham sido percorridos, que o autor ousou conduzir seu personagem por caminhos além do já conhecido. Despido das máscaras cômicas, trágicas, heróicas e outros adereços de artificialismo, Félix - antes conhecido como a Bicha Má - pode livrar-se da afetação insustentável que se tornara como uma Bicha Quaquá, experimentando algo mais original e especial. O público assistiu então, e com naturalidade, o vislumbre numa manhã comum de uma família chefiada por um casal gay. Afinal, nada ali era muito diferente do que acontecia na vida de milhões de casais brasileiros. A atenção requerida pelos filhos pequenos, a preocupação com a saúde debilitada do pai, o cuidado exigido no compromisso profissional: detalhes cotidianos que inseriam seus personagens (Félix e Niko) num contexto melhor condizente a realidade contemporânea do que a velhos e ultrapassados esteriótipos. O beijo filmado pelos dois homens significou, portanto, o longo e tortuoso caminho, cheio de percalços, que o gay teve de vencer até conquistar uma imagem que lhe conferisse respeito.
A importância política dessa cena é semelhante a outros momentos decisivos na teledramaturgia brasileira. Como aquele em que Regina Duarte enfrentava o marido violento e depois do divórcio se debatia em dilemas e preconceitos no oportuno seriado "Malu Mulher" (1979). "Mulher não pode ser fragilzinha, tem de ser agressiva de vez em quando, saber se defender", ensinava logo no primeiro episódio. Ou na escalação de Taís Araújo como protagonista de uma novela das 8 ("Viver a Vida", 2009) dissociando de vez a negritude do contexto de escravidão e redirecionando sua imagem a uma mulher de sucesso mas sem precisar recorrer a bandeiras raciais. Ao alinhar o gay ao conceito de uma "nova" família e mostrar o beijo entre homens como algo normal, "Amor a Vida" se tornou um marco da TV, pelo avanço sem precedentes na retratação do homossexual, e na abertura para uma melhor aceitação do homoafeto em todo País. Como bem disse Matheus Solano após a exibição da cena, este é "um pequeno passo na dramaturgia, mas um grande passo na sociedade".
- Eu vou ficar o dia todo pensando em você.
- Vê se não pensa em mim quando tiver cortando a cabeça de algum peixe...
- Você tem de fazer piada de tudo?
- Acho que é o meu jeito de dizer que... você mudou a minha vida.
- Félix, eu não vivo sem você...
- Eu não vivo sem você, Carneirinho!
O que se viu a seguir, após este diálogo, não foi nada além do que naturalmente acontece entre duas pessoas que se gostam, e evidentemente manifestam seu afeto através do contato físico. Mas o singelo selinho trocado pelos personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso, na penúltima cena de "Amor à Vida", não era algo corriqueiro. É bem possível que passado algumas décadas este momento adquira ares inocentes, como de Vida Alves e Walter Forster no primeiro beijo na boca da TV (em 1951), ou nas bitoquinhas trocadas no cinema mudo, no início do século passado. Não deixa de ser sintomático que o primeiro beijo gay, protagonizado numa novela da Rede Globo, tenha revivido no público atual uma das emoções mais vibrantes que apenas os folhetins do tempo das nossas avós conseguiam criar - o da espera pelo beijo do mocinho na mocinha. Antes de se considerar exagerada tanta expectativa, a decisão da emissora (a maior do País) em exibir este importante e inédito desfecho reflete não apenas a imensa trajetória de luta dos homossexuais por direitos civis, entre poucas vitórias até poucos anos atrás, como também o considerável avanço na representação do gay na televisão - a anos atrelada unicamente ao caricato e risível, quando não patético e humilhante.
Com o término de "Amor à Vida" fica mais perceptível concluir que Walcyr Carrasco contextualizou o percurso do melhor personagem de sua carreira à longa trajetória dos gays na televisão. Afinal, num primeiro instante Félix foi um vilão próximo da psicopatia (ao jogar na caçamba a sobrinha recém nascida), uma figura obscura e sofrida pela rejeição do pai (envergonhado pela sexualidade dúbia do filho) e uma homem "de pegada" na cama com a mulher mas cujos trejeitos afeminados apenas "davam pinta" de suas tendências. Depois de encenar grandes dramas, como quando teve a homossexualidade enfim exposta numa briga de família, Félix foi colocado na condição de palhaço num picadeiro armado na 25 de Março. Obrigado a vestir uma fantasia - com flores de plástico na cabeça e barriga de fora à la periguete - e se apresentar com todo espalhafato ali exigido, o personagem teve a densidade de suas tragédias, e coerência dramática, banalizadas à favor da caricatura. Mas eis que depois de receber sua cota de castigo pelas maldades (para os noveleiros, brincar de ser pobre é o suficiente para regenerar o caráter de alguém) o personagem ressurgiu como protagonista de uma comédia romântica, com direito a barracos por ciúme e uma cantoralada "carneirinho, carneirão" durante uma viagem - e mais adiante, convertido num héroi com ares de santo canonizado, pode ajudar a quem antes engendrava artimanhas e inescrupulos.
Todavia, foi apartir desse ponto da estória, quando todos os clichês já tinham sido percorridos, que o autor ousou conduzir seu personagem por caminhos além do já conhecido. Despido das máscaras cômicas, trágicas, heróicas e outros adereços de artificialismo, Félix - antes conhecido como a Bicha Má - pode livrar-se da afetação insustentável que se tornara como uma Bicha Quaquá, experimentando algo mais original e especial. O público assistiu então, e com naturalidade, o vislumbre numa manhã comum de uma família chefiada por um casal gay. Afinal, nada ali era muito diferente do que acontecia na vida de milhões de casais brasileiros. A atenção requerida pelos filhos pequenos, a preocupação com a saúde debilitada do pai, o cuidado exigido no compromisso profissional: detalhes cotidianos que inseriam seus personagens (Félix e Niko) num contexto melhor condizente a realidade contemporânea do que a velhos e ultrapassados esteriótipos. O beijo filmado pelos dois homens significou, portanto, o longo e tortuoso caminho, cheio de percalços, que o gay teve de vencer até conquistar uma imagem que lhe conferisse respeito.
A importância política dessa cena é semelhante a outros momentos decisivos na teledramaturgia brasileira. Como aquele em que Regina Duarte enfrentava o marido violento e depois do divórcio se debatia em dilemas e preconceitos no oportuno seriado "Malu Mulher" (1979). "Mulher não pode ser fragilzinha, tem de ser agressiva de vez em quando, saber se defender", ensinava logo no primeiro episódio. Ou na escalação de Taís Araújo como protagonista de uma novela das 8 ("Viver a Vida", 2009) dissociando de vez a negritude do contexto de escravidão e redirecionando sua imagem a uma mulher de sucesso mas sem precisar recorrer a bandeiras raciais. Ao alinhar o gay ao conceito de uma "nova" família e mostrar o beijo entre homens como algo normal, "Amor a Vida" se tornou um marco da TV, pelo avanço sem precedentes na retratação do homossexual, e na abertura para uma melhor aceitação do homoafeto em todo País. Como bem disse Matheus Solano após a exibição da cena, este é "um pequeno passo na dramaturgia, mas um grande passo na sociedade".
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