terça-feira, 22 de julho de 2014

O Caçador

Exibida entre abril e junho, “O Caçador” trouxe em 14 episódios a estória de André (Cauã Reymond), filho de um importante policial, Saulo (Jackson Antunes), que esta se aposentando. André participa rapidamente da festa de despedida do pai antes de seguir para uma operação de resgate num seqüestro. Só que chegando ao local o esquadrão policial não encontra ninguém. Desconfiado de um telefone do pai, feito as escondidas, ele descobre que fora seu patriarca o delator que vazou a operação e ficou com o pagamento do resgate, mesmo com o desaparecimento da vitima.

Após ser preso mediante uma conspiração que o acusou do delito, André é convencido pelo pai a assumir o crime e cumprir sua pena na cadeia. 'Eu preciso desse dinheiro. Estou morrendo. Tenho câncer no pulmão. E só me deram seis meses de vida. Todo mundo que eu conheço na policia se deu bem, de um jeito ou de outro. E eu, o que consegui sendo honesto? Sempre acreditei que minha vida na policia melhoraria, fui um babaca. Eu e sua mãe merecemos viver bem os meus últimos dias de vida. Você não acha isso justo?’, pergunta o homem recorrendo a chantagem emocional para sensibilizar o filho, mas prometendo que antes de morrer gravaria um vídeo para inocentá-lo.

Não é preciso ser um adivinho para saber que essa gravação não é encontrada e André se vê sozinho, abandonado pela família, pelos amigos, mas lembrado pelos inimigos - no caso, dois: o traficante que teve o filho seqüestrado e cujo dinheiro do resgate – que sumiu – o bandido quer de volta, além de gente da própria polícia no encalço querendo sua cabeça a prêmio.

Fora da prisão, o único que lhe estende a mão é o Delegado Lopes (Aílton Graça), que lhe propõe um novo ofício. Enquanto não consegue pistas para provar sua inocência, André usaria sua habilidade de investigador para trabalhar como detetive particular, um caçador de recompensas sem vínculos com o estado, agindo de maneira clandestina para encontrar criminosos estrangeiros foragidos no País.

Duas investigações correm em paralelo, portanto, com as investigações na qual André é contratado e aquela em que busca pistas para provar sua inocência, sendo que ambas invariavelmente se cruzam mas se mostram incertas e escorregadias. No meio disso ainda têm a relação tumultuada com o irmão e a cunhada maluquete, cheia de curvas perigosas e que precisa tanto de amor como de um tratamento psicológico.

Com um enunciado que promete desvelar a intimidade afetiva entre pai e filho, e pôr em cheque a própria relação familiar do protagonista, surpreende que o seriado ‘O Caçador’ desenvolva sua trama com maior foco nas minúcias das investigações policiais – trafegando desde a criminalidade brasileira ao submundo da máfia chinesa e sérvia! -, mas esqueça, por vezes, de evoluir na construção psicológica dos personagens. Mesmo desenrolando uma trama policial competente, os escritores Fernando Bonassi e Marçal Aquino incorrem num erro didático de deixar tudo bem explicadinho para o público, não criando lacunas para o expectador deduzir por si próprio algumas passagens. Se no início esses detalhes não pesam tanto, o avançar dos 14 episódios torna seu enredo cansativo e previsível nas resoluções. É sintomático também que os capítulos sigam uma fórmula em quase todas as investigações, onde os contratantes se revelam mais perigosos que os supostos criminosos que procuram. Este e outros clichês do gênero – como testemunhas que morrem mas deixam pistas valiosas para continuar os casos, a boa-vontade de algumas testemunhas chaves que aceitam ajudar pela simples empatia, o chefe que consegue informações devido aos favores que ‘todos’ devem à ele, etc – acabam arrefecendo algumas boas idéias do roteiro. Como lançar mão de temas que inicialmente soam deslocados do argumento principal, remetendo do nazismo à ditadura militar, mas convergindo a estória para os dilemas do protagonista. Caso do 8ºepisódio onde o filho interpretado pelo ator Marat Descartes procura saber se o pai é mesmo o herói idealizado que lhe contaram na infância. Outro acerto esta no fato de cada investigação envolver um estrangeiro, o que cria uma particularidade nos casos, colorindo todos os episódios com um idioma distinto.

Mesmo que criado dentro do núcleo de José Alvarenga Jr., e nomeado aqui como co-diretor, é o experiente Heitor Dhalia o responsável pela fluência narrativa e clima cinematográfico da série, agregando uma ambientação que foge do realismo global padrão na abordagem do sexo e violência, aqui se não brutalmente explicitos, ao menos, honestos quanto ao material proposto. Além da montagem que auxilia o dinamismo narrativo vale destacar a fotografia que privilegio a sombra e o clima cinzento, reforçado pelas nuances das cortinas de fumaça. Com um casting coadjuvante composto quase integralmente por desconhecido, a trama ganha maior foco e não se desvia excessivamente pela presença de nomes conhecidos. E mesmo quando surgem os famosos ficam pouco tempo em cena. Mesmo assim, vale destacar as breves (e boas) participações dos atores Jackson Antunes, Aílton Graça, Milton Gonçalves (quase irreconhecível na pele de um guru 'de ponto de ônibus'), Nanda Costa (menos interessante como uma crente convertida e bem mais na figura de uma puta vingativa que entrega o filho do próprio amante para um matador de aluguel), a sumida Samara Felippo (fazendo uma prostituta que presta serviços online) e Oscar Magrini (que interpreta um produtor pornô sob o pseudônimo de ‘Tony Ramos’!),

Sempre melhor em papeis que exige presença física, Cauã Reymond entrega uma atuação dedicada e construída através de detalhes. Ainda assim, seu protagonismo acaba se justificando mais pelo carisma do que pelo estofo dramático, algo perceptível em cenas que exigem carga emocional mais intensa. Mas não é caso de subestimar o ator. Para quem foi uma cria do bobinho seriado 'Malhação' Cauã soube manobrar muito bem a carreira. Basta observar a linha ascendente de sua trajetória que começou a despontar em novelas como 'Da Cor do Pecado' (2004), 'Belíssima' (2005), onde fazia um garoto de programa, & 'A Favorita' (2007), e floresceu recentemente numa seqüência de ótimos projetos como 'Cordel Encantando' (2011), em boa parceria com a atriz Bianca Bin, e 'Avenida Brasil' (2012), onde atuou de igual pra igual diante das ferozes atuações de Débora Falabella e Adriana Esteves. Com o sedutor sommelier de vinhos na minissérie 'Amores Roubados' (2014) Reymond assumiu, enfim, o posto d’O’ galã nacional (outrora de atores como José Mayer) porém, ao que parece, buscando usufruir o melhor dessa imagem - o sex appeal viril e agressivo que o afasta dos mocinhos bobinhos. Ao menos, é o que sugere seus dois últimos papéis. Esta pode não ser, ainda, a atuação que se espera do ator, mas suas boas escolhas sinalizam que essa interpretação pode possivelmente acontecer num futuro próximo. 

Embora seja um entretenimento um pouco menos ligeiro que os anteriores ‘Força Tarefa’ & ‘A Teia’, ‘O Caçador’ decepciona quem procura tensão 'de rachar a mandíbula' proveniente de uma trama policial, ainda mais devido a alguns entrechos facilmente solucionados, ou maior densidade nos conflitos dos personagens. Por mais que assimile com acertos alguns recursos apresentados em seriados estrangeiros, no saldo final, a impressão é da técnica utilizada para esconder os defeitos ao invés de reforçar as qualidades - uma pratica convenhamos bastante comum nas produções da Rede Globo. É lei que a essência de uma boa estória partirá sempre de um (bom) roteiro estruturado. Como trama policial “O Caçador” pode até convencer, mas como estudo de personagem sua estória deixa um tanto a desejar.


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