Para quem ouviu os primeiros trabalhos da mineira Marina Machado as mudanças que suscederam ao longo de sua carreira pode causar estranheza. 'Baile de Pulga' (1999) seu disco de estréia, apresentava uma cantora pródiga em boas idéias. Por mais que o albúm fosse essencialmente de pop-rock, seu repertório propunha uma sutil conjugação de sons e ritmos de raízes afro-brasileiras e indígenas à tradições convencionais da canção, como rock e jazz. Um bom exemplo de sua intrépida abordagem está em 'Mayabe Ipô', faixa que ganhou registro em tupi-guarani sob adorno instrumental jazzistico! Com o lançamento de 'Tempo Quente' (2008), seu 3ºdisco, a direção inicial sofreu um desvio de rota, alterando sensivelmente seu trabalho.
Sua discografia que, até então, seguia na contramão da falta de originalidade (de outras cantoras) passou a ir de encontro ao que parecia mais distante a sua persona artistica: uma MPB convencional, confortável e acomodada numa ambiência (e canto) excessivamente 'cool', onde a preocupação maior é com a sofisticação musical. O que antes pulsava em inquietação foi, enfim, brutalmente arrefecido por tons delicados. E, como o lançamento do recente 'Quieto Um Pouco' (2013), esse estado de insustentável leveza promete permancer por tempo indeterminado. O problema não está na beleza melódica, à rigor, lindamente urdida em timbragens da MPB dos anos 70, mas à maneira como esta sonoridade soa mero arranjo caprichoso tentando encobrir um repertório nem sempre à altura do esmero instrumental. De fato, muitas destas canções vagam perdidas num pop anêmico e com pouco a dizer, mesmo que alguns letras evidenciem as razões das mudanças.
'Vagalumes' pinta um retrato poético e encantado de quem está prestes a se casar ('Tanto apartamento pra alugar/ Nosso casamento pra acontecer/ Um chá de panela pra esquentar/ Nosso amor e nosso bem-querer') e 'O Melhor Vai Começar' declara as benesses de se gerar um filho ('Você mostrou pra mim/ onde encontrar assim/ mais de um milhão de motivos pra sonhar, enfim/ e é tão gostoso ter os pés nos chão e ver/ que o melhor da vida vai começar'). Todo fruir ameno, de sentimentos sublimes, surgidos na fase pré-matrimônio e que costumam acompanhar também a maternidade, é momento realmente especial na vida de uma mulher (de um casal, enfim). A maternidade, aliás, fez muito bem a cantora, que adquiriu uma beleza madura e que agora contrasta com sua doce voz de menina. Mas é certo também que toda essa felicidade poderia ter rendido discos melhores. No fim, as transformações provocam uma boa e uma má notícia.
A ruim é que o repertório nem sempre criterioso, somado a ambiência de tons convencionais, resulta em grande parte insosso, nivelando a artista à tantas outras nessa nação de cantoras. A boa é que mesmo na irregularidade do conjunto, no período atual, há canções que merecem atenção. Caso de 'Candura', ótima composição do carioca Max de Castro (e de lindos versos como 'A vida é dura/ Mas ela só faz melhorar'); ou a urbana 'Simplesmente' (Simplesmente posso encontrar/ Qualquer distração, ruas da cidade/ Restos de uma feira/ Tomo um atalho no lago/ Só pra te perder'), ou ainda as baladas 'É Tarde' (da dupla Samuel Rosa e Chico Amaral), uma das melhores faixas do albúm 'Cosmotron' (2003) do Skank, e a já citada 'O Melhor Vai Começar' (do paulistano Guilherme Arantes, cuja obra têm sido redescoberta por uma geração de novas cantoras).
Mas é 'Quieto Um Pouco', composição de Maurício Pereira e Dino Vicente e que dá título ao albúm de Marina, que deixa entrever algum outono em meio esse cenário, por vezes, excessivamente ensolarado. De versos reflexivos, a canção tece letra sustentada mais em questionamentos do que certezas aprazíveis revelando, enfim, um salutar desconforto que pode surgir, em revés, mesmo dos melhores momentos da vida. 'Difícil notar a idade que eu tenho quando estou vivendo/ difícil dizer se é saudade que eu tenho quando estou sentindo/ difícil de crer a certeza que eu tenho quando estou tentando/ difícil conter tanta coisa que eu tenho quando estou vazio'. Está aí, nessas frases, os dilemas que a música da cantora enfrenta: em suma, achar um meio termo entre a felicidade de uma vida familiar e as fissuras de imperfeição nessa moldura idealizada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário