É fato: quem considera o Oscar o maior prêmio do cinema pouco entende da sétima arte. Por ser uma premiação industrial e que valoriza a produção criada em território estaduniense, não é nenhum segredo que os filmes ali lembrados (entre vencedores e indicados) privilegiaram no geral obras em língua inglesa, abordando em grande parte o estilo de vida norte-americana e cuja inclusão se justifica através de alguns milhões na bilheteria (contabilizado ou com sérias possibilidades disso acontecer). Sejamos francos, estamos falando de um investimento. Ter talento ou realizar um bom trabalho é (muito) relativo quando se trata de ganhar uma estatueta. Campanhas publicitárias, lobby dos estúdios, a capacidade de uma obra ou artista (estrela, no jargão cinéfilo) em render dinheiro é levado bem mais em consideração do que o mérito da qualidade. Se visto unicamente pelo prisma do critério qualitativo, a decepção com o prêmio então é maior ainda, já que a lista de injustiças cometidas ao longo de oito décadas é grande, e muitas vezes alarmante.
Como preterir, por exemplo, atuações notadamente superiores como de Bete Davis (por 'A Malvada') & principalmente Gloria Swanson (pelo estupendo desempenho em 'Crepúsculo dos Deuses') em favor da fraquissíma Judy Holliday (por 'Nascida Ontem'), em 1950? Caso parecido ao de Julia Roberts, atriz mais rentável de Hollywood em meados de 2001, e premiada pelo correto desempenho em 'Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento', porém explicitamente inferior quando comparado a devastadora atuação de Ellen Burstyn em 'Réquiem para um Sonho'. E os filmes? Como defender uma obra de tateante minimalismo dramático, caso do longa 'Gente como a Gente', diante da ousadia proposta no vertiginoso 'Touro Indomável' (que busca através de uma narrativa febril e deliberada as razões do sucesso e derrocada do boxeador Jake LaMotta) e, ainda assim, ser derrotado em 1980? Ou ainda a escandalosa vitória do insípido 'O Discurso do Rei', em 2011, diante de verdadeiros clássicos modernos como 'A Rede Social' ou 'Cisne Negro'. É curioso que sejam os perdedores muitas vezes, a entrar para História e, não raro, representarem a época em que foram lançados, melhor do que os vencedores. Certamente será este o caso dos longas dirigidos por David Fincher e Darren Aronofsky. Isso sem falar nas esnobadas a mestres como Alfred Hitchcock, Charles Chaplin e Orson Welles, autores que viram suas obras esquecidas na premiação. Perder no Oscar, portanto, está longe de ser uma vergonha - na verdade, quem perde o prestigio e têm a importância subvalorizada é a própria Academia Cinematográfica Hollywoodiana, que se equilibra de maneira esquizofrênica entre incentivar quem pode render mais dinheiro ou reconhecer o valor artístico de uma obra.
Neste ano, as publicações especializadas na área foram unânimes em dizer que a qualidade das produções indicadas estava acima da média. Particularmente, não notei nada assim tão superior e que alterasse a rota de anos anteriores. Ok, "Gravidade" & "Ela" eram títulos diferenciados mas significavam o mesmo pingo d'água no oceano de mesmices compiladas toda vez entre os indicados. A bem da verdade, nem vêm ao caso apontar quem era o melhor, quem merecia, quem era 'bom' - cada um que faça seu próprio juízo, certo? Para certa parcela do público, uma festa tão sisuda como o Oscar - ocorrido no último domingo (02/03) - só consegue despertar algum entusiasmo ao ter quebrado o protocolo formal (e previsível) da cerimônia. Afinal, que está premiação siga o padrão ouro de monotonia isso não é novidade, porém ter a imagem surreal de uma Meryl Streep (a maior atriz da atualidade, no cinema americano) comendo um pedaço de pizza na platéia, como diria aquela propaganda de cartão de crédito, não tem preço (mesmo)! É a mesma impressão que se tem ao vislumbrar a divertida 'briga' no backstage entre Jennifer Lawrence e Lupita Nyong'o pelo prêmio de melhor coadjuvante. Para os expectadores que acompanhavam a cobertura do prêmio pelo canal a cabo TNT, ainda houve um bônus adicional quando o jornalista Rubens Ewald Filho cometeu uma gafe (daquelas) ao chamar a atriz Shirley Temple de "lenda viva" quando a mesma era homenageada entre os artistas mortos do último ano! Mais tarde, contudo, Ewald Filho se redimiu ao exaltar a inusitada (porém justíssima) lembrança do documentarista Eduardo Coutinho, morto em Fevereiro passado, no tradicional clipe de "In Memorian". Seria maldade incluir nessa sessão 'vergonha alheia', também a participação da atriz Kim Novak, de 81 anos, que foi entregar o Oscar de melhor animação ao filme "Frozen: Uma aventura Congelante" mas estava com a aparência igualmente “congelada” por plásticas e intervenções cirúrgicas? Ou o esforço vão da baixinha Lisa Mineli tentando participar de uma foto onde só havia gente alta?
Bem, talvez o momento que melhor represente a descontração (atípica) que rolou durante a festa seja mesmo do “selfie” histórico da apresentadora Ellen Degeneres e repleto de estrelas, cuja foto gerou pane no Twitter, em suas mais de 1,2 milhão replicações. E em pouco mais de uma hora! O melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro - quem se importa. Nenhuma obra precisa de um Oscar para ter sua importância, enfim, legitimida ou ainda condicionar o que deve ser privilegiado (este poder pertence ao público que, individualmente, pode atribuir melhor veredicto a quem julgar merecedor). Em contrapartida, assistir grandes artistas enfrentando a própria 'derrota' e, ainda assim, se divertindo à beça tem um valor que, convenhamos, prêmio nenhum pode dar conta.

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