sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pouco a Pouco, as Dores viram Água... viram Memória

Numa decisão difícil, arriscada e necessária uma mulher mergulha novamente nas águas escuras da tragédia, as mesmas que sua irmã um dia se afagara, em busca de alguma limpidez, purificação e diluição de suas dores. Narrado em primeira pessoa e, portanto, suscetível as acusações de que sua representação não passa de mero exercício egocêntrico (ainda mais considerando tratar-se de um acontecimento familiar), o que impressiona no documentário 'Elena' (2013) é justamente a maneira como torna uma história intima e muito particular tão próximo do expectador, reverberando em múltiplos significados e, sim, provocando o choque da ruptura e relações interrompidas. Numa análise óbvia (e talvez preguiçosa) o filme serve como metáfora da vida, onde os momentos de desespero são inevitáveis, mas que ainda sim, não importando o tamanho da tragédia, cabe a nós permitir filtrar toda a tristeza, todo o desespero, toda a loucura de uma dor insana. Atravessar travessias, interpéries, enquanto incessantemente se é atravessado, até conseguir emergir a superfície para continuar a viver. Na cena que melhor ilustra o encontro das 'memórias inconsoláveis' (e individuais da diretora Petra Costa) com um oceano de outras mulheres (outras histórias, outras tragédias) e o processo final do luto,  têm-se o segundo grande momento na junção entre imagem + música do filme. “Turn To Water”, cantada pela americana Maggie Clifford, possui letra inspirada num trecho de uma novela de Guimarães Rosa chamada Dão-Lalalão, publicada no livro “Corpo de Baile”. “Estou adoecida de amor. Põe a mão… em mim… viro água”, diz o texto e, também, a letra. Evocando o ar etéreo que se segue à brutalidade emocional da perda, a canção é um lullaby delicado e algo sombrio, cujos acordes - que parecem cair feito gotas, trepidando e ressoando ondas sutis num rio sereno - lembram também um prenúncio (um anúncio de transformação). Já as imagens possuem um poder imagético mais eloqüente (e porque não assombroso), tornando uma pequena correnteza num mar de mulheres flutuando entrelaçadas, como representando a resiliência do espírito humano diante da tragédia. “Se ela me convence que a vida não vale a pena, eu tenho que morrer com ela”, diz uma voz. E para não pôr fim à própria vida, Petra precisara enfim encenar sua própria morte, a morte dela e de Elena, formulando sentido para aquilo que não tem nenhum e renascendo de novo no líquido (uterino?) cujas águas mais parecem lágrimas.



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