sábado, 5 de julho de 2014

Subjetividade Flutuando Sob Um Mar Clichê

Eis um filme onde a sinopse é quase desencorajadora. "Uma estória de amor inter-racial vivida sob a sombra da homofobia e intolerância religiosa entre um frágil rapaz estudante de arte e um homem (chamado Romeo) que se oferece para mostrar as belezas da ilha do Caribe e muito mais"!

Se o roteiro pinta um quadro vitimizado e um tanto maniqueísta - onde o pastor vilão é mostrado num palanque cuspindo sacralidades de ódio para depois ser mostrado num inferninho promíscuo, e revelar ser, claro, também um homossexual – ou se ocupa dos desvãos comuns em se assumir num contexto conservador e familiar, o que surpreende no longa é a maneira como diretor Kareem Mortimer específica com alguns bons resultados os dilemas dos personagens.

A começar pela caracterização de um dos protagonistas, com o mais frágil se mostra bastante corajoso, e mesmo assim, sem mostrar empáfia ou arrogância, antes expressando desorientação e melancolia. A cegueira da hipocrisia consegue um registro melhor não no marido que traí a esposa (com outros homens), mas nessa própria mulher que mesmo desconfiada do cônjuge (sobretudo com a doença venérea adquirida e cujo tratamento ocorre mediante as acusações do marido), ainda assim, ela endossa os ideais de ódio para si. E mesmo que a tragédia recaia e dê a trama o mesmo destino comum dos filmes do gênero, há uma boa construção subjetiva e até poética nesse doloroso clichê.

Com exceção do ainda falho roteiro, o mérito de "Children of God" é melhorar em tudo quando comparado ao curta-metragem 'Float' (2007), que inspirou o longa. Seja na bela trilha sonora instrumental (Nathan Matthew David), na interpretação dos atores - do carísmatico Stephen Tyrone Williams, ao ótimo Johnny Ferro (substituindo o fraquinho Jonathan Murray), e no tempo narrativo transcorrendo com suavidade e delicadeza algumas passagens simbólicas, como a flutuação na água, o mergulho do alto de um rochedo na imensidão do mar, a dança silenciosa realizada na escuridão, ou alguém sugerindo uma viagem cujo caminho ‘difícil’ permite, em revés, ficar ‘frente a frente’ consigo mesmo.

Mortimer acerta, portanto, ao lapidar o que antes era apenas esboçado – nas atuações, e aqui reunindo dois interpretes com verdadeira química, na ambientação, utilizando com parcimônia os belos cenários de paisagens naturais do Caribe, e evitando tornar o filme num mero cartão postal das Bahamas, e na narrativa que extrai melhores resultados através das mensagens subjetivas e menos generalizadas do roteiro. É justamente esse cuidado em tratar um enredo de pouca novidade, mas que evolui com inesperadas nuances, que o filme ganha a atenção do espectador e apaga a má impressão não apenas da sinopse, mas também do genérico título em português 'Amantes do Caribe', uma tradução bastante simplista para ‘Filhos de Deus’.

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