Embora não economize em clichês do gênero 'doença da semana', personagem moribundo, narração em off e relacionamentos conflituosos, o longa dirigido pelo artista gráfico Mike Millis, 'Toda Forma de Amor' (2010), consegue criar - ainda assim - uma conexão tão sentimental quanto verdadeira com o espectador, e que faz o iminente dramalhão que se esperaria resultar mais contido e com um inesperado frescor (mesmo não sendo, frisa-se, uma obra excepcional). Se, no resumo geral, o filme fala sobre um sujeito (Oliver), que sempre se fechou pra vida mas com a morte do pai (Hal) encontra algum sentido para viver algo de verdade, é nas entrelinhas do enredo e na maneira como Millis conta e fragmenta essa estória que a torna cativante. Há um estranhamento criado na edição que embaralha os tempos, e as recordações, entrelaçando a infância de Oliver, e sua vivência com a mãe solitária (Georgia), o passado recente, com o pai doente mas ativo (e tão feliz como nunca fora), e o presente quando completamente amortecido pela perda Oliver conhece uma mulher (Anna) que espelha (um mar de) tantos conflitos quanto (um céu de) inúmeras possibilidades - na maior delas, se conectar com alguém.
O filme se apropria, e sem muita vergonha, da excentricidade adorável do francês "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (2002), e a trilha sonora (à cargo do trio Roger Neill, David Palmer e Brian Reitzell) é o indicativo mais óbvio dessa 'referência'. Porém é a impressão 'autobiográfica' criada pelo roteiro do próprio Mike Mills, e a suavização de possíveis exacerbações dramáticas que torna o resultado algo coeso. O fato da subtrama envolvendo o pai de Oliver - que após uma vida inteira dentro do armário, assume a (homos)sexualidade aos 75 anos e inventa de viver uma relação física e amorosa gay, mesmo já doente pelo câncer - ser filtrada com extrema delicadeza faz toda diferença. Assim, como o contexto de sua mãe, certamente infeliz num casamento incompleto, mas vista com uma personalidade forte e tão espirituosa que evita maniqueísmos narrativos. O mesmo pode ser dito da complicada vida familiar de Anna, cujos problemas são sugeridos mas não resvalam em dramaticidades descabidas. Os dramas aqui não servem para acumular depressões profundas (ou incorrer num cho-ro-rô bobo) mas refletir naquele tipo de perplexidade existencial que se carrega e ainda assim se (sobre)vive. É o que torna, enfim, a emoção mais pungente: aquela que não descamba para a histeria mais que silenciosamente esmaga (e sufoca) por dentro.
Pelos bons resultados, é preciso citar ainda o elenco (que é uma maravilha). Mary Page Keller surge em alguns poucos flashbacks mas foge do lugar comum de mãe sofredora. Christopher Plummer (o eterno Captain Von Trapp do clássico 'A Noviça Rebelde') não chega a impressionar, e sua premiação no Oscar pareceu um pouco exagerada (ou uma dessas 'correção' incoerentes da Academia) mas seu bom humor dentro (e fora) de cena o favorece. “Se eu tivesse alguma decência, compartilharia o prêmio com vocês, mas não tenho”, disse o ator dirigindo-se aos demais concorrentes e ao diretor do filme, que lhe propiciou o prêmio de coadjuvante. A francesa Mélanie Laurent, conhecida pela apreensiva atuação em 'Bastardos Inglórios' (2009), de Quentin Tarantino, aqui aparece simplesmente encantadora. E tem ainda o escocês Ewan McGregor, um dos mais fabulosos atores de sua geração. Dono de uma carreira brilhante, e com atuações tão distintas quanto maravilhosas em 'Trainspotting - Sem Limites' (1996), 'Velvet Goldmine' (1998) & 'O Golpista do Ano' (2009), o ator nunca esteve tão charmoso e, ao mesmo tempo, tristonho e melancólico quanto neste filme.
Ao fim, 'Toda Forma de Amor' faz um comentário interessante sobre como a dinâmica da relação entre nossos pais, e que crescemos assistindo bem de perto, pode moldar a maneira como nós mesmos iremos se relacionar quando adultos, buscando traços incomuns em homens e mulheres para encontrar algo (dolorosamente) familiar. Seja na carência emotiva com que se tentará preencher pelo resta da vida ou no medo e abandono de uma relação, tal qual vivenciada continuamente pelos olhos de uma criança presa num corpo crescido.
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