segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Separação Assistida

A convivência entre as pessoas nem sempre é fácil. Se o começo de uma relação é período pleno de empolgação e descobertas o estreitamento da intimidade pode mostrar (e não sem surpresas) que o entrosamento que se acreditava não passava de mero afã curioso, revelando além de desconforto talvez a mais completa (e contraditória) falta de afinidade. Desenvolvidas no ambiente supostamente melhor favorecido, as conexões na arte quando desandam tendem criar cegueiras possivelmente mais intensas (pelas luzes dos holofotes) e ressoar mais forte (e além de seu meio) pelo barulho criado pela platéia, o burburinho da imprensa e - não raro - a incorporação dos conflitos pelos próprios artistas ao espetáculo.

Tomemos o exemplo da dupla nova-iorquina Cults, formada pelo casal Brian Oblivion e Madeline Follin. Quando lançaram seu auto-intitulado debut (em 2011), um trabalho assim-assim e que apenas oferecia o mais do mesmo produzido no cenário indie, algumas publicações musicais enxergaram algo de novo em sua estréia, e alçaram a dupla no calendário volátil e frenético do hyppe musical. Na verdade, esta é uma atitude típica de uma imprensa muitas vezes afeita a novidade pela novidade, sem que os escolhidos em questão apresentem algo efetivamente novo. E Não raro, esta opção do elogio pelo elogio tende mais a prejudicar do que favorecer os artistas, sobretudo pelas expectativas geradas em torno dos próximos trabalhos. Com a preocupação e insegurança natural ao processo criativo e a necessidade agora de apresentar um trabalho que fizesse juz ao status excessivo, a amizade dos integrantes do Cults foi enfim testada e nessas condições adversas a união completamente rachada.

Idealmente, esperava-se que os desentendimentos viessem acirrar também a criatividade do casal. Algo similar ao ocorrido com os rappers do Outkast, por exemplo, que espreitados num período de briga braba, gestaram o consagrador "Speakerboxxx/ The Love Below" (2003) - sintomaticamente, um albúm duplo e realizado em separado. Para o Cults, contudo, a nova centelha não aconteceu e o trabalho seguinte, 'Static' (2013), apenas confirmou a irregularidade dos bastidores num repertório em que se percebe apenas duas pessoas tocando juntas mas sem muita empolgação. A falta de diálogo pode ter contribuido na criação de canções que seguem - novamente - a mesmíssima produção eletro-rock acomodada ao padrão comum (com o agravante que agora a música não eram mais uma novidade). "Static" é, aliás, um título coerente com o trabalho, além de remeter a condição de discódia compartilhado pelos artistas no período.

Como os problemas nos bastidores nem sempre se mostram evidentes nas faixas, é preciso buscar referências além das canções para tentar compreendê-las. Daí o videoclipe do single "High Road" (a melhor música do duo) reluzir como uma fagulha depois de tanto fogo-fátuo. O video usa da mesma técnica utilizada no clipe de "Seven Nation Army" do The White Stripes - onde uma sucessão contínua de imagens mergulha o expectador num caleidoscópico túnel - porém se apropria do artifício de maneira particular. Afinal, os fragmentos de cenas adentrando umas sob as outras, e em camadas cada vez mais escuras, podem servir também de metáfora à busca infinita de duas pessoas pelas razões de tantos desentendimentos - terminando exaustas, sem respostas e com a amizade que tinham perdida para sempre. Todavia, se há uma leitura que não precisa de simbolismos é a certeza de que todos estão suscetíveis a essa realidade. Celébre ou anônimo, ninguém está isento de viver certos espetáculos decadentes na vida.


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