domingo, 4 de agosto de 2013

Pudor na Nudez... Sincera dos Sentimentos

Um filme como "Bruna Surfistinha" (2011) não convida o espectador esperando dele grandes expectativas e, talvez por isso, a experiência de assistí-lo resulte... boa. É bem verdade, contudo, que o longa recorre a um enredo linear (e muito simplista) ao apresentar a história da jovem Raquel Pacheco, filha adotativa mas bem-criada da classe média, aluna de escolas tradicionais da elite paulistana (São Luís e Bandeirantes), e que um dia sai de casa e decide virar garota de programa. Da adolescente tímida e deslocada à ascensão no mundo da prostituição (quando adota o nome do título e passa a publicar num blog suas aventuras com clientes), o roteiro toma atalhos para explicar os motivos que a levaram a escolher essa vida. Em 'O Doce Veneno do Escorpião', livro que serviu de base para essa adaptação (muito livre, diga-se), conhecemos uma adolescente bem nascida e cleptomaníaca, que usa roupas da moda e parece tratar o sexo como rebeldia, masturbando garotos em baladas. No filme, nas poucas cenas do "passado", Raquel tem dinheiro negado pelo pai, não sai à noite e, quando rouba, o roteiro a perdoa: é por questão de vingança e não compulsão! A vitimização da personagem se estende às cenas no presente. Outro exemplo: no livro, Bruna dá a entender que deixou o privê onde convivia com outras garotas de programa porque quis; no filme, ela sai martirizada, expulsa por assumir uma culpa que não teve. Essa insistência em simplificar carências e sentimentos confusos (mas legítimos) termina reforçando uma imagem de fragilidade e frivolidade que tem, ironicamente, muito de machista. Cabe ressalvas também ao dia-a-dia da profissão, mostrado aqui sem julgamentos, mas se prendendo meramente às curiosidades de sua rotina. Assistimos a tudo como tépidos voyeurs, se divertindo até, mas se incomodando por que o enredo limita-se aos lugares comuns.

Com tantas falhas estruturais no roteiro, é surpreendente que o filme não tenha virado um genuíno abacaxi! E se isso não acontece muito se deve ao diretor estreante em longas-metragens Marcus Baldini. Egresso da publicidade e do mercado de videoclipes, ele mostra segurança ao aplicar idéias e desenvolver o talento de sua equipe. A utilização da trilha sonora como elemento narrativo é um (bom) exemplo – canções como "Street Spirit (Fade Out)" e "Creep", do Radiohead, são citadas em cenas curtas mas pontuais. O mesmo pode ser dito no trabalho realizado como os atores. Os coadjuvantes em especial estão todos muito bem, com destaque para Drica Morais (uma atriz que dispensa referências), Fabíola Nascimento (de "Estômago") e Guta Ruiz (da série "Alice", da HBO). Nada evidencia a eficácia do cineasta, contudo, do que a maneira como conduz a atuação de sua protagonista. Habilidoso, Baldini consegue um pequeno feito ao amenizar a afetação que costuma caracterizar as performances dramáticas da atriz Deborah Secco - e que corresponde em momentos de real sinceridade. Mesmo recorrendo a algumas caras & boca, além de certa respiração arfante (bem típicas da moça), notasse uma atuação esforçada e que vai evoluindo com a personagem (é fato consumado, contudo, - e o recente seriado 'Loucos Por Ela' deixou bem claro: seu verdadeiro timing é mesmo para a comédia). Cercado de (boas, e principalmente, más) expectativas quando estreou nos cinemas, a obra se tornou rapidamente um sucesso de bilheteria (e como não poderia deixar de sê-lo?). O inesperado porém, era que mesmo sem a força para figurar entre os melhores do ano, o filme estava longe de ser a bomba que grande parte do público e mídia esperavam. Para quem não viu, vale uma olhadela (ainda que seja nos 'Supercine's da vida).



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