quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mistérios Da Carne

Adaptado do romance do escritor Scott Heim, "Mistérios da Carne" (2004) tem como tema o abuso sexual sofrido por duas crianças cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Para Brian o efeito dessa experiência se manifesta quase imediatamente - através de sangramentos nasais, repentinos desmaios, incontinência urinária, um olhar agora assustado diante do mundo e um 'apagão' de cinco horas na sua mente. Quanto a Neil, que já manifestava traços da sua (homos)sexualidade, parece não se traumatizar consentindo ser molestado durante todo um verão.

Os garotos crescem. Brian se torna um adolescente retraído e reprimido, além de um tanto esquisitão ao acreditar ter sido abduzido por extraterrestres, o que explicaria não se lembrar do que lhe aconteceu. Torna-se, em suma, uma caricatura da clássica imagem do nerd com óculos grandes e cabelos jogados no rosto. Já Neil, em oposto, é cada vez mais auto-confiança e acha natural recorrer ao sexo para pagar seu vício (em drogas) e espantar a modorra entediada da cidade onde mora (num retrato, também, estereotipado do jovem revoltado).

Mas essa é uma falsa impressão e o diretor Gregg Araki subverterá sua trama expondo a contradição nas ações desses personagens. O destemor inicial do confiante Neil se revelará não mais que uma camuflagem desesperada de um jovem preso a compulsão de agradar homens mais velhos, talvez tentando encontrar alguém semelhante a figura paterna do estuprador. Sua promiscuidade, aliás, beira o suicídio uma vez que o sexo sem proteção em meados dos anos 80 e 90, tempo em que a estória passa, era uma roleta-russa devido a AIDS. Seu comportamento demonstra enfim um indivíduo que não assimilou o que aparentava bem resolvido dentro de si mesmo. Quanto ao desorientado Brian, ruminando suas confusões e terrores internalizados, por um instante se mostrará mais assertivo do nunca fora, na tentativa de entender o que aconteceu afinal nas 'cinco horas negras' da qual diz não lembrar. Esse desejo por desvelar o próprio passado o levará de encontro a Neil e a casa (agora vazia) onde ocorreu o fatídico abuso.

Mesmo que o roteiro passa a impressão de estar tão perdido quanto seus personagens, sobretudo na primeira parte com maior espaço de temas extra-terrestres e francamente dispensáveis, aos poucos o argumento alinha as feições dolorosamente realistas nos conflitos dos personagens. Um grande mérito de Araki é não relativizar as questões do abuso sexual, por um lado, sucumbindo às tentações de tornar a situação num mero fetiche gay, e de outro sugerir que Neil se tornou gay simplesmente devido ao caso de pedofilia. Não se tornou, mas é evidente que os males dessa experiência afetou sua vida (adulta).

O nome do Gregg Araki deve ser realmente citado, pois boa parte dos (bons) resultados se deve ao seu trabalho. Seja ao extrair boas atuações de todo elenco - com destaque para a dupla central Brady Corbet (ótimo) e Joseph Gordon-Levitt (extraordinário) - como se ater ao tom seco e de certa estranheza narrativa, além de realizar uma vívida representação underground sem precisar exceder nas situações 'precárias' e mesmo assim não maquiar sua realidade.

Há ainda a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, com a ambiência da trilha sonora instrumental (Robin Guthrie & Harold Budd) e canções de bandas como Slowdive, Curve, Cocteau Twins e Ride equivalendo através dos gêneros que representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.


Nenhum comentário: