Todos os anos, o cinema costuma oferecer expressões que caem no gosto popular, seja pelos seus significados ou pela identificação que carregam em relação a personagens e situações. Em 1999, não se falou outra frase além de "I see dead people", a dolorosa confissão de um garoto atormentado por visões. O curioso é que esta não é, nem de longe, a revelação mais desconcertante de 'O Sexto Sentido', filme dirigido pelo indiano M. Night Shyamalan. Na verdade, toda sua história parece saído de uma assustadora sessão espírita. O longa narra a trajetória do Dr. Malcolm Crowe (Bruce Willis), um psicólogo infantil. Ele tenta se livrar da culpa provocada pelo suicídio de um paciente tratando de outro muito parecido, o garoto Cole (Haley Joel Osment). Cole é tido como um esquisito incapaz de se relacionar socialmente. A causa de seu sofrimento, porém, é inesperada. "Eu vejo pessoas mortas", anuncia o garoto ao terapeuta. É interessante rever a fita e observar a eficácia com que Shyamalan, autor também do roteiro, consegue distribuir todas as pistas importantes da trama sem enganar o expectador. A história é tão bem contada que simplesmente não percebemos a verdadeira situação dos personagens. O que torna seu desfecho algo acachapante (uma das maiores reviravoltas do cinema no final do anos 90). A escolha dos atores é outro achado. Donnie Wahlberg, irmão do também ator Mark Wahlberg, e ex-New Kids on the Block, surpreende como um antigo paciente transtornado por alucinações. Bruce Willis interrompeu a sequência de interpretações no piloto-automático (a maioria em filmes de ação) para abraçar um estilo dramático insuspeito. Toni Collete, essa atriz singular de filmes igualmente únicos - como 'O Casamento de Muriel' (1994); 'Velvet Goldmine' (1998) & 'Pequena Miss Sunshine (2006) - é um arraso. Seu desespero por não saber como ajudar o próprio filho é comovente. Por fim, temos Haley Joel Osment, um dos mais extraordinários atores mirins da história do cinema. Osment impressiona tanto pela precocidade quanto pela capacidade notável de projetar sofrimento e inteligência. É bem possível creditar parte do sucesso do longa a sua atuação. O próprio M. Night Shyamalan reconheceu: " (...) em todos bons filmes há um elementos de 'magia' que simplesmente não pode ser reproduzido. Nesse caso, Harley é a nossa mágia". Somado ao ótimo desempenho do elenco, o que faz com que a fita ganhe a platéia é seu equilíbrio entre pregar sustos genuínos mas sem perder de vista o aspecto humano. Afinal, o sofrimento de Cole pode originar-se tanto no plano espírita quanto na tortuosamente terrena solidão.
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