Um dos acertos do longa é a maneira como a diretora Nanouk Leopold reforça o clima de solidão entre os personagens. Sem um pingo de sentimentalismo ela mostra Helmer cuidando se seu progenitor, limpando-a quando urina na cama, dando banho, oferecendo comida e a presença física mas é evidente o abismo emocional que há entre ambos. 'Por que você me odeia, eu te fiz alguma coisa?', pergunta o pai deitado sem obter resposta. "Você é um pássaro estranho", define mais à frente. Essa é uma historia onde as motivações são pinceladas nas estrelinhas, nos silêncios, em olhares demorados e dentro do vazio das ações cotidianas. O trabalho realizado pelo protagonista - na limpeza dos pastos, ordenhando ovelhas, cuidando da manutenção da fazenda e da alimentação dos bichos - é aliás bastante revelador. Ali esta um homem que vive para cuidar do bem-estar dos outros, anulando suas vontades e abafando os seus próprios desejos.
Nanouk Leopold dá ao filme um olhar lento, contemplativo mas nunca pedante. Não é aquele tipo de cineasta que estende além da conta o tempo narrativo. Antes oferece a medida cuidadosa (milimétrica até) para entender o tempo interior dos personagens e a forma como vivem, minuto a minuto, uma rotina sufocante. Para tanto extrai todo tipo de sons extra-ambientes (durante toda projeção, não se escuta nenhum barulho de rádio ou televisão, apenas o tic-tac do relógio!), reforçando nos azuis-cinzas-e-escuros da fotografia o clima de solidão e melancolia depressiva mas criando nuances de luz na vida monocromática de Helmer (ainda assim, quando surge a iluminação - do sol, por exemplo - serve apenas para anunciar a proximidade da morte).
A mão firme na condução da história faz o roteiro, quando este desenvolve um pouco mais o passado dos personagens - e entendemos finalmente o que fez Helmer anular-se durante parte da vida - não resvalar num apelo emotivo. Ao contrário, tudo parece convergir ainda mais num beco sem saída, onde a morte do pai (vagarosa, silenciosa, literal e figurativa) precisa acontecer para que o filho possa finalmente se libertar. De certo modo, é um filme que compartilha da secura emotiva de 'Amour' (2012), o retrato implacável da velhice e das transformações que ela inflige filmada pelo austríaco Michael Haneke. Pois é dessa visão desapiedada e rigorosa - em certos momentos, tão desesperadora quanto perturbadora - de sentimentos escassos e personagens que não conseguem se expressar emocionalmente, que a obra ganha enfim força dramática. Nesse processo, ajuda muito ter um interprete como Jeroen Willems vivendo um personagem tão cheio de arestas. O ator traz no rosto a própria imagem de amargura e reclusão, e ainda dosa com precisão o sofrimento sem exacerbar o drama. Para tanto, e como uma auto-confiança admirável, aplica um décimo de 'atuação' que outros julgariam necessária, mas atinge o dobro de potência e eficácia. O filme é aliás, dedicado a ele que morreu pouco antes do lançamento, ocorrido no Festival de Berlim (2013).
Um comentário:
Muito boa a sua resenha, Alexandre!
E vi que colocaram o filme no YouTube... depois vou dar uma olhada! ;)
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