Antes de estrear no cinema, o diretor americano Gregg Araki foi um crítico musical, o que explica boa parte dos (ótimos) temas que costuma utilizar nos seus filmes. Em "Mistérios da Carne" (2004), temos uma boa mostra de suas escolhas seletivas. À começar pela entrega dos temas instrumentais a dupla Robin Guthrie & Harold Budd, cujas melodias produzem uma atmosfera tão enevoada e melancólica quanto nostálgica e apreensiva. Alinhada enfim, a estrutura do longa que aborda o tema o abuso sexual sofrido por duas crianças mas cujas reações psicológicas se mostram inicialmente antagônicas. Enquanto Brian experimenta um inferno de reações quase imediatas, Neil parece não se dar conta ou mesmo se traumatizar com o fato, consentindo ser molestado durante todo um verão. Mas essas são falsas impressões e Gregg Araki subverterá essa trama expondo as contradições nas ações desses personagens.
Além do score, a sensível recriação da atmosfera da virada dos anos 80, período que o filme passa, se dá também através de canções de artistas bastante alternativos. Aliás, muitas das canções sequer fazem parte do repertório 'oficial' das bandas, sendo pinceladas em EP's e compilações. Caso das faixas "Crushed" (Cocteau Twins) & "Drive Blind" (Ride). Pois é reunindo outros nomes ainda, com Slowdive e Curve, que Araki equivale por meio dos gêneros que os músicos representam (shoegazing, dream pop e noise) a 'sujeira' sonora subjetiva e climática da época. Ainda assim, é através do grupo Sigur Rós (cria dos anos 90) e sua belíssima "Samskeyti" a melhor opção para encerrar o filme. A faixa trás toda aquela melancolia desesperançada, angustiante e comovente em seu desejo de catarse, reforçando com pungência a conclusão do filme em não encontrar culpados ou inocentes, mas procurar (de alguma maneira) a liberdade e capacidade de seguir em frente.
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