Numa decisão difícil, arriscada e necessária uma mulher mergulha
novamente nas águas escuras da tragédia, as mesmas que sua irmã um dia se
afagara, em busca de alguma limpidez, purificação e diluição de suas dores.
Narrado em primeira pessoa e, portanto, suscetível as acusações de que sua
representação não passa de mero exercício egocêntrico (ainda mais considerando
tratar-se de um acontecimento familiar), o que impressiona no documentário
'Elena' (2013) é justamente a maneira como torna uma história intima e muito
particular tão próximo do expectador, reverberando em múltiplos significados e,
sim, provocando o choque da ruptura e relações interrompidas. Numa análise
óbvia (e talvez preguiçosa) o filme serve como metáfora da vida, onde os
momentos de desespero são inevitáveis, mas que ainda sim, não importando o
tamanho da tragédia, cabe a nós permitir filtrar toda a tristeza, todo o
desespero, toda a loucura de uma dor insana. Atravessar travessias,
interpéries, enquanto incessantemente se é atravessado, até conseguir emergir a
superfície para continuar a viver. Na cena que melhor ilustra o encontro das
'memórias inconsoláveis' (e individuais da diretora Petra Costa) com um oceano
de outras mulheres (outras histórias, outras tragédias) e o processo final do
luto, têm-se o segundo grande momento na
junção entre imagem + música do filme. “Turn To Water”, cantada pela americana
Maggie Clifford, possui letra inspirada num trecho de uma novela de Guimarães
Rosa chamada Dão-Lalalão, publicada no livro “Corpo de Baile”. “Estou adoecida
de amor. Põe a mão… em mim… viro água”, diz o texto e, também, a letra.
Evocando o ar etéreo que se segue à brutalidade emocional da perda, a canção é
um lullaby delicado e algo sombrio, cujos acordes - que parecem cair feito
gotas, trepidando e ressoando ondas sutis num rio sereno - lembram também um
prenúncio (um anúncio de transformação). Já as imagens possuem um poder
imagético mais eloqüente (e porque não assombroso), tornando uma pequena
correnteza num mar de mulheres flutuando entrelaçadas, como representando a
resiliência do espírito humano diante da tragédia. “Se ela me convence que a
vida não vale a pena, eu tenho que morrer com ela”, diz uma voz. E para não pôr
fim à própria vida, Petra precisara enfim encenar sua própria morte, a morte
dela e de Elena, formulando sentido para aquilo que não tem nenhum e renascendo
de novo no líquido (uterino?) cujas águas mais parecem lágrimas.
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