quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sutilíssima!

Há pelo menos dois grandes momentos envolvendo imagem e música no documentário 'Elena' (2013). Num deles, a cineasta Petra Costa dança no meio da rua, em meio as luzes difusas dos postes, como um dia fizera sua irmã (que como breve feixe de luz apagou abrupta, deixando lacuna de imensa e assustadora escuridão em sua família). A cena em questão ganha vida através das notas sensíveis de Vitor Araújo, jovem pianista pernambucano que empresta a sua 'Valsa Pra Lua' para o longa-metragem. O artista ganhou projeção no cenário musical pelo estilo performático de suas apresentações - e por ter provocado uma discussão inútil no meio acadêmico erudito por conta da forma pouco ortodoxa com que encara partituras de músicas e compositores clássicos. A capa do albúm 'TOC' (2008) dá uma idéia de seu estilo 'descontraído' onde, remetendo ao inglês Jamie Cullum, o moço - digamos - acentua sua jovialidade tocando o piano sentado e em pé (com as mãos e com os pés!). Os defensores dos valores conservadores esqueceram, contudo, de avaliar o trabalho do artista além do barulho oco amplificado pela polêmica. E a delicada 'Valsa pra Lua' é prova de sua técnica e talento como pianista. O tema carrega algumas influências - as mais perceptíveis do maestro Philip Glass, em especial o score realizado no filme 'As Horas' (2002), e um certo clima da chanson francesa maravilhosamente trabalhada pelo compositor Yann Tiersen em 'O Fabuloso Destino de Amélie Poulain' (2001) - mas nada que tire o brilho particular desta bela melódia com quase 7 minutos de duração! Muito porque seu clima outonal, de folhas despencando de uma velha árvore, possue uma subjetividade que se adequa bem a transição de um estado de coisas - do raio de sol para um céu de chumbo, da flutuação num ponto delicado a um corte abrupto, das lembranças que confortam as emoções que sufocam. A música - auxiliada pelas imagens e um pequeno poema na cena citada acima - complementa enfim, e com superlativa exatidão, a valsa sutilíssima de Petra Costa e os extremos de sua emoção: "As memórias vão com o tempo, se desfazem, mas algumas não encontram consolo, só algum alivio nas pequenas brechas da poesia. Você... é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce e dança". 


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