Embora um tanto combalido nos últimos anos - devido a problemas de saúde e alguns vícios - além de um pouco esquecido, retomar a discografia do cantor George Michael é (re)descrobrir um bom artista. Os primeiros anos no duo Wham!, por mais ordinários que se julgava, não se mostram tão descartáveis assim, revelando inclusive servir de influência para artistas contemporâneos que muitos não costumam associar. Não é difícil, por exemplo, encontrar ecos dessa fase no trabalho de Justin Timberlake, mesmo que esse diga de forma magnânima ter espelhado sua carreira em Michael Jackson. E o parentesco pode se tornar mais estreito se pensarmos que o primeiro álbum de George Michael, 'Faith'( 1987) versa de maneira tão direta ao sexo, e como nunca o 'Rei do Pop' ousou, quanto de 'Futuresex - Lovesounds' (2006), o consagrador segundo disco de Timberlake.
Essa tônica sexual impulsou, aliás, boa parte da produção solo do britânico, e títulos como 'I Want Your Sex' não deixa dúvida que o cantor vivia sua 'la vida loca' com intensidade. Talvez encontrando na entrega ao desejo deliberado uma válvula para apaziguar certos conflitos. Não demorou contudo para o sofrimento se sobrepor ao prazer, e a belíssima e tristonha canção 'Jesus To A Child' evidenciava essa condição. Em 1998, quando o artista foi preso acusado por atentado ao pudor dentro de um banheiro público, seu tumulto interior teve enfim uma expiação, ainda que acompanhada em toda via-crúcis que inevitavelmente acomete uma personalidade famosa: com sensacionalismo e achincalhamento da opinião pública, e até do meio artístico. "Um banheiro não é o melhor lugar para assumir a sexualidade", comentou Elton John na época.
O melhor dessa história é que, uma vez liberado da obrigação com a imagem de sex-simbol das massas, o inglês pode enfim dar vazão as suas preferências e opiniões de maneira direta e verdadeira. Isso ficou claro quando o cantor não evitou citar o fatídico episódio da prisão nas imagens do (abusado) video de 'Outside', e ainda na crítica disparada em 'Shoot The Dog', onde o então primeiro ministro do Reino Unido Tony Blair é representado como um 'cachorrinho' adestrado pelo americano George Bush (em plena Guerra do Iraque). E foi também com as desobrigações com a música pop que George Michael foi desvelando um filão clássico e pouco explorado na sua carreira solo, com regravações de standards jazzísticos. Mesmo que os resultados no disco 'Songs From The Last Century' (1999) não sejam excepcionais o melhor desse registro é (re)afirmar a excelência de sua voz notavelmente modulada em estilos diversos. Uma qualidade já bastante perceptível quando encarou assumir os vocais da super banda Queen, em 1992, num concerto em homenagem a Freddie Mercury, e saindo ileso da chuvarada de comparações.
Pois em 'Roxanne' George Michael não encontra a menor dificuldade com paralelos, uma vez que a versão original de Sting no desativado grupo The Police, não chega nem perto do tratamento impecável dado pelo cantor. A nova versão (em estúdio) é tão irretocável que o próprio artista não conseguiu superá-lo no registro ao vivo do recém lançado 'Symphonica' (2014). Ainda que esse seja um momento luminoso e de sublime interpretação, é preciso lembrar que o artista George Michael possui vários outros destacados instante no seu percurso musical (sobretudo quando remete aos balanços da disco music). É discografia que vale enfim uma boa pesquisada.
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