domingo, 4 de agosto de 2013

O Caos Sussurrado

Produzida para o álbum ‘Coexist’ (2012), segundo trabalho da banda The XX, ‘Angels’ pertence aquele tipo de canção cuja suavidade sugere emoções aprazíveis e outras amenidades. De fato, sua harmonia delicada e vocal sussurrado constrói uma elegia as melodias silenciosas, e seu romantismo se pontua em recatada timidez. Causa espanto, portanto, sua capacidade em precipitar um mundo violento escondido abaixo da superfície. Como se a delicadeza dum veio d´água se transformasse em ondas gigantescas, invadindo a banalidade comum dos dias, arrastando-mergulhando-revolvendo- e-afogando corpo e alma num revolto mar de lembranças. Flutuando perdido em águas escuras - entre pequenos detalhes, fragmentos de imagens, cenas e emoções - o incauto ouvinte sente o peso de uma força turva arrastá-lo para as profundezas, matando-o e revivendo-o à cada nova audição. De onde vem essa energia estranha e desmedida, e que torna a memória numa vastidão tão perigosa, que liberta e aprisiona ao mesmo tempo? É absolutamente intrigante tentar encontrar uma resposta, um ponto de fuga entre tanta devastação num fim de noite ordinário. Seja qual for a explicação, contudo, ela não daria conta em articular as sensações - de desmoronamento, ruína e sobrevivência – dentro de um mundo em flutuação. Talvez as palavras do suiço Charles Ferdinand Ramuz se aplique a tanta subjetividade. Ele diz: "Todo o segredo da arte é saber ordenar as emoções desordenadas, mas ordená-las de tal modo que se faça sentir ainda melhor a desordem". Para uma canção tão superlativa quanto ‘Angels’ o intrincado que denota incerteza é tão importante quanto uma resposta que a justifique e esclareça. Mas é certo que há, aqui, uma verdade comum e que mesmo soterrada entre os escombros de destruição, e no rastro de fumaça deixado para trás, não demora ter sua certeza fosca enfim nítida: a imagem degradada dos sonhos e amores que se perderam e que não existem mais - apenas na memória. 

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